sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Sobre Rótulos ou Como Me Cansei Deles







Engraçado como algumas pessoas ficam surpresas por eu gostar de rock and roll, principalmente por gostar de Heavy Metal. Não sei porque tanta surpresa. Porque eu sou gay e os gays supostamente tem que gostar, venerar as tais divas da música pop? Mas, ó, eu também gosto delas. E, se algum metaleiro me ouve dizer isso, logo vem o discurso mega panfletário de que não tem nada a ver uma coisa com a outra. Tudo por não entender como se pode gostar de duas coisas tão distintas. Mas aí que está, quer dizer que não se pode gostar do dois gêneros? 

Sou aficcionado pelo chamado british pop e, quando era garoto, muito do que hoje é chamado Pop era chamado Rock. Lembro de uma entrevista do Igor Cavalera, ex baterista do Sepultura, numa entrevista à Marília Gabriela, falando justamente isso, que para ele tudo era Rock, mas enfim, voltamos aquilo de novo: rótulos, rótulos, rótulos. Quero ter a mesma liberdade em poder dizer que adoro Dalva de Oliveira tanto quanto o Lemmy Kilmister, sem que isto cause algum estranhamento ou aparvalharmento. Por isto me pergunto se rótulos ajudam a definir algo. Se gosto de tudo, então sou eclético para uns, ok, mas não é mais um rótulo? Eu gosto de música. Não basta? Parece que não.
E os rótulos não estão apenas na música. Hoje eu vejo que criaram tantos rótulos para definir a orientação sexual das pessoas que a coisa já virou tese de pós doutorado para tentar decifrar aquilo tudo. Dia desses, um amigo na faculdade me perguntou se um hétero que namora uma transsexual ainda seria hétero. Para mim, é gente que namora gente. E só isso. Para ele, uma grande dúvida.

Eu não sei muito bem o porque destes rótulos todos. Entendo que houve realmente um tempo em que as grandes gravadoras mandavam na música e precisavam rotular seus artistas para, assim, encontrar o público-alvo certo para cada um deles, mas isto não quer dizer que eu não possa escutar o que quero. Gostar de Metallica não me impede de gostar de Spice Girls. E agora, com a chamada globalização, é que estas fronteiras deveriam cair mesmo. E com relação a vida sexual das pessoas, é um assunto de foro íntimo e ninguém tem nada a ver com isso, então para que rotular? De repente, isto vai favorecer alguém a alguma coisa? O que mais vejo é justamente o contrário.

Exatamente, eis o ponto onde quero chegar. Por isto me pergunto se rótulos realmente ajudam a definir algo. Eles colocam determinada pessoa numa espécie de gaiola que pode deixar a coitada lá dentro para sempre. E aí a tal pessoa tem que ser ótima para sair de lá. Entretanto, muitas vezes queremos tanto o ótimo que esquecemos o bom. E este perfeccionismo atrapalha muito, já dizia Ruy Guerra, que disse à Claudia Ohana, que disse à Gabi (sim, eu adoro assistir a Marília Gabriela).

Obviamente este é um assunto que rende mais posts, mas vamos por ora ficar por aqui, que já está de bom tamanho, afinal se Deus existe, ri como o James Hetfield e canta como Aretha Franklin.
Leandro Faria  
Serginho Tavares é um apreciador de cinema (para ele um lugar mágico e sagrado), da TV e da literatura. Adora escrever e é o colunista oficial do Barba Feita às sextas. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência até a praia e mantenha sempre os pés bem firmes na terra.
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2 comentários:

Anônimo disse...

Adorei Serginho.

Alexandre Melo disse...

Essa questão vai além da música e afins, se você é assim ou assado então a sociedade espera que você tenha esse ou aquele tipo de comportamento e, quando você 'falha' em atender ao rótulo ou esterótipo esperado isso dá um nó violento na cabela das pessoas.

Exemplo: sou gay, amo ser gay e se há reencarnação, quero voltar viado que é mais! Mas, já cansei de ouvir de pessoas que me souberam gay que eu 'não parecia viado', sei, se eu fosse afeminado, afetado e acumulasse os mesmos rótulos que se espera de um gay, ficaria mais fácil aceitar e entender mas, como não os tenho, o outro não atina com a noção que ele tem e o que realmente é.

Acho esse um dos tipos mais nefastos de preconceito pois embuti que você me aceita não pelo que sou mas como não sou e que, para essa pessoa se torna mais palatável...