sábado, 25 de outubro de 2014

Assexuados: "Nunca Vi, Nem Comi. Eu Só Ouço Falar..."





Nunca fiz o tipo louco, desesperado, insaciável por sexo. Tive meus momentos mais fogosos, entre os 22 e 27 anos, até porque na adolescência reprimi muita coisa. Ainda assim, fui um adolescente tranquilo em se tratando de sexo; meus hormônios eram calminhos e a educação ultra-religiosa ajudava um bocado também em meu comportamento de menino-moço.

Meu interesse por música, literatura, cinema, escrita e os devaneios românticos com um garoto especial que surgiria na minha vida e me levaria pra passear de mãos dadas num bosque florido e verdejante, me distraíam bastante dos desejos latentes pertinentes à idade, onde os hormônios estão em ebulição quase que ininterruptamente. Mas, como também não sou de ferro, nem vou ficar aqui bancando o puritano; confesso que guardo deliciosas lembranças de uma certa coleção de revistas direcionada à meninos que gostavam de meninos, em seus áureos tempos. Que saudades de Mateus Carrieri, Dinei, Rodrigo Phavanello, Nico Puig, o irmão gêmeo do Vavá, Alexandre Frota e tantos outros moços generosos, que não tiveram pudor algum em mostrar seus dotes inesquecíveis!

No entanto, admito que atualmente, já na faixa dos 30, a libido deu uma boa amenizada. E, como homem gay, jovem, saudável (embora fora de forma) e sociável, às vezes acho meio estranho minha falta de interesse por sexo. Quando paro pra conversar sobre com alguém com quem tenho mais intimidade, a pessoa diz na lata "tá parecendo assexuado". Entre o grupo de amigos mais chegados isso se tornou uma brincadeira divertida e sempre que nos referimos a alguém do grupo tem: a pintosa, a bombada, a passiva, e eu sou a assexuada. Nos tratando sempre no feminino, de forma escrachada e apenas entre nós, porque adoramos ridicularizar os rótulos e não temos problema nenhum em ser pintosa, bombada, passiva ou assexuada.

Mas assexuado ainda é uma condição meio desconhecida, pouco falada e há muitos que duvidam que ela exista. Eu mesmo nunca conheci ninguém que fosse, mas também nunca vi disco-voador e tem gente que jura que existe. Brincadeiras e incredulidades à parte, acho absolutamente possível pessoas que não sentem desejo sexual estarem entre nós e tendo uma vida perfeitamente normal e feliz, sem necessariamente precisarem fazer sexo pra isso.

Já falei aqui neste mesmo espaço sobre as diversas vertentes do desejo sexual humano, mas agora a questão é sobre o não-desejo. E, por incrível que pareça, pessoas que não desejam fazer sexo com ninguém sofrem tanto ou mais preconceito quanto os que tem seu desejo desviado do dito "normal". Porque, se não é normal sentir atração por alguém do mesmo sexo ou pelos dois sexos, é inquestionavelmente anormal não sentir atração por sexo nenhum. Tem que sentir, nem que seja por bicho, nem que seja por criança, porque de alguma coisa você tem que ser tachado, mesmo que seja de pervertido, escória da humanidade. E os assexuados já estão sendo tachados de doentes pelos bastões da normalidade.

Elizabeth Abbott, especialista em celibato da Universidade de Toronto, no Canadá, diz em sua pesquisa que os assexuados são os novos gays. A exemplo dos homossexuais na década de 1970, eles são vistos como doentes e sofrem punições sociais por suas escolhas. Se os celibatários se reprimem em nome de uma causa, assexuados não têm impulso sexual: "Celibato é uma atitude 'santa' de controle dos instintos. Já assexualidade é vista como ausência de instintos, como se a pessoa não fosse um ser humano pleno".

Existem grupos de apoio à assexuados, embora isso possa soar tão sem sentido quanto grupos dos que não curtem chocolate: não há violência contra assexuados nem barreiras para que façam o que querem - uma vez que eles não querem fazer nada. Será que esses grupos são mesmo sem sentido? Deveria ser. Mas como existe louco pra tudo nesse mundinho-cão, é melhor que eles existam.

O problema mesmo, se é que é um problema, é que vivemos em uma sociedade que enaltece ideias românticas e vende sexo o tempo inteiro. E conquanto as ideias românticas me agradem, esse apelo sexual excessivo que ronda o país do carnaval me incomoda de fato. Sendo gay então, e convivendo com tantos deles, a coisa toma dimensões estratosféricas. A promiscuidade me cerca por todos os lados e, talvez por isso, eu destoe tanto da manada, mas posso afirmar, assexuado não sou, minha libido está apenas controlada. Gosto de sexo! 

