quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Escrevo, Logo, Existo







Depois de algumas contribuições esporádicas, recebi do idealizador deste Barba Feita e colunista de segunda-feira, meu amigo Leandro Faria Chaves, o convite para assumir as quartas-feiras de forma fixa. Admito que senti um frio na barriga e uma dúvida se acendeu lá dentro para aceitar o desafio; afinal, substituir alguém, independentemente das circunstâncias, é uma grande responsabilidade. Ainda mais em um grupo no qual todos já se conheciam (mesmo que à distância) e eram lidos assiduamente por sua audiência. Era quase como trocar o pneu com o carro andando.

Mas aceitei e aqui estou. E o que mais colaborou para essa decisão não foi a amizade pelo Leandro (embora, claro, tenha sido fator-chave, sem trocadilhos com o seu sobrenome), mas, sim, a necessidade de escrever.

Escrever na minha vida se confunde com a minha própria história e existência. Se me alfabetizei dos cinco para os seis anos, lembro que com sete já tinha poesias escritas. Aos oito entrei num concurso interno do meu colégio e fiquei entre os primeiros dez colocados – tudo bem que era um plágio e a minha turma toda reparou, o que me rendeu uma sonora vaia quando li o poema em voz alta. Dois anos depois, participei novamente, dessa vez com uma obra realmente original, e fiquei entre os oito.

Na pré-adolescência, escrevi diversos volumes de uma saga chamada O Rei Escravo, na qual o filho de uma escrava com um rei adúltero nascia no mesmo dia que o seu filho sangue-azul legítimo, natimorto. Com isso, o bastardo era colocado no lugar do defunto recém-nascido e isso mudava a História do mundo (o porquê exatamente dessa mudança toda eu não lembro hoje em dia, mas que mudava, mudava...). Se tivesse guardado todas essas páginas, hoje seriam dignos de serem comparadas a um mal escrito O Senhor dos Anéis dos trópicos.

Aos 14 anos, concebi um livro a quatro mãos, com meu primo Rodrigo, chamado Até Onde Se Pode Sofrer, que foi o maior melodrama que eu já conheci em todos os tempos, superando qualquer novela mexicana. Em suma: uma adolescente engravida virgem e os suspeitos poderiam ser seu namorado, seu próprio irmão e seu próprio pai. Descobria-se que a coitada havia emprenhado do seu progenitor através de uma toalha mal lavada (???) e, a partir daí, o coroa virava um psicopata. Tentou fazê-la perder o bebê, matou o vizinho que fez chantagem, mandou a filha embuchada para um manicômio, quase enforcou o filho adolescente, sabotou o carro onde a mesma filha viajava com o segundo namorado (o primeiro, suspeito da gravidez, havia morrido de overdose páginas antes), o tal namorado sumia e todo mundo achava que havia morrido (depois o encontravam, “apenas” cego)... Enfim, quando o vilão dava uma trégua e a criança nascia e todos achavam que seriam felizes, o bebê era sequestrado pela pseudo-enfermeira, que na verdade tinha um caso com o pai, e eles fugiam com o recém-nascido para a Suíça. Tudo isso em 45 páginas manuscritas. A busca por justiça da protagonista seria a continuação, que já tinha nome, mas nunca saiu do papel: Até Quando Se Pode Sofrer...

Logo após essa viagem quase lisérgica vieram os contos.

Lembro que, nesse período, houve um exercício no colégio que foi um dos grandes divisores de água para mim na relação com a escrita: a professora havia omitido o final do conto Venha Ver o Pôr-do-Sol, de Lygia Fagundes Telles e pediu para que nós escrevêssemos uma sugestão. Lembro que escrevi um fim bem sombrio, que chocou um pouco a mestra e algumas pessoas da turma... E me fez despertar de vez para o gosto pelas letras.

Foi nessa época que resolvi escrever o meu primeiro romance: Caminho de Retalhos. Outra obra de qualidade duvidosa. Um thriller meio paranormal, que se passava na França e cujo protagonista, Marc, era um ex-jogador de vôlei famoso e comentarista de esportes, que uma noite chegava a sua casa e descobria que a esposa havia sido esquartejada e seus pedaços cuidadosamente colocados em saquinhos de lixo. O crime ia se elucidando com uma boa dose de acontecimentos do além. Escrevi esse livro dos 16 aos 18 anos, de pouquinho em pouquinho. Quando o reli, anos atrás, achei pessimamente mal escrito... Até hoje há apenas seus manuscritos, que nem comigo estão.

