domingo, 14 de dezembro de 2014

Sonhos





Não sei do que são feitos os sonhos. 

Quisera, mas não sei. 



Talvez de um material coloidal o qual podemos modelar conforme nosso desejo e vontade ou até mesmo necessidade. Quiçá algo mais sólido, menos maleável requerendo para chegar ao formato do sonho que sonhamos, lapidação e dedicação que apenas os fortes e resilientes logram gerir e alcançar.



Não sei do que são feitos os sonhos.

 Sei que apenas sei sonhar e que na passagem do sonho à realidade (sonho sonhado é bom mas inútil se não transmutado em algo palpável, que se entrega e conclua, que mostre a que veio, o oposto é viver no onírico em eterno engano) se lhe posso moldar, o faço, se preciso cinzelar, não o hesito e se para praticar o sonho fosse preciso manipular a genética, o faria sem ao menos pestanejar pois é meu, não seu, nem dele, apenas meu e se eu não o posso por em realidade, ninguém mais o fará.



Não conheço de que são feitos, já disse. 

Mas conheço seus resultados, pois já pari diversos deles e sim, eles nascem, vivem e depois passam para outra essência; é normal às coisas que vivem um dia fenecer, eu vou, você vai e todo o resto também. Estaremos depois ali, naquele algum lugar que não é lugar algum mas é todo, em si, e seremos nós os sonhos e eles nós mesmos. Sei disso, não devo explicar como ou porque e, se você não crê, lhe dou esse direito, mas sinto que menos cores farão parte da sua vida e, por favor, não encare isso como uma saída fácil, mas como resultado simples da soma de tudo que somos e que não creio que simplesmente irá esvanecer no fino ar como algo rarefeito e sem sumo.



Os melhores sonhos são os que duram o tempo que devem durar; nem mais, nem menos, assim como nossas vidas tem seu prazo de validade. Quando eles chegam ao final, o melhor é deixar que exalem seu último suspiro com tranquilidade e dignidade, pouco uso vejo em mantê-los ligados a aparelhos que imitam a vida, adiando o inevitável de forma agoniante e pouco edificante.



Deixe-os ir, solte e deixe-os ir. Ficar preso a sonhos que já morreram é um ato desesperado e egoísta. Guarde o que lhe deixaram de bom e use como alicerce para o próximo sonho, pois esse que se foi não significou a finalização de sua capacidade de sonhar, mas que está na hora de sonhar outros, muito provavelmente maiores, melhores e ainda mais belos.



Então, gentil e delicadamente, ponha esse sonho cansado para dormir, lhe sirva um copo de leite quente com biscoitos, se frio ponha-lhe meias quentinhas, conte uma história de vocês e depois, deite ao seu lado, abrace-o carinhosamente e deixe que ele descanse suavemente.



No dia seguinte, se preciso, chore; é fácil e faz bem. Depois, imbuído daquela saudade recém-instalada, encha o peito de ar fresco e deixe o sonho novo entrar...
Leandro Faria  
Alexandre Melo, nosso colunista convidado de hoje, é da capital de São Paulo, amante do centro velho decadente e dos seus botecos. Leitor compulsivo,viciado nos clássicos dos anos dourados do cinema e música 'das boas'. Pensa que escrever é muitas vezes melhor que falar e adora mostrar velharia a quem não as conhece.
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Um comentário:

Serginho Tavares disse...

Dos sonhos também não sei do que são feitos, mas os seus textos são poesia pura

Obrigado por isto.