Agora, quando chegar aos 40, já não garanto mais nada!
Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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7 comentários:

Camila Cerdeira disse...

Existe algumas informações erradas aqui no texto, não querendo desmerece-lo de forma alguma.
Por mais que assexuado e assexual signifiquem gramaticalmente a mesma coisa, assexuado é mais comumente usado para objetos ou na biologia para falar de animais não desenvolvidos e por isso tem uma conotação ruim. Por isso a comunidade de assexuais adota o Assexual, além disso gera uma uniformidade. Já que é bissexual, homossexual e heterossexual.

Quando a questão de violência, existe muita violência contra assexuais. Nem todo assexual é arromantico, arromantico são pessoas que não tem desejos romanticos, pessoa que não tem intenção de se envolver em relacionamentos amorosos. Na verdade a maioria dos assexuais tem desejo de namorar e construir relações. E quando estão em relações sua assexualidade raramente é respeitada, é muito comum que eles sejam forçados a fazer sexo e isso é estupro, o que é uma forma de violencia. Além deles comumente serem taxados de serem pessoas quebradas, defeituosas e outras formas que atacam gravemente a auto-estima
Assexuais sofrem muita forma de violência tanto física, mas principalmente psicologica.

Eu digo isso por que tenho duas amigas que são assexuais.

Leandro Faria disse...

Eu confesso, não consigo entender a falta de libido e afins, mas, tento respeitar. Claro, tirando um sarro dos amigos um pouco menos afeitos ao sexo.
Mas curti seu texto, que foi bastante divertido e interessante.

E curti também o comentário da Camila, abrindo ainda mais o leque da discussão levantada por você e trazendo até mesmo esclarecimentos.

Adoro interação e acho que o espaço aqui dos comentários serve exatamente para isso!

Esdras disse...

Obrigado pela correção em relação ao termo assexuado, Camila. Quanto a assexuais não serem arromânticos eu já sabia. Foi apenas um lapso não passar essa informação. É mesmo chocante saber que estes sofrem violência qdo em um relacionamento, mas eles (os assexuais) não procuram se relacionar apenas com outros assexuais pra evitar esses problemas?

Valeu pela participação!

Alexandre Melo disse...

Não concebo eu ser assexual e olha que já passei dos 4.0 há algum tempo e a libido permanece a mesma porém, seletiva. Acho que esse é o amadurecer, a qualidade passa a ser mais, muito mais importante que a quantidade.

Talvez o sexo seja uma mercadoria super valorizada ou, na verdade, banalizada pelo erotismo aberto de nossos tempos, não há mais mistério ou algo a descobrir com a rede abrindo suas pernas sem restrição de idade ou gênero.

Eduardo Silva disse...

Adorei o texto.
Me identifiquei muito, pois sou como vc, gosto de sexo, mas não igual a maioria.
Parabéns pelo ótimo texto.

Camila Cerdeira disse...

Considerar que assexuais só se relacionariam com outros assexuais é uma forma de preconceito. É como falar que bissexuais deveriam se relacionar apenas com outros bissexuais ou que pessoas trans só deveriam se relacionar com outras pessoas trans.

É comum que esse tipo de relação aconteça? Até é, as vezes as pessoas se conhece em grupos de apoio, em foruns e existe uma conexão natural. Entretanto a porcentagem de assexuais no mundo é muito menor do que a de não-assexuais. E como qualquer outra pessoa eles não escolhem por quem se apaixonam...

o que acontece é que quando se é abertamente um assexual vai haver um preconceito enorme por que socialmente somos postos que relacionamentos precisam ter sexo, se faz piada de quem quer casar virgem.

Eu não teria problema algum em me relacionar com uma pessoa assexual, algumas pessoas teriam. Assim como algumas pessoas tem problema em se relacionar com uma pessoa trans e por mais que muitas pessoas não queiram ver assim, isso é preconceito, afinal você está colocando uma imposição sobre algo que a outra pessoa não tem controle. É equivalente a dizer que não namoraria um negro por que ele é negro.

Serginho Tavares disse...

Sobre a falta de libido eu só espero nunca ter!
Beijos meu querido e parabéns mais uma vez pelo excelente e elucidativo texto!