domingo, 16 de novembro de 2014

Afetos e Desafetos




Poucas coisas no mundo me incomodam tanto quanto ser incômodo para os outros. O fato de me tornar desafeto de alguém me tira do sério, de verdade. Lembro que quanto completei meus 30 anos, disse que minha meta de vida seria ter a certeza de que, no dia em que eu bater as botas, “do copeiro ao presidente da empresa, do melhor amigo ao colega de academia, pode se lamentar que o mundo perdeu um cara legal”. 

Nesse ponto, 2013 foi um ano bem complicado. Perdi pessoas que eu considerava amigos por anos – e estive recentemente com elas por acaso em um evento, sendo que pude sentir o lamento de uma e a ignorância da outra – e isso foi o que mais marcou o meu ano passado. Já 2014 tem sido o oposto: reencontrei amigos de longa data, que não via havia séculos. Muitos deles com quem tive minhas diferenças. Em especial o retorno de um amigo, que foi o primeiro de todos os “melhores amigos” da minha vida, tem sido algo muito gratificante para mim: brigamos ainda muito novos e convivemos como dois grandes antagonistas por anos no mesmo colégio. E hoje em dia vimos que a vida nos fez muito mais confluir – cada um com a sua história; e garanto que as nossas foram muito diferentes – do que divergir. 

Talvez por isso eu tenha o orgulho, se é que pode se dizer assim, de nunca ter excluído alguém de qualquer rede social minha. Para não soar insincero, a única vez que fiz foi quando vi que havia adicionado um homônimo de um amigo, e não ele próprio. E não falo isso para parecer que tenho um milhão de amigos ou que seja um boa-praça à fórceps: acho que seleciono muito bem quem está na minha rede e tenho um limite de tolerância muito grande para que alguém se torne um desafeto. 

Em compensação, nos últimos meses tenho visto um crescente de intolerância e, por que não, incitação ao ódio entre as pessoas. “Não concorda? Sai do meu Face!”; “Achei que dava pra ter uma discussão decente com você, mas agora vejo que não...”; “Odeio indireta, falo e falo MESMO” (sendo essa última uma indireta de fato...) se proliferaram aos montes no meu feed do Facebook – nenhum deles comigo, friso. A quantidade de “amizades” que assisti sendo desfeitas ao longo dessa última e famigerada eleição foge à minha simples conta mental. 

Vejo também famílias cujos parentes estão sempre procurando picuinhas: quando resolvem com uma tia, buscam um primo; quando resolvem com o primo, jogam pro irmão ou pra própria mãe. 

Sinceramente, não sei o que se ganha com isso, se não o amargor de uma vida mal vivida. Prefiro remontar à minha infância mais uma vez (talvez um dia Freud explique) e levar a sério o ensinamento mais piegas e sincero do Pequeno Príncipe: tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Complementando com outro pensamento do mesmo livro: “era uma raposa igual a cem mil outras. Mas eu a tornei minha amiga. Agora ela é única no mundo”

Valorizemos as relações e os afetos. Reguemos nossas rosas. Carrego comigo a convicção de que se deve trabalhar a cada dia para ter um epitáfio digno de quem mais agregou do que afastou. Até porque ninguém vive no seu próprio planetinha como o personagem de Saint-Exupéry...
Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista convidado de hoje, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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Um comentário:

Alexandre Melo disse...

Fiz o mesmo. Muitos me perguntavam porque eu não simplesmente excluía aqueles que representavam uma opinião figadalmente oposta à minha, que deixasse de seguir fulano ou beltrano mas, não o fiz.

Achava muita infantilidade, coisa tipo 'tô de mal de você', preferi deixar lá e quando me sentia realmente motivado a debater algum tema, o fazia, senão era puro silêncio.

Por outro lado, deixei de seguir algumas pessoas não por desafeto ou algo assim mas simplesmente porque não diziam nada que fizesse alguma diferença em minha vida e, antes ler gente que realmente tem algo a acrescentar (seja pró ou contra) do que gente que não tem sinceramente nada em comum comigo.

Nesse ponto, não lamento as confluências que possam nos levar a separação de amigos ou colegas, a vida se encarrega disso, basta eu atuar como filtro.