domingo, 12 de outubro de 2014

Pelo Direito de Ser Livre





“Ela é tão livre que um dia será presa.

- Presa por quê?

- Por excesso de liberdade.

- Mas essa liberdade é inocente?

- É. Até mesmo ingênua.

- Então por que a prisão?

- Porque a liberdade ofende.” 
(Clarice Lispector) 

Você acorda de manhã, escolhe a cor da sua camisa, escolhe seu próximo destino de férias, escolhe seu candidato à presidência. Você escolhe o canal da TV, a música que toca no seu iPod. Escolhe seus amigos, sua comida, sua loção pós-barba. Sua vida é você e suas escolhas – e por vezes são tantas opções que nem sabemos o que escolher. Você se sente livre, mas... será que é mesmo? 

Quando você escolhe a cor da sua camisa ou o modelo, você considera apenas a sua opinião ou a dos outros? Quando escolhe seu destino de férias, é um lugar que você gostaria genuinamente de conhecer ou aqueles que renderiam as melhores fotos para postar na rede social e deixar seus coleguinhas morrendo de inveja? Você ouve mesmo a música que gosta ou admitir que adora um pagode poderia fazer seus amigos olharem meio torto pra você? 

Pense por um instante: suas escolhas estão quase todas condicionadas à opiniões que não são, necessariamente, suas. Isso é liberdade? Ah, pra mim não é. Vivemos a ditadura do consenso e a você é permitido ser livre, desde que a sua liberdade não ultrapasse o que o consenso considera aceitável. Sabe aquela máxima de Ford no início do século: O carro está disponível em qualquer cor, contanto que seja preto? É mais ou menos por aí. Uma liberdade sitiada ou, como eu gosto de pensar: você não tem escolhas, você tem concessões. 

Suas escolhas pertencem ao consenso que te libera concessões. Perdoem o juridiquês, mas concessões tem a característica de serem parciais e temporárias e podem ser revogadas a qualquer tempo, em especial se não seguirem as normas pré-estabelecidas. 

E, sério, não há nada que ofenda mais do que a escolha da pessoa (ou das pessoas) com quem você quer dividir a vida. 
- Ah, você está exagerando! Não vivemos mais na época em que os pais escolhiam os noivos dos filhos! 
Claro, você tem a concessão de escolher quem você quiser, desde que seja branco, cristão, bonito, heterossexual, bem sucedido e monogâmico. E que vocês se casem e se reproduzam, como diz a Bíblia. Amém, irmãos. 

Se a sua escolha não for essa, alguma coisa está errada. 
  • Como aquele rapaz branco se casou com uma negra? Ele é até bonito. 
  • Ihh, aquela ali é lésbica, certamente nunca encontrou um homem que desse jeito. 
  • Soube que a filha da vizinha tá namorando aquele cara que tá sempre desempregado? 
  • As novelas agora querem incentivar todo mundo a ser gay. 
  • Ele é mais novo que ela; deve estar bancando o garotão.
  • Ele tem mais dinheiro que ela; isso não é amor, é interesse. 
  • Mas... ela é gorda! 

Quem nunca ouviu nenhum desses comentários, que atire a primeira flor. Eu já fui muito apedrejada. 

Alguns direcionam olhares condescendentes, outros partem para o ataque empunhando lâmpadas fluorescentes. A liberdade ofende o consenso. Extrapolar a sua concessão de escolha é errado, significa que você não sabe escolher e por isso não merece a própria liberdade. 

"Pela liberdade de expressão!", bradam alguns, mas o que dizem me soa mais como: "Pela minha liberdade de impor ao outro o que eu penso, quero e sinto, porque os meus pensamentos, desejos e sentimentos são melhores e mais nobres dos que não pensam igual a mim. Afinal, eu faço parte da massa, eu sou igual aos meus iguais." 

Um ser humano nasce, cresce, se reproduz e morre. Quem não aprendeu isso na escola? E você ainda quer ser feliz nesse meio tempo? Sério? Ah, por favor... 

Nessas eleições houve o disparate de um presidenciável que apoiava o Estado mínimo e era contra os direitos LGBTTT. Porque não interessa a política de juros do Banco Central, o que importa mesmo é quem você leva pra cama porque a sua cama não pode ofender a soberania nacional – Aham

O amor, esse sentimento tão nobre que tantos poetas já versaram, não tem lugar, foi sufocado pela adequação. Tenebrosos dias. A gente tá mais pra família-comercial-da-Qualy e menos pra soneto-do-amor-total. E, no final, se você é feliz ou não, pouco importa. O que importa é a ditadura do consenso estar feliz – ou melhor, estar adequada. Felicidade é um assunto de menor importância. 

Todos os dias tentamos nos enquadrar, mesmo que involuntariamente. Cada vez mais iguais, invisíveis na massa e prontos para levar à fogueira àqueles que se destacam por quererem ser felizes. Quão mesquinho é isso? Se revoltam pela luta por igualdade dos que querem ser reconhecidos como iguais, mesmo fazendo escolhas diferentes. 

Colocam-se como pilares da moral e dos bons costumes, chamem-me de idealista, mas moral e bons costumes, para mim, é defender os direitos humanos, o direito à felicidade, o direito de me deixar amar, me permitir escolhas e não concessões. Não me interessa sua opinião sobre quem eu escolhi pra mim. Porque amor não tem idade, não tem sexo, não tem posição social. Pelo meu direito e pelo seu direito de amar quem nos faz bem, quem nos faz feliz, pra quem atende nosso telefonema no meio da madrugada quando temos um sonho ruim. 

Por isso, por mais que isso vá de encontro à sua lógica ilógica de manutenção de um padrão de relacionamento para perpetuação de um modelo falido de família e sociedade, não me leve a mal, eu vou amar quem eu quiser.
Leandro Faria  
Giselle Molon, uma deusa, uma louca, uma feiticeira, é a primeira colunista convidada do Barba Feita. Advogada por formação, se vendeu ao sistema por concurso público. Aprecia a liberdade de expressão e não tem medo de dizer o que pensa.
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2 comentários:

Leandro Faria disse...

Ando com uma preguiça das pessoas que se consideram donas da verdade e, assim, donas da minha vida de quebra.

O foda-se anda ligado tem tempos, né? E com quem eu me relaciono não interessa a mais ninguém.

Adorei a participação! :-)

E volte sempre que quiser. Mesmo se estiver em SP!

Punk Futebolista disse...

Giseluda,excepcional! <3