sábado, 11 de outubro de 2014

Uma Pincelada Básica no Vasto Mundo da Identidade de Gênero e do Desejo Sexual





Dia desses, estava eu esperando meu ônibus na Av. Paulista, e observando todos ao meu redor, como é de costume, quando um certo casal chamou minha atenção. Pareciam recém saídos da adolescência. A garota, de longos cabelos laranja, tinha um visual meio roqueira dos anos 80, e o rapaz usava uma barba rala contornando o rosto delicado, cabelos compridos até os ombros, blusa de moletom vermelha, calça skinny preta bem apertada e um All Star prata com tachinhas. Eles estavam de mãos dadas, trocavam carinhos, mas o garoto com seu jeito afeminado, turvava minha visão de casal hétero. Eu olhava, olhava, e só conseguia enxergar um casal lésbico na minha frente.

Diante da cena, pus-me a pensar nas questões comportamentais e de gêneros que envolvem esse amplo e talvez infinito mundo de gostos, preferências e identidade sexual. Surgia então, o primeiro assunto para nossa coluna de sábado. Complexa, polêmica e delicada, a pauta de hoje mexe com a gente porque vai muito além das formas comportamentais às quais estamos acostumados: heterossexualidade, homossexualidade e bissexualidade. É tudo muito mais amplo e confuso do que se pode imaginar, portanto, esse texto nada mais é do que um apanhado de questões especulativas, onde apenas se pretende lançar a reflexão sobre o tema, sem absolutamente nenhuma pretensão de elucidar dúvidas.

Como ser curioso da alma e da psicologia humana, que se disciplina o tempo todo quando se trata de corrigir seus próprios preconceitos, vivo tentando entender as diferentes questões de gêneros que pipocam o tempo todo nas mídias e ao meu redor, com uma velocidade quase impossível de acompanhar. Mas, sinceramente, é muito difícil, quando se pensa que já viu ou ouviu-se de tudo, lá vem mais novidades a cerca do âmbito do desejo sexual humano.

Comecemos por uma das inúmeras questões que me intrigam: por que homens gays não afeminados se sentem, em sua maioria, atraídos por homens masculinizados, procurando assim seus iguais? No caso, bombados de voz grossa e com "jeito de homem" procuram seus pares seguindo a mesma linha de comportamento social, não são nem curtem afeminados, como já dito em um post anterior desse blog

Desse modo, ursos curtem ursos, magros curtem magros e afeminados, quase que obrigatoriamente, tem que curtir afeminados, porque no universo gay masculino, a mistura comportamental, em se tratando de relações amorosas e sexuais, é praticamente um apartheid, uma segregação quase impenetrável. Difícil ver um gordinho com um bombado ou um depilado com um peludo, ou ainda uma pintosa com um tipo bem machão. Pior ainda, nesse último caso, imaginar que a pintosa pode ser o ativo da relação e o machão, o passivo. 

Enquanto isso, no mundo aparentemente mais suave das meninas lésbicas, os desejos se misturam e é muito comum ver pares de garotas bem femininas com outras bem masculinas (as ditas caminhoneiras). Vê-se também pares de garotas onde ambas são bastante femininas, mas raramente vemos duas "caminhoneiras" namorando entre si. Por que? Por que no mundo feminino lésbico os papéis se invertem totalmente do masculino gay? Enquanto no primeiro é absolutamente comum mulheres com comportamentos sociais diferentes sentirem-se atraídas umas às outras, no segundo, o comum são homens de comportamentos parecidos, quase idênticos, atraírem-se irremediavelmente.

Existem garotas que se sentem atraídas por rapazes afeminados, como no caso que citei no início. E garotos héteros que se sentem atraídos por moças masculinizadas, exitem? 

Existe o caso de um casal de transexuais adolescentes, Bárbara e Heitor, que se conheceram virtualmente, ficaram interessados um no outro, em seguida se conheceram pessoalmente e se apaixonaram. Bárbara, de 17 anos, nasceu menino e não fez a cirurgia de transição genital. Heitor nasceu menina e é um garoto gracioso de 19 anos que possui uma genitália feminina. Como eles se relacionam sexualmente não se sabe, mas Heitor se encantou pela feminilidade de Bárbara, a suavidade. E Bárbara, por sua vez, ficou fascinada pelo comportamento masculino e ao mesmo tempo doce de Heitor. Acima do sexo biológico de cada um, eles deixaram se levar pelo lúdico de uma paixão poética e sem amarras externas. Eles se deixaram amar.

Da mesma forma que fizeram um travesti e uma lésbica, mostrados há anos atrás em um desses programas de TV estilo Casos de Família. A mulher, uma lésbica totalmente masculina, estava grávida do homem travestido de mulher, com maquiagem pesada, vestido e salto alto. Ambos parecendo felizes da vida e muito bem resolvidos. 

Eu mesmo já conheci duas drag queens, muito bem casadas há anos.


Há um ano atrás, se não me engano, o programa Na Moral, de Pedro Bial na Globo, apresentou uma senhora chamada Letícia, mas que na verdade era Geraldo. Casado há 37 anos, pai de dois filhos adultos, depois de anos vivendo como homem, resolveu assumir sua transexualidade. Passou a vestir-se como mulher e usar o nome social de Letícia. Detalhe: Letícia continua casada com sua esposa, diz não se sentir atraída por homens, ama sua mulher e apenas reconhece sua identidade de gênero como feminina. Não se importa em ser chamado de vovô ou vovó pelo neto, nem de mãe ou pai pelos filhos. É ou não é muita coragem, minha gente? Prefiro guardar minha opinião pra mim.

