segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Na Beira do Abismo







I believe I can fly 
I believe I can touch the sky 
I think about it every night and day 
Spread my wings and fly away 
I believe I can soar 
I see me running 
Through that open door 
I believe I can fly… 

Já compararam o ato de apaixonar-se com jogar-se de um abismo: você sabe que a queda é perigosa, mas a sensação de pular, o frio na barriga, o vento no rosto, o sentir-se vivo, inteiro, faz tal loucura valer pena. 

Você está sozinho e procura por alguém. Fato: o ser humano não sabe ser sozinho. Procura sua metade, alguém que lhe faça bem, que o complete. Mas nessa busca (que não é fácil, muitos sequer conseguem terminar essa jornada) você acaba se deparando com questões complexas, como ‘O que eu realmente quero?’. Afinal, se todo mundo busca por alguém, por que tantas pessoas sozinhas ao nosso redor? Essas pessoas já não deveriam ter se encontrado? 

Mas vamos supor que você encontrou alguém. E você está naquela situação, empolgado, na beira do abismo, borboletas na barriga (“butterflies, you make me feel like I can fly…”) e tem que se decidir: pulo ou não pulo? O céu azul, o vento no rosto, a liberdade… Parece que uma força te puxa, te chama, diz ‘Pule, seja feliz!’

E é nessa hora que você pode escolher. Pois sim, existe um determinado momento em que a gente escolhe se vai ou se fica, se damos a cara à tapa ou se puxamos o freio, se pulamos no abismo ou se damos meia volta. A partir daí, sinto lhe informar, é por sua conta e risco. 

E, normalmente, a gente pula. Sem verificar se existe rede de proteção, se temos asas, se sobreviveremos à queda. Pensamos apenas no céu azul, no vento no rosto, nas borboletas na barriga. Aquela sensação! Ahhhh, aquela sensação vale tudo! 

Mas, muitas vezes, nos estabacamos no chão. Com força! E ficamos ali, machucados, expostos, desprotegidos… E dói. Dói muito. Até mesmo nos esquecemos que sentir aquela dor era um risco que estávamos dispostos a correr. E praguejamos, choramos, sofremos. Amaldiçoamos o abismo, o frio na espinha, as borboletas na barriga. Malditas borboletas, infelizes borboletas! Juramos que nunca mais, NUNCA MAIS! vamos sofrer daquele jeito. Não vale a pena! 

E juntamos nossos caquinhos, nos remontamos, nos reerguemos. Pois apesar de não nos acharmos capazes, nós sempre sobrevivemos. É nosso instinto, é humano. Podemos nos refazer e ressurgir das cinzas. Seguimos nossas vidas. Observamos as pessoas à nossas volta, deixamos que o tempo se encarregue de colocar as coisas no devido lugar. 

Até que num belo dia a lembrança daquela dor ficou pra trás. Estamos refeitos, trilhando o nosso caminho, a vida novamente nos eixos. E então surge um novo alguém que nos convida para um passeio… Empolgação, felicidade e, sem nos darmos conta, estamos ali novamente, na beira do abismo, apreciando aquele maravilhoso céu azul, o vento batendo em nosso rosto, o frio na espinha, as borboletas na barriga… Ah, as borboletas na barriga! Que sensação maravilhosa! E é nessa hora que você pode escolher. E então você pula novamente! Afinal, você pode voar! 

*Originalmente escrito (e publicado em um blog sob pseudônimo) em 27 de março de 2009, mas eu poderia ter escrito isso hoje. 
Leandro Faria  
Leandro Faria, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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Um comentário:

Serginho Tavares disse...

Eu tenho pra mim que se niguém se arriscar jamais saberá a delícia que é se aventurar em algo novo.
E parabéns pelo texto, meu querido.