quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Ecos da Falocracia





Não, eu não ia escrever sobre isso. Até porque acredito que existem coisas que, quanto mais se falam, mais quem as causou atinge o seu objetivo, que é o de ganhar visibilidade e legitimar os seus dogmas junto ao seu eleitorado. Mas também acredito que existem coisas que, se não forem faladas, é como o ovo de uma serpente: é possível ver crescendo lá dentro uma víbora que pode ser fatal.

Colocando ambas na balança, achei melhor tratar do assunto, mesmo uma semana após o seu ápice.
“Não estupro você porque não merece.”
Essa frase foi dita por um parlamentar democraticamente eleito pelo Estado do Rio de Janeiro a uma colega de Congresso. E, sinceramente, eu não tinha dúvidas de que ele seria reeleito no último pleito. Talvez não tivesse a noção da quantidade de votos que ele alcançaria – comparável à quantidade que Luciana Genro (PSOL) teve em todo o país para a Presidência. E hoje não esperava que uma busca em seu nome no Google já apareça o termo “Presidente” como um dos mais associados.

Poderia dissertar aqui sobre o fato de ele dizer que alguém só é gay porque faltou porrada do pai e da mãe; ou de depreciar negros; ou de desrespeitar a Presidente da República. Mas vou me ater somente à sua apologia ao estupro. Um homem que se diz ao lado da Lei (e de fato, é um legislador), que defende a Polícia e as Forças Armadas, dizer que não cometeria um crime porque a sua potencial vítima não merece.

Pra não parecer que é um manifesto a respeito do deputado, vou aqui fazer um aparte e dizer que bola fora no mesmo sentido cometeu o Maroon 5, na figura do seu líder e treinador do The Voice dos EUA, Adam Levine – dos quais eu sou fã. A apologia de um homem com tipão de psycho perseguir uma mulher bonita, com direito a vísceras cruas de animais e literal banho de sangue no clipe da música Animals (que ainda sugere canibalismo em sua letra) definitivamente não é algo legal. Embora não seja o representante de parte de uma população em um Congresso, trata-se de figuras públicas, que têm a admiração e influenciam milhares de pessoas.

Eu não sou mulher. E, sinceramente, não desejaria ser. Não nessa sociedade na qual elas (ainda, mesmo após anos de lutas e conquistas) são subjugadas.

O deputado, na verdade, nada mais é do que reflexo dessa sociedade, que vota nele e em que tais: mais do que machista, vivemos em uma sociedade falocêntrica e falocrática. Sim, meus caros, falo do falo. O pênis. A arma mais invasiva que o cara lá de cima inventou. E junto com ela, vem um corpo que geralmente costuma ser mais forte e cheio de hormônios que elevam a libido do que o do sexo oposto. Pimba! Combinação perfeita para se achar no direito de violar alguém mais frágil.

Eu não sou mulher. Mas sei bem que um dos maiores pesadelos femininos é ser perseguida e violentada. Não existe mulher que não tenha passado por uma situação de medo, sozinha, em que não achou que poderia ser atacada. Se nós, homens, já tememos em alguma situação sermos assaltados ou agredidos, imagina para elas que o combo ainda vem com a concreta possibilidade de um estupro. A não ser que não mereça, na cabeça do parlamentar...

Eu não sou mulher. Porém, já vi as (diversas) vezes em que minha irmã foi assediada na adolescência e juventude; as piadinhas que minha mãe já ouviu, inclusive na minha frente, principalmente quando esteve separada do meu pai; a vez em que a minha avó (sim, avó), já sexagenária, foi abordada por um taxista que se masturbava. Presenciei os olhares lascivos de desconhecidos para amigas na rua, sem a menor cerimônia de elas estarem acompanhadas, simplesmente porque é direito inerente ao homem comentar e externar o seu desejo pela mulher que expõe a sua figura na Medina; mais do que direito, é uma obrigação, pois é um selo de macheza, um atestado de virilidade dos quais os homens são cobrados desde a mais tenra infância, quando os pais dão as primeiras Playboys para os meninos de cinco, seis anos de idade, ainda despidos de sexualidade, e esperam que eles demonstrem suas excitações com aqueles “aviões” desnudos. Estimulam que eles mexam mesmo nos seus “pintinhos”, botem pra fora pra urinarem na rua porque “é somente uma criança” e já avisam aos amigos: “prendam as cabras que o meu bode tá solto”. Afinal, qual é a primeira coisa que avisam no ultrassom quando descobrem que o bebê é um menino? “Olha ali o pintão e o sacão dele”. E a menina? Não tem uma vagina? Ou é apenas ausência do pênis que a identifica?

