sábado, 22 de novembro de 2014

Todos Nós A Esmo (ou Como Me Sinto Vivendo em São Paulo)







Uma mulher, que parece ter o casamento perfeito, trai o marido e é viciada em drogas.

Outra, viúva e depressiva, comete suicídio ingerindo uma dose cavalar de comprimidos, deixando órfão o único filho, um rapaz de 25 anos, que dedicava-se a cuidar da mãe com todo o carinho. Vaga pelas ruas sem rumo, perdido, incapaz de imaginar como será sua vida sozinho no mundo.

Um jovem e solitário escritor/poeta, leva seus escritos para a única amiga ler. Como ela não lhe dá a atenção que ele deseja no momento, ele se mata atirando-se da varanda do apartamento dela, deixando-a estarrecida e culpada.

Um travesti negro que sonha em ser uma estrela da TV, vive de programas e um dia é incendiado no meio da rua por dois "filhinhos de papai", que só querem se divertir.

Uma garota abandonada grávida pelo namorado, quase morre, tentando abortar sozinha, num quarto fétido de uma pensão na boca do lixo, o filho que não nasce.

Um rapaz homossexual mente para mãe dizendo que trabalha à noite e vai pro submundo, enquanto a mulher, evangélica, fica rezando pelo filho e esperando que ele lhe apresente uma namorada.

Uma moça dá a luz um bebê num ferro-velho abandonado e o deixa ali mesmo.

Em comum, todos vivem na mesma cidade, São Paulo, e são ouvintes do mesmo programa de rádio, o místico O Signo da Cidade. Um programa apresentado pela bela e amargurada Teca, uma astróloga que leva esperança para seus ouvintes, lendo o futuro deles nas estrelas. 


Todos estão sozinhos, a esmo, cada um por si. Numa cidade tão grande, as pessoas esquecem umas das outras, são frias, endurecidas pelo dia a dia corrido e caótico da imensa São Paulo. Todas tem seus sonhos. Todas querem ser amadas. Mas é preciso "matar um leão por dia". Sem romantismos, sem ilusões.

O Signo da Cidade é um filme brasileiro dirigido por Carlos Alberto Ricceli e estrelado por sua belíssima esposa, Bruna LombardiAssisti ao filme na época de seu lançamento no cinema, em 2008. Ainda morava em Porto Alegre e a história me envolveu e mexeu muito comigo mas, ao sair do cinema, minha realidade era outra, um pouco menos triste e solitária. Hoje, mais de seis anos depois e morando em São Paulo, me sinto dentro do filme, como mais um daqueles personagens.

Eu, que já sonhei tanto, que sempre me iludi com a ideia romântica de viver um grande amor, hoje corro contra o tempo, trabalho feito louco, durmo muito pouco. Tenho alguns amigos que preenchem algumas lacunas, mas dificilmente compreendem a dimensão da solidão que me aflige. 

Tem momentos que a maior falta é colo de mãe. Voz, olhar, toque de mãe. Mas estou sozinho, é fato, e tem horas que o vazio ecoa tão profundo. Mas não esmoreço por muito tempo.

Eu, que toda a vida desejei um milhão de amigos e muitas vezes sofri por não tê-los, briguei com a solidão, rasguei meu coração para, enfim, chegar até aqui e compreender que estamos todos sós, no filme, na vida.

Cada um lidando com ela à sua maneira. Correndo feito formigas fugindo da água, nas ruas, no metrô ou presas no trânsito infernal dessa megalópole ensandecedora, onde o luxo e o lixo se misturam e confundem-se de maneira fascinante e atordoadora.

Por incrível que pareça, agora, mais do que nunca, me sinto forte, confiante, seguro de mim e incapaz de ser atingido por sentimentalismos fugazes. Mas, às vezes, quando paro um pouco pra respirar, aquele velho vazio teima em ressurgir. Ligo o rádio pra espantar a solidão. Quantas milhares de pessoas não estão fazendo o mesmo aqui em São Paulo, no mesmo momento que eu? Quantas não se sentem iguais a mim? Isso é um consolo?

Lembro do filme. Reflito sobre a minha vida. Penso no resultado das minhas escolhas. Percebo que não estou infeliz. Solitário sim, mas não infeliz. Chego à conclusão que a luta diária pela sobrevivência nos deixa duros e insensíveis, muitas vezes involuntariamente. E já que as horas e o tempo nos pesa tanto, ainda insistimos em sonhar com um pouco de arte, amor e alegria. Esse é meu maior consolo em São Paulo, a profusão de arte, que enche meu coração de amor e alegria e me dá forças pra continuar.

Porque, como diz uma das personagens do filme: tem coisa que ainda vale a pena!
Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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