quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

2014: O Ano Que Poderia Não Acabar





Sou uma pessoa que olha muito para trás. Sou afeito a retrospectivas, a fazer balanços e analisar prós e contras de momentos da minha vida. Quando chega esse pedacinho especial do ano – o seu fim – isso se torna algo intenso. Em compensação, não sou de traçar resoluções fantasiosas, embora crie as minhas expectativas para o ano que vai nascer. Por exemplo, prometi pra mim mesmo que me empenharia em me tornar um cozinheiro mais sofisticado em 2014 – e acho que esse ano foi o que mais estive longe do fogão desde que passei a ter um.

Mas voltando à retrospectiva em si, lembro que terminei 2013 dizendo que sentia que havia sido um ano “encardido”. Tive bons momentos, mas lembro que 2013 foi o ano mais difícil de toda a minha maturidade. Pedia, no meu post de balanço no Facebook, que ao longo de 2014 eu desencardisse do ano anterior, assim como uma pessoa que caminha longas horas na grama não consegue desencardir o pé mesmo após esfregar bucha e sabão com afinco.

2014 foi um ano muito especial. Muito mesmo. Daqueles anos para cuidar com carinho na memória. Aliás, é engraçado como os anos terminados em 4 são anos que invariavelmente me trazem lembranças boas. Após nascer em 1984, tive excelentes anos em 1994, 2004 e agora 2014.

Já em janeiro, conheci um serzinho que mudou a percepção que eu tinha de família até então: nasceu Manuela, minha sobrinha. Pela primeira vez na vida, me deparei com um descendente e não apenas antecessores. Vejo tanto da minha irmã (e consequentemente de mim, já que somos notoriamente parecidos) nela que chega a ser inacreditável. Às vezes, preciso lembrar que ela é real de tão especial que é. E mesmo a vendo menos do que eu desejaria, quando estou com ela é como se sentisse um pedacinho, mesmo que muito inho, de mim vivendo em outra pessoa. Imagino o dia em que tiver filhos...

Por falar em filhos, existe aquela máxima que diz que uma pessoa não pode morrer sem antes ter um filho, plantar uma árvore e escrever um livro. Eu, em nível pessoal, sempre incluí aí assistir a uma final de Copa do Mundo. Sim, sou um ser que AMA Copa do Mundo. Do tipo que acordava às 3h da madrugada na edição de 2002 pra assistir a Nigéria x Suécia. Sei de cor todas as finais de Copas desde 1930. Não sei bem porque nasceu essa paixão, mas é algo que eu amo amar. E em junho veio a Copa no quintal de casa. Ah, a Copa... Acompanhei a trabalho, por esses caminhos tortos pelos quais a vida nos leva, cinco partidas no Maracanã. Presenciei a eliminação da então campeã Espanha, assisti ao gol da Colômbia que foi eleito o mais bonito da competição e vi a grande final entre Alemanha e Argentina, com direito ao gol na prorrogação do Götze. Como já escrevi um livro e plantei (algumas) árvores, agora só faltam os rebentos mesmo...

No meio da Copa, meus 30 anos. Estou até hoje procurando a tal crise dos 30. Foi uma idade que chegou tão serena que eu falava que tinha 30 mesmo antes de completar. Em nada me doeu assumir que minha certidão de nascimento tem mais de três décadas. Comemorei a data cercado de pessoas que amo, em minha nova casa. Simples, mas cheio de afeto.

Ah, sim, casa nova. Pela primeira vez, passei por uma mudança. Saí do pequeno apartamento que me acolheu pela primeira vez fora do ninho dos meus pais, em uma vida a dois que já tinha cinco anos de história e precisava do seu lugar. Foi louco: ver o anúncio no domingo, ver as primeiras imagens dele na segunda, conhecer na terça, ser aprovado na quarta e se mudar já na quinta, em menos de 16 horas, foi um recorde que eu espero não repetir. Mas, valeu muito a pena. Parece que sempre morei nesse lugar. Tem a nossa energia, pudemos pensar em cada cantinho e aplicar nossas idéias de decoradores amadores em prática, com direito a lixar, reformar e pintar uma cômoda antiga bem ao estilo daquela do comercial da Narcisa Tamborindeguy. Juro que esperava ela sair gritando um “Ai que absurdo!” a qualquer momento, mas até hoje ela não o fez...

