quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

O Velhinho Sempre Vem





No último sábado, estive em uma comunidade carente distribuindo brinquedos que ajudei a arrecadar durante meses. Eu e um grupo de outras nove pessoas, incluindo um que se vestiu de Papai Noel num calor inclemente. Ao todo, foram quase 80 crianças atendidas em cerca de uma hora e meia. E vimos de tudo: descalços, maltrapilhos, sujos... Uma senhora que cuidava de 15 crianças, sendo que nenhuma era filha dela; uma outra que, mesmo aparentando ter menos de 40 anos, tinha 10 filhos, sendo o mais velho com 25; alguns órfãos de uma guerra contra as (ou pelas) drogas... Em todos (em quase todos na verdade, porque pude constatar empiricamente que cerca de 10% dos pequenos têm medo de Papai Noel), era possível ver estampado o sorriso no rosto ao ver o bom velhinho. E olha que foram atendidos de bebês de colo até adolescentes de uns 14, 15 anos.

Conta a lenda concebida por Theodore Seuss Geisel, que uma criatura feia, verde e peluda chamada Grinch roubava o Natal, tendo seus motivos dignos de terapia para isso. As crianças às quais eu me refiro não precisaram de monstros mitológicos para terem um Natal atrás do outro sem saber o que seria um presente, uma ceia ou uma celebração em família. Tiveram muito de um Natal de conto de fadas roubado pela dura realidade em que vivem. Mas nunca abandonaram a sua crença no velho senhor de barba longa e branca e vestes vermelhas.

Sim, Papai Noel é uma mentira. Vermelho então, apenas por causa da Coca-Cola. Jesus não nasceu em 25 de dezembro, que foi um dia escolhido para ser exatamente uma semana antes do Réveillon e facilitar as festas de fim de ano. A data se tornou algo muito mais comercial e perdeu seu significado original para muitas pessoas. Muitos se aproveitam para posarem de bons cordeirinhos quando, na verdade, são velhos lobos amorais. Mas é inegável que a data tem a sua magia própria para quem a celebra e consegue, como poucas, unir grande parte da população mundial em torno dela. Eu sou uma pessoa que acredita que o pensamento é a maior arma do ser humano e quando diversos deles estão irmanados em uma só intenção, para mim, é evidente que se estabelece uma atmosfera única – mesmo que seja passageira para alguns.

Lembro até hoje do dia que descobri que Papai Noel não existia. Foi a minha prima Marcela quem me contou, após a nossa prima Cintia contar para ela (coincidência ou não, Cintia era a prima mais velha, depois vínhamos Marcela e eu, nessa ordem). Eu e Marcela tínhamos os nossos cinco anos, estávamos na casa dos nossos tios Francisco e Maria José, pais de Cintia. Quando Marcela me revelou a informação cabal, lembro que a minha reação imediata foi dizer que eu já sabia. Por dentro, me remoia de incredulidade e, por que não, luto. Nunca fui de acreditar em Coelhinho da Páscoa ou Fada do Dente, mas Papai Noel era PAPAI NOEL, pô... Acho que essa missão infantil só não foi pior do que largar a chupeta (mas isso é trauma para outra coluna). Nem por isso passei adiante a dura informação para minha irmã ou meus outros primos. Apenas contei para meus pais que já sabia – e eles confirmaram o inevitável. E deixei os demais pequenos acreditando na lenda que descia pela chaminé (embora ninguém tivesse uma chaminé no Rio de Janeiro).

Outra lembrança que tenho da minha infância foi de uma curta época de vacas magras familiares (tempos de FHC, mas isso também não é papo pra essa coluna...) em que eu e minha irmã não tivemos como ganhar presentes dos meus pais. Mesmo assim, esperávamos ansiosos por estarmos juntos à mesa, mesmo que fossemos apenas nós quatro. Ainda que fosse no período em que nossos pais se separaram, sempre estivemos juntos. Definitivamente, não era um sentimento comercial que nos movia a estar ali...

Natal significa Nascimento. E assim como quem inventou o Ano Novo nos deu uma oportunidade de recomeçar, quem o inseriu em nosso calendário nos deu uma oportunidade de nascer de novo. Olhar para dentro de nós e aproveitar a simbologia do nascimento de Cristo para repensarmos em nossas atitudes. E não precisa seguir uma religião ou mesmo acreditar na existência de Jesus para ter atitudes cristãs: basta você querer o bem do outro. Isso até ateus e agnósticos fazem no seu dia-a-dia, mesmo sem muito saber por quê. Infelizmente, até alguns dos que se dizem mais religiosos apenas se compadecem nessa época do ano, quando deveriam agir assim ao ano inteiro. Mas, se pelo menos tiverem aderido, por poucas horas, a essa corrente de humanidade e refletido um pouco sobre o próximo, o Natal já terá valido a pena.
Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
FacebookTwitter


Nenhum comentário: