sábado, 29 de novembro de 2014

Esoterices



Esoterismo, você acredita nele? 

Depois de assistir alguns capítulos de Alto Astral (a novela das 19h, que aborda temas como reencarnação, fantasmas, etc) e uma entrevista com o esotérico Daniel Atalla, no Programa do Jô, decidi escrever sobre esse assunto, que já havia me ocorrido em outras ocasiões. 

O sujeito, jovem, bem apessoado e vestido de maneira despojada com jeans, tênis e camiseta, longe de parecer um Zé do Caixão, foi apresentado como "bruxo profissional". Assim que Jô o anunciou, meu primeiro impulso foi desligar a TV e tentar dormir, mas como o sono tinha resolvido dar uma voltinha, acabei sucumbindo a entrevista com o tal bruxo. Daniel é apresentador de um programa de rádio onde aborda assuntos como Terapia Holística, Numerologia, Tarot Conceituado no meio esotérico... E tornou-se referência nacional, pelos seus dons naturais e criações holísticas, com mais de vinte mil atendimentos por todo o mundo. Com uma capacidade psíquica e intuitiva nata, começou a jogar tarot aos nove anos de idade e estudar a filosofia do I Ching. Mais tarde, se aperfeiçoou com as Runas e o Baralho Cigano. Em seguida conheceu a Bruxaria e se tornou praticante da Antiga Arte até atingir o Grau Máximo de Sacerdote e Mago de Magia Natural. Estudou vários tipos de magia, dentre elas, a cigana, celta e africana. 

Apesar de todo esse extenso currículo, o assunto que permeou toda a entrevista foi a fisiognomonia. Não meus amigos, fisiognomonia não é o estudo dos gnomos mas sim a leitura dos traços da face. Daniel Atalla também é um estudioso de fisiognomonia, ele consegue ler determinadas características da personalidade de alguém apenas pelos traços da face. Não é fantástico? 

Olha que interessante: quem tem covinha no queixo é dominador; covinha nas bochechas é carência; orelhas de abano significa insegurança; nariz grande, pessoa autoritária e assim por diante... Tudo isso é só pra reafirmar minha posição sobre este assunto por vezes tão polêmico. Nunca acreditei, não acredito e continuarei não acreditando em bruxas, feiticeiras, ciganas, bolas de cristal, tarot, leitura de mãos, superstições, astrologia, previsões, destino e etc. 

Mesmo sem acreditar, confesso que a título de curiosidade e até pra confirmar minha teoria de que todos não passam de charlatões, já passei por algumas experiências esotéricas. Além de curtir dar uma espiadinha de vez em quando na página de astrologia do jornal pois, às vezes, algumas coisas coincidem e gosto de imaginar como seria bom se tudo que está escrito ali pra acontecer, acontecesse realmente, houve dois episódios interessantes na minha vida que gostaria de relatar aqui. 

A primeira vez, estava eu, acompanhado de uma velha e inesquecível amiga, Vívian (onde está você agora?), rodeado de uma gente descolada, moderna e super "prafrentex" na mesa de um inferninho bem badalado, tentando me situar, pela primeira vez num lugar como aquele. 

Vívian, super enturmada e querendo me apresentar todo mundo, quando, de repente, surge Lucas. Uma figura meio gótica, bastante imponente, alto, forte, todo vestido de preto, me é apresentado como bruxo. Dou uma risadinha amarela e ele pede que eu estenda minha mão para que possa lê-la. Fiquei tenso. Em meio a tantos olhares em cima de mim, a fumaça do ambiente, o tom avermelhado das luzes, um estranho belo e intimidador pedindo para ler minha mão, algo em que nunca acreditei. Tremi na base, mas acabei cedendo. 

Lucas examinou a palma de minha mão por alguns segundos, respirou fundo e olhando profundamente nos meus olhos sentenciou: 
-Você é muito misterioso. 
Dei outro sorriso amarelo, mas tinha gostado de ouvir aquilo, ser misterioso dá um ar de sedução a qualquer pessoa. 