Aliás, essa é uma característica minha: não consigo escrever prosa a não ser à mão. Somente depois digito os meus textos e os aprimoro no processo.

E quando você já deve estar se perguntando por que um louco de péssimo gosto e imaginação de deixar Glória Perez no chinelo foi então convidado para contribuir para este site, vou acalmá-los: aos 18 anos, comecei a escrever os contos que deram origem, enfim, a uma obra bem-sucedida! Foi quando surgiu o Dominação, que foi selecionado na Bienal do Livro de 2009 (sim, apenas sete anos depois) para fazer parte da coletânea Contos de Todos Nós, com outros 19 autores, da Hama Editora. E vieram as demais histórias que reuni sob o título Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades (resenha, do editor desse blog, clicando aqui) e publiquei, afinal, em 2012, pela Editora Faces. Eu tinha 28 anos, 10 a mais do que tinha quando escrevi o primeiro conto do livro.

Minha produção caiu muito desde então. Já comecei diversas histórias – o que inclui um novo livro de contos generalistas, um romance e uma fábula –, mas trabalho firmemente agora para finalizar o meu segundo livro de contos, que já tem título: Perversão. Diferentemente do primeiro, que reunia diversas temáticas divididas em três fases (as Desilusões, os Devaneios e as Outras Sentimentalidades do título), dessa vez todos os contos têm o sexo como linha mestra. A ideia é mostrar os limites e as circunstâncias adversas a que somos colocados quando o assunto é sexo, suas liberdades e provocações instintivas; brincar com a similaridade das palavras “pervertido” e “perverso”. Espero que eu consiga atingir o meu objetivo... Se não, vira um livro de contos pornográficos mesmo!

Só a extensão desse texto já me aponta que a decisão de aderir ao time do Barba Feita foi acertada. Escrever é um exercício, um remédio, uma religião. É um reencontro comigo mesmo. Foi o principal motivo pelo qual escolhi a minha tão castigada profissão de jornalista.

Por isso, agradeço imensamente ao Leandro e aos demais companheiros do site ao me abraçarem nessa equipe e nessa jornada. Trocar esse pneu não foi tão difícil assim!
Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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9 comentários:

Vitor Camarão 🍤 disse...

Vou querer o exemplar hein!!! Autografado!
O livro "Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades " é composto por vinte contos!! Acertei????

Esdras disse...

Já disse o que achei do seu texto: delicioso de ler!
Agora chega de papo, quero o livro de contos. AMO CONTOS!
Seu livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades é composto por 20 contos. É meu e ninguém tasca, pode mandar! Kkkkkk

Bjs!

Cristiano Queiroz - A vida é uma arte! disse...

Como não ser fã dessas palavras? Sei que eu tenho todos os motivos do mundo para que me digam: "você não vale!". Mas digo que sou o fã número um do autor.

Silvestre Mendes disse...

Olha, quero ler todas as histórias de mistério trash que você escreveu. Trash é bom, pode ser kitsch, pode ser tarantino, pode ser almodóvar e pode ser ótimo!

Seja bem vindo ao grupo. Puxa uma cadeira e senta aí pra dialogar toda semana com o que estiver no clima. O bom é isso. Escrever é como abrir uma porta dentro da caixa de Pandora. O que vai sair pode ser uma total surpresa.

ftostes disse...

Olha, como fã mais antigo do autor (suck it, Cris! rs), acho que não li Escravo Rei pessoalmente, mas recebia updates diários no recreio! E tb escrevi estórias trashs com você! Não lembro de mt coisa, mas existiu! Alguém correndo na floresta. Acho que o nome era Rachel. rs
Lerei sempre por aqui, amigo! E que venham os livros!

Unknown disse...

Exato, Felipe! Era numa festa na Inglaterra, o nome dela era Rachel e ela corria no meio de uma floresta com um vestido branco... E era assassinada!

E a gente parou de escrever juntos pq entramos num impasse pq vc queria matar o menininho e eu não quis... hehehehe

Anônimo disse...

Incrível o texto.Tenho certeza que o PH entrará para somar no blog. O texto acertado, encaixado e leve do Paulo sempre soa muito bem nas linhas e entrelinhas do pensamento. :)

Anônimo disse...

Incrível o texto.Tenho certeza que o PH entrará para somar no blog. O texto acertado, encaixado e leve do Paulo sempre soa muito bem nas linhas e entrelinhas do pensamento. :)

Alexandre Melo disse...

Texto delicioso, me achei em várias partes e certamente é uma adição louvável!

Muito interessado em conhecer mais de teus escritos, meu caro!