quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Ricos, Riquíssimos!





Sei que pode parecer estranho, mas sempre fui um aficionado por Geografia. Quando era pequeno, gostava de conhecer os países no mapa e decorar suas capitais. Aos sete, oito anos, enquanto os meninos jogavam bola ou videogame, um dos meus passatempos era pegar o mapa do Brasil e decalcar com uma folha em branco, criando novos Estados além dos existentes e batizando de acordo com o meu próprio discernimento pueril (lembro de ter inventado um chamado São Pedro e outro Mato Grosso do Norte). Era chamado de nerd, CDF e afins... Creio, hoje, que com razão.

Também me recordo de ter feito uma vez, por vontade própria, uma análise dos demais países da América do Sul, que apresentei para os meus pais na sala de carpete marrom do nosso apartamento. Em todos, em meu humilde caderninho, eu começava o texto dizendo que era “um país muito rico”, não importava se Argentina, Peru, Bolívia ou Guiana (antes de cair o trema, nunca soube porque pronunciávamos o U). E lembro que meus pais alertaram, achando graça, que esses países não eram ricos; alguns deles seriam bem pobres, inclusive.

Em pouco mais de um ano tive a oportunidade de conhecer três dos nossos vizinhos sul-americanos: Argentina, Chile e Uruguai. Além da língua, outro ponto em comum entre os três países foi a boa forma como fui recebido em todos. Em especial, no Uruguai, onde a cordialidade e a presteza do povo foi uma das coisas que mais me chamaram atenção.

E, sinceramente, vi de perto que, sim, todos são países muito ricos. Evidentemente, não estou falando de PIB, de moeda forte ou de investimentos. Mas da riqueza que cada um carimbou no passaporte da vida desse recente viajante.

Vi se confirmar a lenda que ouvia quando estudava de que em Buenos Aires havia quase uma livraria por esquina; que eu iria morrer de inveja ao ver o Abaporu divando no Malba e não em algum museu brasileiro; que Puerto Madero era um exemplo bem sucedido do que uma cidade deve fazer com uma degradada Zona Portuária; que a Bombonera é caída, suja e longe das nossas arenas padrão-FIFA, mas é mítica e amada por seus frequentadores; que La Boca é colorida como nas fotos e que é muito divertido almoçar por lá vendo dançarinos de tango bailando diante dos seus olhos embasbacados de turista.

Foi nos Andes chilenos que vi a neve pela primeira vez, num dia em que ninguém esperava que fosse acontecer; no Chile aprendi finalmente a gostar de vinhos e fiz um passeio de bicicleta por uma vinícola inteira sob um céu azul, abraçado pelas montanhas; conheci duas casas de Pablo Neruda e aprendi um pouco mais da sua história; estive no Palácio La Moneda e assisti aos vídeos brutais do seu ataque no golpe de 1973, culminando com o suicídio de Allende; me assustei ao ir ao Museu da Memória e dos Direitos Humanos e encontrar uma parede IMENSA coberta de retratos de desaparecidos políticos da época da ditadura.

No Uruguai, tive a oportunidade de estar por duas vezes. A primeira, muito breve, em Colonia do Sacramento, em 2013, cidade fundada por portugueses que parece ter parado no tempo com seus azulejos lusitanos e seus carros antigos à la Havana. Na última semana, em nova passagem (dessa vez mais longa) pelo país, conheci o céu mais azul da minha vida e vi o sol se pôr nas águas do Rio da Prata depois das 21h; encontrei lugares bem cuidados, modernos e seguros; conheci o estádio onde foi realizada a primeira Copa do Mundo da História; passeei de carro pela rota Interbalnearia (um tapete...) admirando lagunas, arroios e pradarias; encontrei uma capital tão mente aberta que era na boate gay que existia um aviso de que era um espaço “hetero friendly”, e não o contrário (porque, salvo um ou outro que nunca irá aceitar ou mesmo respeitar a homossexualidade, o país inteiro se tornou publicamente gay friendly depois que o casamento homoafetivo foi aprovado); vi um dos povos mais educados (sei que já falei, mas não custa frisar) e bonitos que já conheci.

Sei que ainda estou naquele momento de abstinência da última viagem, recém-retornado das férias. Mas mesmo que ainda não estivesse inteiramente enamorado pelos últimos dias que passei no Uruguai, nada desmerece a rica experiência que tive aqui pela Sudamerica. Rica como seus povos, suas Histórias, suas arquiteturas, artes e gastronomias.

Que menino de visão que eu era!
Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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