domingo, 26 de outubro de 2014

Em Busca da Terra do Nunca?





Dias atrás, tive a oportunidade de visitar a exposição 40 Anos Playmobil - O Sorriso Mais Famoso de Todos os Tempos. Obviamente que 60% das pessoas presentes eram trintões ou quarentões, como eu (friso que sou trintão desde já...), fãs dos bonequinhos de cabelo encaixado e mão em forma de U. E as outras 40% eram filhos dos demais presentes que estavam ali como desculpa de seus pais para assumirem a sua tietagem. 

Sou um fã de Playmobil. Lembro até hoje da minha não muito vasta coleção, que incluía um posto de gasolina, um aviãozinho e uma nave espacial, ser destruída solenemente pelo meu vizinho mais novo após a minha bondosa mãe entregá-la nas mãos dele, enquanto eu chorava, impotente. “Deixa ele brincar, ele é menor que você, você tem que entender”, dizia polianamente a minha progenitora... Não sei se ela tem noção do micro trauma que ela pode ter criado... Ao menos, ela me tornou uma pessoa ainda mais ciumenta em relação a brinquedos, livros, DVDs e afins. 

Na verdade, esse texto não se trata de Playmobil. Mas da tão alardeada Síndrome de Peter Pan que, alega-se, aflige a nossa geração. Homens que parecem não amadurecer; mulheres que se portam como patricinhas eternas; balzaquianos morando na casa dos seus pais por opção... 

Quando me mudei, há poucos meses, para a minha casa atual, concretizei um plano antigo: instalar uma prateleira só para colocar alguns brinquedos que eu e meu companheiro ainda tínhamos. Bonecos de Playmobil, claro; carrinhos antigos; e uma coleção de miniaturas de desenhos animados adquiridos com muitas gorduras, calorias e vergonha de pedir no caixa um McLanche Feliz – às vezes, assumia que era pra mim mesmo, mas em geral falava que era pra um afilhado ou um sobrinho imaginário. 

Falando em sobrinho, eu tenho uma, de oito meses! E qual foi a frase que a minha irmã disse ao ver a tal prateleira, com a minha sobrinha no colo? “Olha, filha! Um monte de brinquedo pra você brincar e destruir quando crescer!”. Tenho, entre as minhas centenas de DVDs, alguns desenhos animados que guardo com muito carinho. Mesmo com as críticas péssimas, queria ter ido ver o novo filme dos Cavaleiros do Zodíaco no cinema. Um dos enfeites do meu quarto é um Pato Donald de pelúcia – personagem que diz muito da minha personalidade, para quem me conhece... Tudo isso me faz refletir: estaria eu peterpanizado? Logo eu, reconhecidamente um velho ranzinza em um corpinho de 20 anos? 

Eis que inverti a lógica e busquei entender o lado que nos enxerga. Na verdade, nós vivemos o rescaldo de gerações que, por séculos, foram cobradas a serem maduras e responsáveis por suas respectivas e tradicionais famílias. E ser adulto, para eles, significava despir-se de tudo que os remetia à infância. Ora, quais os momentos áureos de uma festa de 15 anos, quando a menina se torna “mocinha”? A dança dela com o seu príncipe e a troca que ela faz do seu ursinho de pelúcia pelo sapato de salto. Aliás, festa essa que tem sido cada vez menos realizada... Sou de uma família cujo pai vem de uma cidadezinha no Agreste da Paraíba. Lembro, quando tinha meus 14 ou 15 anos também, de ter sido confrontado pelo meu tio mais velho do porquê de eu não montar cavalos, pois, para ele, para ser “macho” tinha que montar cavalo. 

Lembro que respondi a ele que teria muitos outros motivos para lhe mostrar a minha maturidade e que, definitivamente, subir num cavalo não era uma delas. Lembro também de minha mãe dizendo que todas as minhas promessas e de meus amigos de infância de mantermos contato, custasse o que custasse, seriam em vão, pois “ela também jurou isso, mas cada um vai viver as suas vidas”. Ela estava errada; mantenho contato com muitos deles até hoje (claro, turbinados por redes sociais e livre acesso às comunicações, coisas que eles não tinham antes), inclusive tive um reencontro recente com amigos de mais de duas décadas que eu não via havia 13 anos. Foi um dos momentos áureos do meu ano até agora, inclusive reatar a amizade com o meu melhor amigo de 20 anos atrás. Não me senti sendo criança nem um pouco. Apenas me senti honrado de ser Paulo Henrique e de saber como cheguei até aqui. 

Não julgo as gerações anteriores, em especial a dos nossos pais. Eles sofreram o maior choque paradigmático de todas as gerações desse planeta: eles nasceram numa era em que a TV mal existia nas casas e que era necessário pedir bênção a pai e mãe; e hoje veem um mundo regido pela frenética e lânguida Internet e whatsapps da vida e não tem dos seus filhos o mesmo tratamento que tinham que dar aos nossos avós. Atravessaram uma Ditadura que pregava os bons costumes, fazia-se a tão falada “defesa da família” e na qual se estudava Moral e Cívica na escola. O casamento dos meus pais foi tradicionalíssimo – terno marrom, quindim na mesa, protagonismo da Igreja, recepção à família e mais nada. Hoje, vemos casamentos em que a celebração religiosa é mera formalidade e a festa é o ponto altíssimo, com direito a funks e baterias de escola de samba, noivos indo até o chão, open bar, quase uma micareta de engravatados e moças de vestido. E nossos pais estão ali, no meio disso tudo. Sorrindo e acenando aos convidados. 

Assim como não os julgo, também não quero ser julgado. Não, meus brinquedos não serão presas fáceis da minha sobrinha, por mais que a ame demais; não tenho vergonha dos meus DVDs de Monstros S/A, Alladin e Alice no País das Maravilhas (ok, até a minha mãe me pediu emprestado Madagascar...); só não fui ver Cavaleiros do Zodíaco por falta de tempo; e só tirei o meu Pato Donald da minha cama para que a cachorrinha filhote que adotei recentemente não o destruísse. E só não tietei mais os Playmobils na exposição por causa do recalque com o vizinho.

Definitivamente, não estou em busca da Terra do Nunca. Só não quero abandonar o Paulo Henrique de sempre.
Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista convidado de hoje, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
FacebookTwitter


Nenhum comentário: