sábado, 18 de outubro de 2014

A Arte de Sorrir Cada Vez Que o Mundo Diz Não





A frase que dá título a essa postagem foi retirada de um trecho da canção Brincar de Viver, eternizada na interpretação profunda e sensível de Maria Bethânia. Como ela, muitos outros trechos de canções que nos emocionam e nos fazem cantarolar, resumem bem a maneira de ser e de viver dos gays. Um outro bom exemplo é: "Viver e não ter a vergonha de ser feliz", da música de Gonzaguinha, que já virou um hino brasileiro, O Que É, O Que É

O assunto que escolhi pra hoje é algo que acho lindo, mas por muitas vezes intrigante. Por isso resolvi destrinchá-lo. A alegria dos gays; o humor, por tantas vezes ácido e sarcástico, e por isso mesmo irresistível; o timming pra comédia e pro deboche, o talento quase nato pra fazer os outros rirem, pra rir dos outros e, principalmente, rir de si mesmo; transformar desgraça em graça, sempre, o tempo todo, demonstrando uma vocação absurda pra ser feliz. 

Não à toa, o termo em inglês gay virou sinônimo para definir homossexuais masculinos e femininos há tanto tempo, que em minhas pesquisas nem encontrei data específica de quando o termo começou a ser utilizado para se referir à nós. Mas, originalmente, a palavra não tinha conotação sexual necessária. Era usada para designar uma pessoa espontânea, alegre, entusiástica e feliz. 

Alguma dúvida de que os homossexuais, em sua maioria, sejam assim? Artistas como Paulo Gustavo, Evandro Santo e Nanny People, fazem sucesso com sua inteligência, vasta cultura de mundo e humor tipicamente gay, arrastando multidões aos teatros, salas de cinema e elevando a audiência da TV aberta e fechada. Outros tantos que não são gays, tem em seus personagens homossexuais a preferência do grande público, vide Lúcio Mauro Filho e seu afetadíssimo e inesquecível Alfredinho, do Zorra Total, em seu primeiro grande papel de destaque na televisão; o sumido Tom Cavalcante e o inoxidável Pit Bicha; Jô Soares e um já quase esquecido Capitão Gay, mas certamente o mais lembrado dentre todos os personagens de seu já vintage Viva o Gordo; e, como não citar Painho e Haroldo (Luana), dois grandes destaques em meio às mais de 200 criações do grande Chico Anysio, que permanece no imaginário cômico do brasileiro até hoje. 

Isso sem falar nos personagens coloridos das telenovelas que, quanto mais caricatos, venenosos, debochados e sarcásticos, mais o público se deleita e a grande massa acolhe como personagem queridinho, pela rápida assimilação e identificação que possibilita a química entre espectador e personagem, e aqui não falo só de espectador gay, mas de hétero em sua maioria. Bons exemplos são o mordomo Crô (Marcelo Serrado), de Fina Estampa; o Félix (Mateus Solano), de Amor à Vida, que elevou seu intérprete ao patamar de grande estrela da televisão; e, atualmente, Xana Summer (Aílton Graça), em Império.

Nos últimos dias, em rodinhas de amigos, um dos assuntos preferidos da galera em se tratando de personagem do momento, com essa pegada cômica e divertida, tem sido o concierge (porteiro) Ferdinando, do programa Vai Que Cola, do canal Multishow. O personagem, vivido por Marcus Majella, ator que é praticamente pupilo de Paulo Gustavo, tem agradado bastante e dado o que falar. Em suas participações nos vídeos do Porta dos Fundos o ator também arranca gargalhadas com personagens, em sua maioria gays, como o Sandrinho dos vídeos Cura e Especial de Natal

Todas essas citações é só pra corroborar com a constatação de que gay é feliz sim, e muito, apesar de todos os pesares. Apesar de todo o ódio, de toda a agressão e violência física e verbal, de toda a homofobia, preconceito, ignorância, dos assassinatos nossos de cada dia. Apesar da maldade, de toda a injúria e maledicência. Apesar de todo o fel e podridão que tentam nos imputar. Apesar de Malafaias, Felicianos, Bolsonaros e Fidelixs, somos felizes. Porque quem não é feliz não dá risadas, não faz piadas, não tem a sede de viver e de amar que nós temos e, principalmente, não consegue fazer ninguém feliz. E fazer os outros felizes é um dom que o ser gay tem. 


