quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Somos Resistência





O grande problema em estar cercado por pessoas que não ligam para essa eterna questão de ser gay ou hétero, é que ficamos confiantes. Achamos que o mundo está mudado e que as pessoas são mais receptivas e mente aberta. Mas elas não são. O choque é grande quando saímos da redoma que naturalmente nos colocamos e enfrentamos a dura realidade.

Quando não são palavras ríspidas ou piadinhas infames, tudo fica no olhar de reprovação ou na breve troca de olhares recriminatórios. Vamos acordar. Nem todo mundo consegue, ainda, achar natural dois homens se beijando, andando de mãos dadas ou até mesmo se abraçando. Irmãos e pais já foram agredidos e mortos por homofóbicos que viram algo além de um ato de carinho, uma agressão à masculinidade.

A grande e intocável masculinidade do homem brasileiro. Se quisermos, algum dia, mudar realmente as coisas, vamos precisar falar não só sobre masculinidade, mas muito sobre o machismo. Porque antes de qualquer outro ponto, ainda somos uma sociedade extremamente machista. E isso vai alimentando preconceitos que são enraizados na nossa cultura.

Lembro de inúmeras vezes quando pequeno, de ouvir de rapazes mais velhos, recriminações simplesmente por tratar bem alguma mulher. Seja levantando e dando lugar em um transporte, ou segurando uma porta. Ser gentil era ser “menininha”. Ser “viadinho”. Ser GAY!

E não acredito que meu comportamento foi influenciado pela minha sexualidade – que nessa época ainda nem existia. Gostava de brincar como qualquer outra criança e só pensava em desenhos. O que acontece é que desde pequeno fui educado para ter esse tipo de comportamento. E sempre que levanto de um lugar para uma pessoa de mais idade se sentar, torço para que alguém faça o mesmo pela minha mãe ou fizesse, na época, pela minha avó. Tratava e continuo tratando os outros como gostaria de ver os membros de minha família sendo tratados. Só que, infelizmente, atos simples de civilidade são compreendidos como uma conduta que vai contra o homem. Contra sua masculinidade. Contra sua sexualidade. É todo um pacote que ofende os culhões daqueles que já foram, de alguma maneira, modelo de homem. De macho alfa!

Também lembro de, algum tempo atrás, ver dois adolescentes com menos de dezoito anos, do sexo masculino, andando de mãos dados no shopping. Não preciso dizer que por onde eles passavam as pessoas olhavam incrédulas. Comentavam e faziam o que acho muito pior: Cochichavam. Mas, durante todo o trajeto dos dois meninos, senti orgulho e uma ponta de inveja pela coragem. Lembro de dizer que sentia que as coisas estavam mudando. Não que o mundo fosse abrir os braços e pedir desculpas pela forma com que os gays foram tratados até então. Mas nós estávamos mudando. Estávamos mais corajosos, estávamos e ainda estamos perdendo o medo.

Alguma vez, ao ser chamado de viado ou bicha, você já respondeu se afirmando? Algo como “Bicha não! Gay! Eu sou Gay e você?”. Antes que me chamem de louco, eu mesmo já respondi assim e o outro cara ficou tão sem reação que seguiu sua vida e eu segui a minha. Mas segui diferente. Segui me impondo.

É preciso acordar. Ainda não estamos no mundo de Alice (apesar de alguns a visitarem uma vez ao mês). Crimes contra gays são tratados como suicídio. Mesmo quando existem provas que apontam a impossibilidade de alguém conseguir se autoflagelar ao ponto de atravessar uma barra de ferro na própria perna.

E não para por aí. Famílias abandonam jovens, que ainda estão descobrindo quem são, no mundo, por puro preconceito. Preconceito de serem, eles, as vítimas desse pré-conceito continuado. De onde os vizinhos se tornam os donos da razão e viram os juízes de valores do prédio, da vila ou do bairro.

Resumindo: o inferno são os outros. 
Leandro Faria  
Silvestre Mendes, o nosso colunista de quinta-feira no Barba Feita, é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance.
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3 comentários:

Shirley disse...

percebo exatamente do que você fala aqui por perto mesmo: gente que enche a boca pra chamar de "bichinha", "viadinho" e coisas semelhantes qdo vê um cantor que pula muito quando canta, um rapazinho que fala com "exagerada" tranquilidade e, exatamente como vc bem ressaltou, um rapaz que ceda seu lugar ou que abra a porta do carro. eu vivo reclamando disso, mas o povo não entende o motivo da minha indignação: não é que seja ruim a pessoa ser gay, eu acho chato é falar como se ser gay fosse quase um crime, uma coisa ruim. vivo reclamando disso, já ganhei fama de chata... meu caro silvestre, de fato, o mundo tá mudando. só não sei ainda se é pra melhor. abraço e parabéns pelo EXCELENTE texto! :-)

Luciana disse...

Isso é bem complicado.. pra mim, particularmente, vai mt da criação.
Contrariando tudo e todos.. eu sou lésbica. Numa casa onde tenho familiares preconceituosos. Sendo machista, racista e homofóbico.
Quando questionado, fala: eu não tenho preconceito! Cada um faz o q quer da vida.
Mas sempre tecendo comentários depreciativos a vida toda.
Enfim.. eu como membro da classe, classifico todo mundo como viadinho, bichinha, sapatao, scannia.. pq eu posso.. haha
'Só viado e sapatao pode chamar viado e sapatao de viado e sapatao..'

Alexandre Melo disse...

Por mais que tenhamos avançado consideravelmente (em âmbito geral, veja bem) no tratamento da homossexualidade ainda vivemos numa sociedade onde o modelo vigente é o heterossexual.

Ainda vivemos com os mesmo estereótipos de nossos pais e avós talvez um pouco mais velados mas ainda tão presentes quanto antes.

Seu texto é excelente e toca exatamente na questão dos papéis que se espera que cumpramos na sociedade e como somos vítimas de preconceito quando não agimos como esperado mas, isso leva muito tempo para mudar, gerações e não creio que veremos uma mudança significativa em nosso tempo de vida ainda.

Mas, se há um preconceito mais nefasto que o externo, se podemos utilizar o termo, é o interno que usamos para com outros gays, é a afeminada, a travesti do grupo, a pão com ovo e por aí vai, nós mesmos reforçamos o comportamento de fora e usando o 'gueto' como desculpa para tanto.

Nossa cultura latina ainda é extremamente machista e nós gays emprestamos dela esses mesmos estereótipos confundindo gentileza, delicadeza e sentimentos expressos com fraqueza e feminilidade.