terça-feira, 18 de novembro de 2014

Medo





Eu fiz parte de uma organização evangélica por... uau, quinze anos! Com nove anos eu fui chamado pra fazer parte da equipe de músicos e, nossa, achei aquilo o máximo. Estar junto com os mais velhos, poder aprender com eles, poder, quem sabe, me tornar amigo deles. Só que havia apenas um problema: isso jamais aconteceria. Eles me odiaram do começo ao fim. "Um garoto de nove anos que sabia de longe qual a nota que estava sendo tocada? Não, não pode ser!". Eu desisti? Que nada! Minha mãe dizia: "Queria tanto que você saísse disso..." e eu lá, firme e forte, pensando: "Uma hora eles vão me aceitar, aí seremos amigos, vou poder fazer parte da equipe!". Como eu era inocente...

Com treze anos eu tive um estalo: entendi que gostava de garotos! Mas e aí, o que eu ia fazer? Não tinha um melhor amigo; na época, os garotos da minha idade estavam preocupados em comprar vídeo-games, esconder revista de mulher pelada embaixo da cama, brincar de pique-qualquer coisa, dormir uns nas casas dos outros, enquanto eu, bem, eu passava horas e horas me dedicando ao trabalho de tentar fazer parte do grupo, de me encaixar. Eu queria me encaixar, como eu queria!

As coisas foram piorando. Eu tinha muito mais trejeitos que hoje, a mudança na voz, o desenvolvimento da minha essência, tudo isso aconteceu meio que ao mesmo tempo, e eu não sabia como lidar com aquilo. Ora essa, eu tinha apenas quatorze anos, sem ter com quem contar, um ombro pra chorar, qualquer coisa! Ouvia piadinhas aqui, sorrisinhos maldosos ali, insinuações, jogavam meias palavras para os meus pais, que me passavam diversos sermões em casa, inclusive sobre eu ser homem e não mulher. Legal, não? E eu lá, pensamento positivo, uma hora vai. Mas não foi.

Eu aguentei puxões de tapete, muitas punhaladas nas costas, armações, mentiras, enfim e enfim, tudo isso sozinho, por um bom tempo. Eu queria ter saído antes, mas era menor de idade e, como meus pais faziam parte da mesma organização, não admitiam que eu saísse de vez, que era o meu desejo. Queriam que eu abandonasse o cargo, não o lugar.

Aí você pode perguntar: "Glauco, por que não largou o lugar assim que completou dezoito anos, já que sofria tanto?". A resposta é simples: Medo. Eu tinha conseguido, eu tinha me encaixado, afinal. Era convocado pra eventos, festas, reuniões importantes. Me davam tarefas difíceis e eu as executava, eu ia de um lado para o outro fazendo o que eu me imaginava fazendo no começo, quando eu era otimista o suficiente pra pensar que tudo seria um mar de rosas, afinal, era uma igreja, todos eram legais. Pelo menos deveriam ser!

Eu tinha feito vários amigos, pessoas que me abraçavam, que me marcavam em fotos, que me chamavam de amigo, diziam que gostavam de mim, que me chamavam pra churrascos, que iam na minha casa, algo que eu pensei que nunca iria acontecer. Isso me segurou, eu tinha medo de sair da igreja e perder todos aqueles amigos. O que seria de mim?, eu pensava. Não queria trocar as amizades, os cargos que eu tinha conquistado, pra voltar a ser o garoto de nove anos, solitário, desesperado pra se encaixar no mundo, simplesmente não queria, porque eu tinha medo de não conseguir e morrer sozinho.

Mas um dia a gente cansa, a gente simplesmente cansa. O medo de ser quem eu realmente era me cegou por muito tempo, até o dia em que eu disse "Chega!" e saí andando. O mundo não se resumia apenas àquela organização, e eu não estava mais a fim de me fazer de forte, de posar de hétero, de sorrir por obrigação, de viver com medo, de não poder fazer isso ou aquilo, pois eu poderia perder meus "amigos". Eu saí, eu resolvi ser quem eu realmente sou.

