terça-feira, 14 de outubro de 2014

Eu Sou Gay





Ninguém quer ter uma vida dupla. Mentiras, desculpas, planos mirabolantes, álibis, tudo pra tentar ser feliz, tentar se divertir, tentar levar uma vida... normal! Todos querem ter uma vida tranquila e nada além disso.

Quando se fala em gays dentro do armário, a pressão é maior. Quando contar? Quando é válido dizer "Eu sou gay"? A verdade é que pai e mãe sempre sabem, não tem jeito. Para muitos pais, ter que lidar com o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo, e aqui eu falo apenas sobre o assunto, é constrangedor, complicado, não entra na cabeça deles de jeito nenhum. Eles sabem que o filho é gay, mas preferem abraçar a ignorância e fazer vista grossa, afinal, o que os olhos não veem, o coração não sente.

Por mais que possa parecer, esse não é um texto incentivando os gays que estão no armário a permanecerem lá. A revelação não deve ser obrigatória. Eu sei, todos queremos ser aceitos pelos nossos pais, eu entendo, mas antes de contar, é sempre bom pensar no seguinte: vai fazer diferença? Eu realmente preciso contar? Por que fazer disso uma tortura? Já não basta viver numa sociedade que massacra os gays quase que por diversão? Pra que fazer desse momento uma tempestade? Pra que mexer em time que está ganhando? Você não mentiu quando não disse que é gay, você apenas os poupou de discutir um assunto terrivelmente constrangedor para eles.

Mais uma vez, não estou incentivando ninguém a ficar enfiado dentro do armário, mas essa é uma questão a ser pensada. Quando o cara diz "Eu sou gay", ele se revela não só para os pais, mas para a vida. Tudo muda, inclusive para os próprios pais! Quando se é filho de casal conservador, de épocas antigas, quando falar sobre homossexualidade era pecado, a questão da revelação deve ser bem pensada. Uma mudança drástica na forma de pensar pode gerar um curto, e esse curto pode levar à más interpretações, constrangimentos e diversas situações desagradáveis, por isso é válido pensar no lado dos pais.

Contudo, se você realmente sentir a necessidade de contar pra eles que é gay, faça isso aos poucos. Vá preparando o terreno, não vá pela emoção, pelo calor do momento, porque a vida real não é um filme ou uma série, onde as coisas dão errado, mas ninguém sai ferido porque é ficção. Escolha o momento certo, as palavras certas, encha o peito de ar e diga: "Eu sou gay."

Mas, se a situação não for favorável, tenha calma, olha pra frente e deixa o resto acontecer naturalmente.
Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, é o colunista oficial das terças no Barba Feita. Tem aproveitado a fase de solteiro para viver tórridos casos de amor. Com os personagens dos livros que lê e das séries que assiste, porque lidar com o sofrimento do término com personagens é bem mais fácil do que com pessoas reais.
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4 comentários:

Gerson Borges disse...

Discordo da sua afirmação de "mãe e pai sempre sabem". Pra mim, isso é uma ilusão que todo gay que ainda vive no armário tem como verdade. Conheço uns cinco casos, pelo menos, em que os pais juram de pé junto que não sabiam.

Eu quando contei ao meu pai deixei ele perplexo. Foram alguns meses sem troca de palavras. Hoje, que ele já consegue conviver com meu namorado e vê tudo com uma certa normalidade, ele ainda afirma que nunca foi algo que passou pela cabeça dele. E isso acaba sendo um choque, porque ser gay é a sua verdade, não a deles. Eles não tem obrigação de ter percebido se você escondeu a vida toda. Não é tangível acreditar que eles sabem.

E sobre sair do armário, é realmente uma questão bem pessoal. Uma quase unanimidade é que, quando se sai do armário pras pessoas que você ama, um baita peso sai das suas costas, independente da reação dos seus familiares. Muitos dos que não são aceitos se arrependem, mas confirmam que foi um peso tirado das costas. Deve ser bem difícil se abrir com pessoas mais conservadoras. Mas é bem isso que você disse sobre 'preparar o terreno'. Eles não acham tão natural quanto a gente, então precisam de um tempo pra respirar e processar as ideias.

Ótimo texto!

Glauco Damasceno disse...

Sim sim, Gerson, também concordo com você, até porque essa de que toda mãe sabe não é uma máxima, né? Existem exceções, como o seu caso e outros que eu conheço. Acredito que exista uma vista grossa, por amor aos filhos.
E valeu pela interação, continua com a gente pelo resto da semana (=

Serginho Tavares disse...

Eu acho que a pessoa precisa assumir antes para si mesma. o resto vem depois e naturalmente. ou pelo menos, deve ser assim...

E parabéns pelo texto Glauco.

Glauco Damasceno disse...

Se assumir parece que é a parte mais difícil, Serginho!