Eu não sou mulher. Mas não sou ingênuo ao ponto de achar que elas também não sentem desejo por homens que vejam na rua. E que nem por isso precisam soltar um “Gostoso”, “Ai se eu te pego” ou um “Ô, lá em casa!” para terem certeza do seu desejo. Até porque, se o fizessem, seriam tachadas de vulgares e galinhas. Afinal, é um dever inerente da mulher ser recatada – pelo menos daquelas que são eleitas para serem mães de família, que para muitos não necessariamente são as mesmas para se ter aquele sexo de dar inveja aos filmes pornô.

Por falar em pornografia, essa é mais um sintoma do falocentrismo em que vivemos. Nas películas hétero, mesmo sendo as atrizes aquelas que encabeçam os elencos, os astros principais são os falos. O mesmo vale para os filmes gays, até mesmo de forma mais intensa. O ativo sempre domina o passivo, quase que numa obrigação do outro em ser penetrado por aquele se mostrou mais forte, mais agressivo. Mais homem. Porque dele é o falo que penetra. Se tiver demonstração de dor da mulher ou do passivo, melhor ainda. Humilhações verbais, pequenas agressões físicas... Tudo faz parte desse universo, que só reflete aquilo que nós, do lado de cá das telas, consumimos.

Essa mesma falocracia é a que faz, muitas vezes, encontrarmos quem até entenda um relacionamento entre dois homens, mas não entre duas mulheres. Eu mesmo já ouvi que seria “pouca vergonha”. Ou mesmo, falta de p!c@: “Não comeram direito... Se fosse eu, entrava ali no meio e resolvia a parada”. Como se uma relação fosse sustentada em centímetros de ereção e não no sentimento, na atração. Afinal, um homem com duas mulheres é um sonho. Se for uma mulher com dois homens, só pode ser uma “festinha” que um dos homens permitiu. “Mas eu nem olhei direito o cara”, “a gente nem se encostou” ou “teve horas que deu até um nojo do cara ali do lado” sempre têm que aparecer. Afinal, como não pode um falo reinar sozinho?

Por isso, depois da infeliz declaração do deputado, ainda somos obrigados a vermos aqueles que o defendem avançarem na agressão ao escreverem que Maria do Rosário não merecia ser estuprada porque, além de tudo, “com essa cara horrorosa, nem com Viagra”. Nada é tão ruim que não possa piorar...

Nunca haverá uma unanimidade. Nunca viveremos em Utopia ou Pasárgada. Nunca teremos todos pensando da mesma forma e com bom senso – até porque, como aprendi, bom senso é a opinião de uma pessoa que pensa parecido com a gente.

Não sei se precisamos apenas de uma mudança de comportamento que passe pela educação. Ou que passe pela punição penal rígida. Fato é que desde muitas tradições tribais, atravessando as Roma e Grécia pré-cristãs, o falo reina. Na verdade, o problema não está no falo, evidentemente: afinal uma faca é apenas uma faca; mas quem a emprega pode usá-la pra passar manteiga ou pra matar alguém.

Por favor, homens: urinem e façam muito sexo com suas respectivas armas. Masturbem-se. Coloquem piercing, tatuem, vistam cueca de elefantinho. Façam o que quiserem. Mas nunca se achem no direito de penetrar alguém que não o queira. 

Votar no tal deputado, por mais mau gosto que possa ser, é um direito garantido constitucionalmente e diz respeito ao livre-arbítrio de se ver representado. Mas estuprar, não importa em que condições ou circunstâncias, é crime. Hediondo.
Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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Um comentário:

Alexandre Melo disse...

Seu texto merece ser ovacionado em pé! Parabéns!