Eu sei, eu vejo, eu sinto, convivendo com pessoas diariamente na minha vida, eu atesto o bem que faço a elas pelo simples fato de ser quem sou, por apenas fazê-las gargalhar, com uma careta, um deboche na hora certa, uma frase de efeito hilária num momento inesperado, às vezes, uma simples revirada de olhos e gargalhadas sem precedentes tomam conta de todo o espaço. Muitas vezes é espontâneo, quase sem querer, fruto de uma alegria que não me parece ter outra explicação, está no DNA. Eu faço a diferença no dia a dia daqueles que estão ao meu redor e me torno único e inesquecível pra eles, principalmente, e disso não tenho dúvida, porque tenho uma alegria intrínseca em mim. Alegria essa que não me deixa nunca perder a piada e a oportunidade de arrancar uma gargalhada ou um simples sorriso dos que estão por perto. 

Minha energia boa, graças a Deus, contamina as pessoas, reconheço isso, assim como reconheço também a energia de outros gays amigos e/ou artistas, que me contagiam e me inspiram, como se fosse uma corrente, uma corrente do bem. Mas não pense que o gay é um bobo-alegre, um palhaço, que está ali ao alcance do hétero para fazê-lo divertir-se à suas custas. Uma das frases mais detestáveis de se ouvir é: 
"Adoro os gays porque eles são tão engraçados." 
Sabemos reconhecer quando é um elogio sincero e bem intencionado e quando não passam de palavras carregadas de um preconceito que a própria pessoa ignora. E essa segunda parte não é legal #ficadica. É bom saber também, se você ainda não sabe, que bom-humor e o dom de fazer rir, basicamente sempre vem atrelado à pessoas inteligentes e, como seres inteligentes que somos, estamos cientes de nossos direitos, e por eles batalhamos e brigamos aguerridamente, mas certamente sem tirar o sorriso do rosto e alegria de viver, pois como disse Che Guevara: "Hay que endurecer, pero sin perder la ternura jamás." 

E assim seguimos com essa intacta e ainda intrigante alegria. Por que, afinal, somos tão bem humorados e alegres? Escrevi, escrevi e acabei não respondendo a questão, porque na verdade eu não sei ao certo, mas desconfio que tem a ver com a nossa liberdade (não confundir com libertinagem) e essa satisfação inigualável de ser quem se é, de dizer com a boca cheia: eu sou isso, eu sou aquilo, eu sou assim e pronto. Você pode contestar, espernear, praguejar o quanto quiser, mas nada vai mudar a minha verdade. E como já dizia a bíblia: "A verdade vos libertará"

Então é isso, driblamos todas as adversidades, encontramos a verdade e a liberdade e essa mistura nos dá o super poder da alegria. E mesmo com toda a hipocrisia alheia ao nosso redor não nos tornamos "um pote até aqui de mágoa", como na canção de Chico Buarque, Gota D'Água, mas sim um poço de felicidade. E, contrariando outra pérola do nosso cancioneiro: tire a sua dor (inveja, recalque, infelicidade) do caminho, que eu quero passar com meu sorriso

Para finalizar, deixo-vos com os últimos versos da canção de Bethânia citada na abertura deste texto:

"E eu desejo amar todos que eu cruzar pelo meu caminho 
Como eu sou feliz, eu quero ver feliz
Quem andar comigo, vem..."
Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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2 comentários:

Alexandre Melo disse...

Acho que temos essa capacidade de subverter em graça as advsersidades que passamos mais que os outros justamente por passarmos por momentos bem mais delicados e termos, assim, a sensibilidade mais aguçada.

Aprendemos a ver o mundo com outros olhos e se fôssemos nos debulhar em lágrimas a cada pancada (e são muitas) que levamos viveríamos em trevas. De certra forma, criamos uma carapaça de humor ferino que nos é peculiar até mesmo como diferencial do hetero-normativo mas, fico meio receoso se não usamos esse mesmo humor como máscara para dilemas e temores muito mais profundos caindo no estereótipo do 'gay alegre' que me parece meio pernicioso e é apenas reforçado pela mídia, sinto dizer.

Não acho que devamos abrir mão desse humor tão peculiar que usamos e é parte de nossa cultura mas apenas ficar atentos quando os meios de comunicaçaõ tentam usar isso como chamariz pois então se presta um desserviço.

Leandro Faria disse...

Acho gay uma raça estranha. E feliz!
:-)