quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Encontros e Despedidas





Não sei lidar com o adeus. Uma coisa é quando brigamos com alguém e não desejamos ver essa pessoa nunca mais na nossa frente. Mas outra é quando alguém tem que ir embora. Não é escolha sua nunca mais ver aquela pessoa. Não houve briga, muito menos um desentendimento. O que acaba acontecendo é a vida que arma alguns encontros e nos surpreende com despedidas não programadas.

Meu pai morreu quando tinha dois anos. Quando pequeno, chorei inúmeras vezes. Na grande maioria, em datas especiais, como dia dos pais e o Natal, por exemplo. Meu choro, na época, era por sentir falta de alguém que nem lembrava mais como era. Existiam fotos, os momentos narrados por minha mãe e amigos do meu pai, mas nada em minha memória. Sem dúvida, esse foi o meu primeiro contato com a morte e o legado que ela sempre deixa: ausência.

Vocês já repararam que a pior coisa que fica quando alguém vai embora é o espaço vazio? Ou estávamos acostumados com a presença de alguém sempre ali, ou estávamos acostumados com a ideia reconfortante em saber que alguém estaria sempre ali, quando a gente precisasse, ou não. No fim, é aquele velho ditado: Não sabemos a falta que sentiremos de alguém, até esse alguém ir embora. Não sei se foi após perder o meu pai que desenvolvi meu receio com adeus e despedidas. Muito provavelmente foi. É na infância que muitos traumas nascem. Ao menos é o que os psicólogos e terapeutas dizem.

Meu problema está na hora de dizer adeus. Não sou bom com últimas palavras (não quero nem imaginar qual seria a minha). Me dói, por exemplo, quando vou ao aeroporto ou rodoviária levar algum amigo. Ao passo que amo quando faço o movimento contrário. Pegar amigos na rodoviária ou aeroporto é o máximo. Ter eles por perto, abraçar e poder conversar sem usar teclados ou mensagem de voz faz toda a diferença.

Mas, voltando ao assunto do post da semana. O adeus. Ele é complicado. Pode ser um até logo breve ou mesmo grande, quando é uma mudança de cidade ou país. Mais uma vez, não sei como lidar. Desejo coisas boas, óbvio, mas queria poder fazer mais. Demonstrar mais o quanto sentirei falta. O quanto essa pessoa ir embora é triste pra mim. Mas acabo me isolando em meu mundo e dizendo o meu adeus simples mesmo.

Já quando alguém morre, prefiro ficar com os momentos vividos a o último adeus. Por ironia do destino, a última pessoa que vi sem vida foi minha avó. Foi tudo muito de repente. Do nada ela estava bem e, algumas horas depois já não estava mais. Foi triste sua partida, mas foi uma tristeza diferente do que senti das outras vezes em que chorei por meu pai. Cada lágrima que derramei daquele dia até hoje, tem uma saudade específica. Seja dos nossos momentos juntos, por incentivar minha vontade em ser roteirista, ou pelas broncas que me dava. É aquela ausência que falei lá em cima. É a falta de ter ao meu lado nos momentos em que foi e continua sendo necessária.

Quando alguém entra na sua vida, não tem como medir o tamanho da importância que essa pessoa terá. E nem como e quando existirá um adeus.
Leandro Faria  
Silvestre Mendes, o nosso colunista de quinta-feira no Barba Feita, é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance.
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5 comentários:

Glauco Damasceno disse...

É estranho. Meus tios morreram, minha prima morreu e eu era, relativamente, próximo deles, mas não derramei uma única lágrima, em nenhum dos três velórios. A minha aversão a esse tipo de evento é tanta que eu não tenho nem emoção, nem sei como agir, aí acabo agindo normalmente. Estranho demais...

Marcos Campos disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marcos Campos disse...

Acho complicado também, e as vezes me pego pensando na minha reação, pois não tive até hoje uma ligação tão estreita com a morte, tenho uma grande família e ninguém ainda se foi, mas essa ausência, esse vazio que vc diz que fica da pessoa, as vezes fico imaginando como será quando minha mãe se for. Bom, mas isso não tem remédio, sabendo lidar ou não, vamos passar por isso, e como vai ser, cada um desenvolve sua técnica.
Bem legal o texto !
Abraço !

Leandro Faria disse...

Eu evito pensar na morte. Já perdi pessoas próximas (minhas duas avós, um amigo querido na adolescência), mas é estranho ficar conjecturando sobre algo para o qual eu, sinceramente, não estou preparado.

Somente uma coisa é fato: você me fez pensar sobre o assunto e, mais, me emocionou de maneira sutil, com um texto que, já disse, é lindo, lindo e lindo.

Bjo, meu amigo!

Alexandre Melo disse...

Olha, antes de ler teu post havia comentado isto no de Esdras e acho que se aplica (parte dele) aqui:

'...Também sou avesso às datas comerciais (de festivas elas não possuem nada mesmo, não preciso de uma data específica para prestar homenagem ou lembrar quem quero bem) e recentemente perdi meu pai mas, não fiz de finados uma data a ser guardada como não o fiz quando minha mãe se foi. As lembranças deles não precisam de um dia determinado no ano, elas usam todos os 365 livre e aleatoriamente, essa é minha homenagem e eu aqui seu maior legado.

Todavia, esse rito da morte acho necessário pois serve como passagem e fechamento/encerramento, não passar por ele é pasteurizar algo que faz parte da vida, precisamos desse processo de purgação e 'exorcismo' da presença que não mais teremos para tentar achar algum alívio ou sentido no fato da finitude que será nossa mais dia ou menos dia.

Uns abraçam a fé cegamente, outros rebelam-se contra o universo, vai de você, eu purguei pelas lágrimas e passei minha fase não apenas com meus pais mas com amigos, amantes e namorados e, ao fim, sempre os levei aqui comigo sem precisar de uma data ou templo para isso.

Eu sou o templo vivo deles e eles o meu.'

Ia escrever mais porem, muito recentemente perdi meu pai, mal fez quinze dias e não consigo mais escrever nada....não depois de ter lido isso aqui ainda que acredite piamente no que citei acima....