Mas, uma história ainda mais confusa que essa, da qual me esforço brutalmente pra entender e mesmo assim ainda não consegui, é a do menino de 13 anos que na verdade nasceu menina. Em uma conversa com os pais, confessou que estava preso em um corpo feminino, pois na verdade sentia-se um garoto. Os pais, psicólogos muito compreensivos, permitiram que a filha adotasse um visual masculino e assumisse a transexualidade. Tudo muito bonito, tudo muito fofo, até que o então garoto aparece com mais uma novidade: ele é um garoto transexual masculino gay, e atualmente tem um namorado de 15 anos. Conseguiram acompanhar? Ou embolou o meio de campo? Vou tentar explicar com mais clareza: nasceu menina, descobriu que se sentia um menino e passou a se comportar e vestir-se como tal, adotando postura e corte de cabelo de menino, mas não é um transexual masculino heterossexual, e sim um transexual masculino homossexual. Porque identidade de gênero é uma coisa, é o sentir-se homem ou mulher; e identidade sexual é outra coisa, é o sentir-se sexualmente atraído por homens ou mulheres. Neste caso, a menina sentia-se menino, mas sua identidade sexual continuou sendo a mesma que se espera de uma mocinha heterossexual. Significa que mais pra frente quando os seios começarem a desenvolver, ela (e) fará a cirurgia de retirada das mamas, para ficar com o corpo reto de um garoto. E neste caso, como ficará o namorado? Ele é gay? É hétero?  Se for gay, vai namorar um menino com vagina? Se for hétero, vai namorar uma menina sem seios? Pra um adolescente com os hormônios em ebulição, parece uma loucura pensar em todas essas questões. E pra mim é muita informação. O importante é: se você não consegue entender, ao menos não se precipite em julgar.

E se você pensa que os casos de identidade de gênero/identidade sexual param por aí, tá muito enganado. O texto está ficando longo demais, eu sei, e prometo não me alongar muito mais, mas é que tem coisa pra caramba quando se trata desse assunto, e eu gostaria de citar mais alguns pontos antes de finalizar.

Ainda tem os T-lovers, homens apaixonados por travestis, que muitas vezes acreditam-se heterossexuais. São héteros ou não? E os que gostam de ser penetrados por travestis? Que fetiche é esse, ser comido por uma mulher? Também não entendo. Ainda bem que não estou aqui pra explicar, pelo menos não hoje, não nesse post. Porque também não entendo lésbicas que curtem pornô gay. Se bem que eu prefiro pornô hétero a gay. 

Uma vez, Roberta Close disse em uma entrevista que se interessava pela pessoa, pelo ser-humano, pelo interior. Achei muito bonito. Mas ela deixou bem claro que seu interesse seria sempre pelo indivíduo do sexo masculino. Eu também me interesso pela beleza interior, desde que no exterior haja um pênis, ou não?

Ultimamente tenho visto tantas lésbicas extremamente masculinas e transexuais homens lindíssimos, sem nenhum resquício de feminilidade, que penso se eu mesmo não seria capaz de me apaixonar e viver um relacionamento com alguém com esta identidade de gênero. Ao mesmo tempo não teria nenhum problema em namorar um carinha afeminado. O carinha afeminado tem um pênis. A lésbica masculina ou o trans homem não tem um pênis, mas tem a atitude de homem que eu admiro, que me atrai de alguma maneira. Acho que eu ficaria, quiçá teria um caso, com Tereza Brant, o transexual homem mais lindo do Brasil, cuja imagem abre esse post. Mas será que eu não sentiria falta daquilo?

A grande questão é que a humanidade é sexual demais. Queremos amor, mas a genitália não pode faltar. E a boca, minha gente, os dentes, a língua, os dedos? Tudo é válido quando se tem o desejo, quando se deseja de verdade.

Bem amigos, como eu disse na introdução, este não seria um texto elucidativo sobre as diversas questões de gêneros abordadas e as inúmeras vertentes do desejo humano, mas sim um texto que levasse a reflexão, minha, sua, de todos nós. E que nos fizesse pensar um pouquinho sobre as vastas diferenças que nos rodeiam, e por mais assustadoras que possam parecer, às vezes, nos façam ter um olhar mais complacente sobre o que não conseguimos entender. Espero que tenha sido bom pra vocês, porque pra mim foi ótimo.

E hoje é sábado galera, vamos curtir e celebrar as diferentes formas de amar!
Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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4 comentários:

Serginho Tavares disse...

Quando começarem a entender que é tudo GENTE, então eu acho que vai deixar de ser confuso. Apenas acho. E parabéns pelo texto, amigo!

Esdras disse...

Sé querido, é exatamente isso. Eu tô tendo um contato mais próximo, pela primeira vez, com duas travestis, e é incrível enxergá-las como realmente são em sua essência, sem pré-conceitos, sem julgamentos, é uma troca enriquecedora. Tirar a viseira da cara é libertador!
Feliz que tenha gostado do texto!

Rejane Silva disse...

Apenas seres humanos, onde o espirito nasceu com um sexo, e o corpo com outro.
Simples assim.
Parabéns pelo texto, criativo, claro e sensível.

Alexandre Melo disse...

Certa vez, não recordo bem em que lugar, li que já se pesquisa como dentro de algumas gerações o gênero em si deixará de existir.

Creio que serão pessoas mais evoluídas e menos presas ao esterótipos e fenótipos que nós fomos acostumados a aceitar como 'corretos'.

Mas também, no fundo, a sexualidade é algo tão complexo e diverso que deveria descarecer de regras ou normas, quem consegue viver isso é mais feliz..