A zona de conforto, a famosa zona de conforto, deve ser ultrapassada. Carregar algo que te faz mal, por puro medo de se arriscar, é algo terrível. Por muito tempo eu vivi assim; por um longo, longo tempo eu ouvi "Vira homem!", ou "Se você desmunhecar mais uma vez...", ou então a melhor: "Que isso, não me chama de Glauco não, eu sou homem!".

Não vou mentir, demorou um tempo pra eu me ajustar, afinal, quinze anos não são quinze dias ou meses. Eu sabia que as coisas não iam mudar de uma hora pra outra, eu tinha que deixar a vida seguir seu curso, mas as coisas se ajeitam. Hoje eu tenho meus dois melhores amigos, sem os quais eu não me imagino vivendo sem, uma foi parar na Irlanda, ou outro mora no Rio; tenho três excelentes amigos que moram na cidade do lado e sempre que nos reunimos damos boas risadas; tenho um amigo que adoro de paixão e que quase não vejo, mas quando vejo nunca sai algo que preste; uma amiga que deixou de namorar um cara por minha causa, já que o cara era homofóbico; tenho um bom emprego, uma vida tranquila e novos planos a serem executados, que só de falar nesses planos, já me dá um frio na barriga.

A vida é assim, cheia de riscos, de momentos de adrenalina. Cabe a nós escolher se vamos arriscar, ou se vamos nos esconder atrás de um medo qualquer.
Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, é o colunista oficial das terças no Barba Feita. Tem aproveitado a fase de solteiro para viver tórridos casos de amor. Com os personagens dos livros que lê e das séries que assiste, porque lidar com o sofrimento do término com personagens é bem mais fácil do que com pessoas reais.
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10 comentários:

Rubens Rodrigues disse...

Essa fase de auto descobrimento acontece justamente quando a gente, como indivíduo, precisa se encaixar em algum grupo da sociedade. Deveria ser fácil, mas é extremamente difícil. Ainda bem que a vida nos obriga a aprender com as situações e ensina a hora certa de arriscar (tá que nem sempre a vida mostra a hora de arriscar. Na maioria das vezes é por nossa conta e risco mesmo). O medo é realmente terrível, porém descobrir o que há fora da zona de conforto é algo inigualável.

Glauco Damasceno disse...

Exatamente, Rubens. Lutar contra o medo é muito difícil, mas a vitória não tem preço.

Tiago Guerim disse...

Vou bem fingir que sou esse amigo que você morre de paixão mas quase não vê... QUERO NEM SABER.

Parabéns pelo texto amigx. E um parabéns ainda maior pela coragem de se expor. Continuo seu fã.

Janaina Alves disse...

Trindade de outra cidade aqui. Poxa, que lindo o texto. Engraçado escrevi aleatoriamente ontem, sobre o mesmo tema.
A coragem só se revela quando decidimos que não há mais nada a perder e nos livramos deste medo.
Um beijo grande Amigo
We got your back!!

Glauco Damasceno disse...

Você não foi o único, Tiago <3

Glauco Damasceno disse...

Transmissão de pensamento, Janaína, só pode! (=

Anônimo disse...

Melhor texto seu que já li :D

Glauco Damasceno disse...

Ah, brigado, Anônimo!! =D

Glauco Damasceno disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Alexandre Melo disse...

Lindo mesmo, parabéns!

Acho que todos passamos por essa fase, a do encaixe, de tentar fazer parte do todo e considero normal já que era o que nos fora vendido.

Somos parte daquela parcela ínfima porem cada vez mais comum (ainda bem) dos que sabem quem são, não tem vergonha disso e podem mandar os outros passear, tudo isso não sem muito esforço e dedicação.

Quem acha fácil nunca passou por isso ou, se passou, foi café pequeno ante o que passamos. Não há como por um preço nisso, é a única parte nossa que jamais será sacrificada.

Dá um gosto ótimo pelo corpo todo saber que vencemos todos esses medos e hoje somos quem somos sem ter de prestar contas a seja lá quem for, mesmo porque, se alguém lhe pedir isso então não merece estar próximo de você.