Também vieram as viagens. Chile, Uruguai e, agora no finzinho, dei uma esticada em Salvador que me recarregou as baterias. Foram viagens inesquecíveis, sem dúvida. Conhecer outras culturas, outros povos (mesmo que similares) é algo que descobri há bem pouco tempo, mas não tem preço. Viajar é um caminho sem volta. É daquelas coisas que você replaneja suas prioridades para colocar em prática. Quando termina uma, já pensa na próxima. Na última vez que fui cortar o cabelo, ouvi da profissional que uma das histórias de cabeleireiro é de que quem tem muito rodamoinho na cabeça é porque já é ou ainda será um grande viajante. Ela logo me perguntou se eu viajava muito. Respondi que menos do que gostaria, mas que isso era um bom sinal!

Em 2014 também fiz amigos. Muitos. Perdi a conta de quanta gente boa conheci nesse ano, inclusive nessas viagens. Pessoas que espero que me acompanhem por muito tempo nessa caminhada que chamamos de vida, porque são todas muito especiais. Reencontrei amigos das antigas, em especial um, que foi o primeiro confidente, o primeiro melhor amigo, com quem tive minhas diferenças por muitos anos e que hoje reencontramos o laço que nos uniu uns 20 anos atrás. Que coisa boa é um amigo de verdade!

E teve um outro serzinho, dessa vez de quatro patas, que também pintou no pedaço (que coisa mais “chamada da Sessão da Tarde”...), após uma aventura do meu cachorro com a cadela do meu cunhado que ninguém esperava, enquanto viajávamos. Drica, uma improvável mistura de Poodle com Dachshund (vulgo salsichinha) que conquista a todos com seus olhos, nariz e pelagem cor de mel e sua sapequice aguda. Uma “fofureza”, como bem disse uma amiga um dia.

No campo religioso, foi um período de crescimento e amadurecimento únicos. Há sete anos, tive a oportunidade de fundar uma instituição da qual faço parte até hoje e, em 2014, recebi a honra e a responsabilidade de me tornar dirigente da sua primeira filial. Nessa posição, vivi tantas coisas em tão pouco tempo... Convivi ainda mais proximamente com a necessidade de se fazer a caridade (inclusive material, em uma comunidade carente que passamos a atender). E vi o trabalho crescer em poucos meses, inclusive com a volta de antigos companheiros de caminhada. Missão essa que emociona muito esse empedernido coração.

E nessa missão, conto com todo o companheirismo e iluminação da pessoa com quem estou junto há dez anos. Dez anos que completamos exatamente em 2014 e que já foi assunto aqui nesse Barba Feita. Não é uma marca qualquer, tenho consciência disso. Já se foi um terço da minha vida ao lado dele e não existe demérito algum nisso. Só felicidade. Não que uma relação seja feita só de felicidade. Mas que datas como essas existem para serem celebradas como únicas que são, mesmo com as imperfeições (necessárias) dos anos.

Foi um ano de descobertas também. Descobri que sou capaz de acordar cedíssimo num domingo para ir correr na rua em uma competição cuja recompensa é apenas cruzar a linha de chegada, vencendo o seu limite (ou não, né... tem vezes que não dá). Acho que também foi o ano que mais fui ao teatro... E profissionalmente, consolidei minha posição e minha equipe. Vi o crescimento de cada um que trabalha comigo. E vencemos diversos desafios juntos, tendo feedbacks quase sempre positivos enquanto gestor.

Vendo o que planejava para 2014, também não consegui finalizar e lançar o meu segundo livro solo. Mas estou em vias de. Ao mesmo tempo, fui descoberto por essa galera ímpar do Barba Feita e recebi a honra de contribuir às quartas-feiras com minhas singelas letras, compartilhando com cada um de vocês minhas idéias (ou falta delas...). Um exercício semanal que, às vezes, é exigente com uma agenda já tumultuada, mas que se faz importante para alguém que se sente realizado escrevendo. Por isso, agradeço ao convite do Leandro Faria e a acolhida de cada um dos meus companheiros de empreitada (Glauco, Silvestre, Serginho e Esdras) nessa quarta, que é o último dia do ano. Quis o destino que o 2014 do Barba terminasse justamente nas mãos do seu colunista mais recente.

Certamente, o ano foi marcado por muitas outras coisas que não couberam nessas linhas aqui. 2014 definitivamente vai deixar saudade. É daqueles anos que a gente desejaria que não acabasse. Mas a vida é justamente isso: nem sempre serão doces os dias (ou os anos), mas novos tempos sempre surgirão para lembrar que, sejam eles bons ou ruins, é necessário viver. Que venha 2015!
Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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