Prosseguindo ele disse: 
-Você não quer que eu continue, quer? 
Como ele sabia? Eu realmente não queria que ele continuasse. Tinha medo de que falasse algo verdadeiro e minhas convicções caíssem todas por terra. Mas respondi: 
-Você que sabe. 
Ele fechou minha mão com delicadeza e com uma docilidade encantadora falou: 
-Você ainda não está preparado para ouvir. 
O que será que ele tinha a dizer? Lucas foi tão perfeito no papel que criou para si, que me convenceu naquela noite. E, por muito tempo, fantasiei que ele era realmente um charmoso bruxo que tinha aparecido em minha vida pra revelar algo de especial, como num conto de Shakespeare. 

Anos mais tarde, movido mais uma vez pela curiosidade e incentivado por outra amiga, Milena, fomos jantar em um restaurante Árabe, com o único objetivo de ao final da refeição tomar um cafezinho para ter nossa sorte lida na borra do mesmo, por uma mulher devidamente paramentada para tal função. 

Num canto do restaurante, vestida de odalisca, a mulher bebericava um drink azul esperando a hora de começar seu trabalho. Tinha em sua mesa uma bola de cristal, incenso e um ramo de arruda. Eu, que já havia acabado minha refeição, observava tudo atentamente, cada detalhe. A mulher tinha cara de charlatã, não passava nenhuma credibilidade, mesmo assim eu estava ansioso pela minha vez. Já havia tomado meu café, colocado o pires de cabeça pra baixo como tem que ser, mas ainda tinham 10 pessoas na minha frente. 

Por fim, quando chegou minha vez, ela fez todas as perguntas de praxe, esperando que eu desse a ela informações para que pudesse começar a falar sobre mim, como eles costumam fazer sempre. Como eu já conhecia esse truque, tentei falar o menos possível. Ainda assim ela conseguiu me deixar um pouco impressionado, descrevendo alguns traços muito particulares de minha personalidade. Começou dizendo o seguinte: 
- Você é muito ligado à arte, não é? 
Bingo, acertou em cheio! Será que deu pra ver só pela minha cara? Eu não tinha dito nada que pudesse dar a ela essa impressão. 
- Ainda continua com a ideia de ir pro Rio de Janeiro? 
É, dessa vez não deu, bola fora total. Eu nunca quis ir pro Rio de Janeiro, mas ela tentou adivinhar pela lógica, se eu queria estudar e trabalhar com algo ligado às artes, o mais provável é que eu tivesse vontade de ir pro Rio. Depois dessa pensei que ela iria só falar besteira, mas ela deu a volta por cima e conseguiu me deixar meio atônito. Ao término da sessão saí daquele restaurante com dois pensamentos: 
  1. Aquela mulher tinha feito a lição de casa direitinho. 
  2. Seria tão bom se fosse verdade. Se algumas pessoas realmente tivessem esse dom. 
Sou realista e pé no chão demais pra acreditar nessa gente sensitiva, adivinhadora e mística, mas como sonhador convicto, as vezes é gostoso uma dose ilusão. E no final das contas, como já dizia Gilberto Gil: mistério sempre há de pintar por aí.

E faço minhas as palavras de um velho ditado espanhol: 
 "Yo no creo en las brujas, pero que las hay, las hay."
Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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2 comentários:

Alexandre Melo disse...

Ah, meu amigo (e me deves ou nos devemos um café com papo, bobagem e livros, marquemos sim?) não as creio mas que existem, isso existem.

Também já passei por poucas e boas com essa gente e fico pasmo como um amontoado de clichês pode surtir efeito tão pérfido e instantâneo sobre as mentes mais fracas.

No fim, ouve-se o que se quer ouvir e não o que se precisa e quem sai o faz com aquele sensação de prazer e de futuro aberto ou promissor a frente ainda que existam desgraças proclamadas mas, foste avisado. É um lenitivo com prazo extremamente curto, um placebo mas, em alguns casos pode ser real.

Tenho uma grande amiga que é, digamos, sensitiva; jamais leu minha sorte ou afins mas, de tempos em tempos me liga a saber como ando porque havia sonhado algo comigo e, invariavelmente são coisas que não compartilhei nas redes sociais e que ela dificilmente saberia posto que mora distante de mim..

Enfim, cada um sabe onde lhe acabam as linhas das mãos..

Aconteceu disse...

Eu lembro Esdras do café, que você me contou assim que aconteceu....
Bom 90% dessas "médiuns" picaretas,porém sim existe uma pequena porcentagem que tem o dom, eu acredito,já tive algumas experiências bem interessantes referente ao tema.Muito bom o seu texto......parabéns...