sábado, 15 de novembro de 2014

Quase

O "quase" pode ser uma ilha de angústia e frustração ou um recanto de alívio e gratidão.

Um recanto, para quem quase foi pego por carro que vinha em alta velocidade.
Uma ilha, para quem quase se casou com o amor de sua vida.

Um recanto, para quem quase se casou com alguém que não amava.
Uma ilha, para quem quase passou no vestibular mais concorrido de todos.

Um recanto, para quem quase levou um tiro durante um assalto.
Uma ilha, pra quem quase conseguiu aquele emprego, após e uma série de entrevistas e seleção.

Um recanto, pra quem quase transou sem camisinha.
Uma ilha, pra quem quase foi morar no exterior.

Um recanto, pra quem quase revelou um segredo que não devia.
Uma ilha, pra quem quase abortou um filho desejado.

Um recanto, pra quem quase foi despedido do emprego que precisava muito.
Uma ilha, pra quem quase ganhou aquela promoção tão sonhada.

Um recanto, pra quem quase detectou um câncer tarde demais.
Uma ilha, pra quem quase se declarou e quase ganhou um beijo na boca de um grande amor platônico.

Para o bem ou para o mal, o fato é que o "quase" tem um sabor azedo-quase-amargo. Passamos por aquela sensação degradável de quase sermos felizes ou não. Não atingimos a meta desejada ou indesejada, mas vivemos a angústia, a expectativa, o medo, o pavor. Saímos do quase nos sentindo fracassados, mesmo que aliviados e gratos, porque algo não muito louvável nos levou a quase fazer uma besteira, ou a quase perder algo que não devíamos. Estamos envolvidos naquela situação de qualquer forma. E quanto mais "quases" vamos acumulando na vida, mais frustrados e derrotistas podemos ficar, ainda que alguns deles sirva pra nos fazer sentir vitoriosos.

Ninguém suporta viver uma vida inteira no quase. Muitos chutam o pau da barraca e fazem acontecer, porque sabem que não dá pra viver a mercê do acaso, esperando que o destino dê as cartas, e que, se não agarrarem com força o destino nas mãos, a felicidade, que é alvo principal de todos nós, quase escapa por entre os dedos. E depois de tanta batalha, não dá pra quase acertar o alvo.
Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
FacebookTwitter

2 comentários:

Alexandre Melo disse...

Somos seres do quase, não?

Bela análise dos tipos de quase, esses que nos privam das escolhas e deixam aquele famoso 'e se' no fim da língua feito jiló são os piores, são o que corroem tudo por dentro e acabam por nos entupir de sonhos não realizados findando em remédios e anestésicos.

Mas, no fim, o samba mesmo sai de como nós lidamos com nossos quases e aceitamos os que nos fizeram bem entendendo os que nos fizeram não tão bem.

Rejane Silva disse...

Amei este texto, a mais direta descrição da verdade.
O Quase, geralmente, é a negativa do nosso sucesso, e o condutor do nosso fracasso.

Melhor mesmo é viver intensamente e deixar o quase pra lá :o)