domingo, 28 de dezembro de 2014

Uma Dúvida Inconveniente





Aos trinta anos você deve ter uma família, ser casado, ter filhos, ter um apartamento, um bom carro, um emprego estável, estar com a vida feita, apenas esperando pela tão sonhada aposentadoria. Ou é isso que você é levado a acreditar desde criança. 

Quando pequeno, me perguntavam o que queria ser quando crescer. Quando adolescente, me perguntavam o que faria na faculdade. Aos 25 anos, um ex-namorado me fez acreditar que eu não era nada porque trabalhava por amor e não por dinheiro. “Um artista pobre e sem perspectiva de vida”, ele dizia. Aos 27 tive uma crise nervosa porque, mesmo com um bom emprego que me pagava muito bem, continuava não tendo nada. Não tinha um apartamento. Não tinha um namorado. Não tinha construído nada de relevante para a sociedade. “Mas como assim você não tem um carro? Você tá juntando dinheiro pra comprar um?” Eu não estava. Nunca gostei de dirigir. Não tinha o menor interesse em comprar um carro. Namorava com qualquer um que parecesse ser o cara ideal. Vai que dá certo. Mas nada parecia certo. Então o errado era eu? 

Aos 29 anos de idade, e 3 de terapia, percebi que não havia nada de errado comigo. Então larguei meu emprego de coordenador em uma empresa de tecnologia, larguei meu apartamento, larguei todos os pretendentes, larguei até minha extensa coleção de DVDs e Blu-Rays que tanto amava. Larguei a vida que conhecia e decidi recomeçar. Eu fiquei tão apavorado. Recomeçar aos trinta? Era um absurdo! Embora não me importe com o que os outros vão pensar, tinha um pedacinho de mim que dizia que era tarde demais para começar do zero. Que não tinha mais tempo para conseguir tudo o que queria mesmo não sabendo exatamente o que queria. 

Esse medo é paralisante. Já faz um ano que larguei tudo. Um ano vivendo essa busca pela felicidade livre de conceitos pré-estabelecidos. Um ano de incertezas. Um ano de diversão e solidão. Vi muitos lugares diferentes. Vivi muitas aventuras. Conheci muita gente interessante. Ainda assim, a solidão pesa. E a insegurança também. 

É difícil admitir, mas aquela voz continua me acompanhando. Você é velho. Você vai ficar sozinho. Ninguém te quer. Ninguém te deseja. Você não tem nada. Você não tem ninguém. E a cada novo dia, a cada nova experiência que me satisfaz, essa voz continua repetindo isso. Me fazendo duvidar das minhas escolhas, me fazendo duvidar das minhas certezas. 

Será que ter 30 anos é isso? É ter certeza de que aquela certeza que tínhamos aos vinte anos, de que teríamos uma família de comercial de margarina em um apartamento de cem metros quadrados com um carro do ano na garagem, é pura balela e que teremos as mesmas dúvidas que sempre tivemos? 30 anos são os 20 anos só que com mais cabelos brancos? Será que vou viver a vida toda com a certeza de que preciso querer algo mais para a minha vida ser completa? 

Desculpe se não ofereço nenhuma conclusão para meu texto. A verdade é que não tenho nenhuma conclusão para minha vida. 30 anos. Gay. Solteiro. Sem apartamento. Sem emprego estável. Sem carro. Sem certezas. 

Minto. Tenho uma certeza. Não faço parte da massa que precisa disso tudo para ser feliz. Sou feliz apesar de tudo. Continuo seguindo meu caminho. Continuo tomando minhas decisões e buscando pela felicidade plena, pelo amor verdadeiro, pela reta de chegada. Continuo tentando. 

Só espero que não esteja errado. Espero que não tenha nada de errado comigo.
Leandro Faria  
Michael Oliveira, santista caiçara que abandonou a praia para tentar a sorte no outro lado do Atlântico. Com a maturidade, descobriu que Steven Spielberg não é Deus e que a Cultura Pop vai muito além das terras do Tio Sam. Atualmente, perdido no Reino Unido, consome tudo o que pode e, tal qual Galactus, está sempre em busca de novos universos que possam saciar essa fome eterna.
FacebookTwitter


Um comentário:

Patricia Hirakawa disse...

Não há nada de errado com você, Mike, muita gente até tem "tudo", e ainda assim está longe de se sentir completa (até porque, essa definição é totalmente subjetiva). Nunca é tarde para recomeçar, e é incrível você se permitir ter essa oportunidade! Fique tranquilo, porque você ainda tem muitos anos pela frente para concluir este texto! Ótima reflexão, e como você se permite viver plenamente, tenho certeza que em breve você encontrará o seu caminho! Beijos!