sábado, 1 de novembro de 2014

Alguém Para Lembrar no Dia dos Mortos




Amanhã, 02 de novembro, é dia de finados, um ótimo motivo pra comemorar mais um feriado, se nesse ano ele não caísse em pleno domingo. Porque, na verdade, é só pra isso mesmo que serve o dia dos mortos, pra curtir um belo feriado, caso ele caísse num dia útil da semana, de preferência numa sexta-feira ou numa segunda, não é mesmo minha gente?

Pois bem, de minha parte, acho essa data um tanto quanto mórbida e, fora algumas pessoas que realmente homenageiam seus mortos nesse dia, acredito que a grande maioria não está nem aí para o significado da data. Não é algo como Dia das Mães, dos Pais, das Crianças, da Independência. É dia dos mortos, gente! Pra que? Morreu, acabou, não existe mais, não faz sentido prestar homenagens.

A verdade é que, graças aos céus, nunca perdi alguém próximo, alguém verdadeiramente importante pra mim. Nenhum amigo, familiar, parente, colega de trabalho. Alguém de quem realmente pudesse sentir uma lacuna dolorosa em minha vida. Por isso, talvez, minha insensibilidade ao tal dia de finados. O importante é a lembrança e aquilo que a gente faz dela e, definitivamente, pra lembrar não é absolutamente necessário um dia em especial. Quem foi importante e marcante em nossa vida é lembrado em momentinhos de descuido, de nostalgia perene e saudade melancólica ou alegre, ou seja, a qualquer hora, quando menos se espera.

E já que o papo é sobre morte, dia de finados e afins, eu que sempre detestei velórios e enterros, porque sempre me vi obrigado por meus pais a comparecer a tais eventos de pessoas por quem não sentia nenhum pesar por sua partida, e me sentia tão fingido em estar num lugar onde não tinha nenhuma vontade de chorar por elas, confesso que uma vez senti um medo terrível de perder alguém querido. Foi quando um parente muito chegado, um confidente, foi diagnosticado HIV+. Ele já estava extremamente debilitado, os médicos não acreditavam em sua reabilitação, e a notícia correu como rastilho de pólvora pela família. Quando chegou até mim, uma pontada no coração, incredulidade, o chão se desvanecendo lentamente embaixo de mim. Morávamos em estados diferentes, distantes, e eu não podia vê-lo imediatamente. Acreditei que o veria pela última vez em seu enterro, onde prestaria minha última e sincera homenagem. Nesse enterro eu iria com toda a pompa e circunstância: todo de negro, óculos escuros e uma rosa vermelha na mão. Meus sentimentos eram genuínos e eu jamais deixaria de dar o último adeus.

Alguns meses depois da descoberta do vírus, os médicos diziam que meu tio (apenas 6 anos mais velho) era um milagre. Ele não só sobreviveu àqueles dias sombrios, como vive com o vírus completamente controlado há dez anos, e sempre que nos encontramos, fazemos de piadas de humor negro com a doença e rimos a não mais poder de meus planos de comparecer a seu enterro com um tubinho preto chiquérrimo, gritando, abraçado ao caixão: "NÃO, NÃO, NÃO, ELE NÃO PODE IR..."

Mas, falando sério, o que me trouxe a esse texto foi a perda real de alguém inesquecível e, talvez agora, muitos se identifiquem com a minha história. Disse mais acima que nunca perdi pra morte ninguém próximo ou realmente importante pra mim. Me desminto agora, perdi sim. Mas ele era de uma importância diferente, o que eu senti por ele não dividi com ninguém, por isso, quando o mataram, ninguém me viu sofrer, ninguém me viu chorar.

Quando o conheci ele tinha 6 anos e eu 5. Nos reencontramos adolescentes, oito anos depois, eu com 13, ele 14. De minha parte foi atração, tesão, desejo à primeira vista. Convivemos sob o mesmo teto por alguns meses e, sendo primos, foi inevitável acontecer o que acontece com 9 entre 10 primos no universo, sejam eles gays ou héteros. Bobo, ingênuo e absolutamente infantil, me apaixonei, ele não. Nos afastamos por mais sete anos, mas eu nunca o esqueci. Quando nos vimos novamente, já homens feitos, ele casado e com filhos, não podia imaginar que R. fosse querer um revival da adolescência, mas ele quis. O que aconteceu depois não conto, já me expus demais aqui. Mas, quatro anos depois, veio a notícia que eu nunca quis receber, mas pela qual sempre esperei: R. havia sido assassinado.

Não me surpreendi, porque meu primo tinha uma vocação quase nata pra criminalidade e seu fim foi previsível. Morreu jovem demais, aos 25 anos. E eu fiquei com as lembranças de momentos que são meus e que não abro, como já bem cantava Ana Carolina. Meu sofrimento ninguém nunca viu, nem sabe, mas amanhã minhas memórias românticas e lascivas estarão voltadas à R. Afinal, como já disse o bom e velho novelista Manoel Carlos nas inúmeras novelas em que retratou o relacionamento entre primos: Amor de primo é pra sempre!

E quem há de discordar? 

Um bom feriado à todos e que suas homenagens sejam sinceras e repletas de emoção! 
Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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6 comentários:

Leandro Faria disse...

O post, que fala de um assunto pesado, foi recheado com bons momentos de humor, mas terminou de uma forma serena e bela. Sabe o nome disso? Técnicas de um bom escritor.
Delicioso, texto, Esdras!
;-)

Esdras disse...

Delicioso é esse seu elogio!
Valeu Leco!

Alexandre Melo disse...

Não foi um posto, quase um conto e se você não evoluiu para isso eu aqui peço permissão para fazê-lo pois tem material aí para um belo conto.

Também sou avesso às datas comerciais (de festivas elas não possuem nada mesmo, não preciso de uma data específica para prestar homenagem ou lembrar quem quero bem) e recentemente perdi meu pai mas, não fiz de finados uma data a ser guardada como não o fiz quando minha mãe se foi. As lembranças deles não precisam de um dia determinado no ano, elas usam todos os 365 livre e aleatoriamente, essa é minha homenagem e eu aqui seu maior legado.

Todavia, esse rito da morte acho necessário pois serve como passagem e fechamento/encerramento, não passar por ele é pasteurizar algo que faz parte da vida, precisamos desse processo de purgação e 'exorcismo' da presença que não mais teremos para tentar achar algum alívio ou sentido no fato da finitude que será nossa mais dia ou menos dia.

Uns abraçam a fé cegamente, outros rebelam-se contra o universo, vai de você, eu purguei pelas lágrimas e passei minha fase não apenas com meus pais mas com amigos, amantes e namorados e, ao fim, sempre os levei aqui comigo sem precisar de uma data ou templo para isso.

Eu sou o templo vivo deles e eles o meu.

Esdras disse...

Que lisonjeira sua ideia, Alexandre, fique à vontade para evoluir o texto ao que vc quiser.
E que belo comentário! Sua sensibilidade me toca.

Abçs!

Aconteceu disse...

O texto ficou super bacana,parabéns Esdras.Assim que der vem pra vó. Beijos.

Serginho Tavares disse...

Que texto forte...

Não sei lidar com perdas, confesso.