segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

A Hipocrisia Nossa de Cada Dia






"A tua piscina tá cheia de ratos
Suas ideias não correspondem aos fatos
O tempo não para...
Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não para, não para não, não para..."
O Tempo Não Para (Cazuza)

  • Ele é pai de família, trabalhador exemplar, provedor eficiente, ostenta uma brilhante aliança de ouro na mão esquerda. Mas trai a mulher com pessoas diversas enquanto finge-se de bastião da moral e dos bons costumes para os membros da igreja e o resto da sociedade.
  • Ela é politizada, faz campanha no Facebook pelo fim da corrupção, sendo dona de discursos homéricos sobre a podridão do sistema e da humanidade. Mas baixa músicas e filmes em sites de download na internet, possui uma carteirinha de estudante falsa para pagar meia em shows e no cinema e, quando parada em uma blitz, ofereceu uma graninha para o policial, porque tinha bebido umas cervejas e não poderia ser multada.
  • Ele é gay, bem resolvido, vive um relacionamento estável com um companheiro há mais de cinco anos e diz ter encontrado o amor da sua vida. Acredita que, apesar de gay, passa longe da "promiscuidade" da maioria das relações, já que nem mesmo considera a hipótese de um dia viver um relacionamento aberto, "essa devassidão que toma conta dos pares gays de hoje em dia". Mas entra em salas de bate papo e frequenta saunas e ambientes afins buscando sexo sem compromisso, uma gozada pura e simples, antes de voltar para casa e para sua vidinha perfeita.

O que os três exemplos acima possuem em comum? O que vemos nesses casos que, desculpem-me a sinceridade, pode ter também muito de nós mesmos em suas linhas? A hipocrisia, caros amigos. A hipocrisia que, de tão entranhada em nós mesmos, já é considerada por muitos como traço da personalidade e comportamento padrão.

Não tenho nenhum medo de afirmar: tenho simplificado a minha vida e, entre as coisas que procuro evitar, a hipocrisia está no topo da lista. Sei que ninguém é perfeito (ainda bem!), mas o que me irrita é a hipocrisia. Os discursos que não combinam com as ações, as palavras vazias que não se sustentam quando avaliamos quem as profere com um pouco mais de proximidade.

E o conceito é tão simples. Querem ver só? Vou apelar para o dicionário, o nosso bom e velho amigo de sempre. Vamos destrinchar a hipocrisia, de acordo com o Priberam:

hi.po.cri.si.a
(grego hupokrisía, -as, desempenho de um papel)
1. fingimento de bondade de ideias ou de opiniões apreciáveis.
2. Devoção fingida.

Que atire a primeira pedra quem nunca foi hipócrita nessa vida. Mas atire e proteja a cabeça, porque certamente teremos um outro hipócrita atirando pedras em você. Afinal, é muito mais fácil fingir o que não é, do que assumir seus atos, ações e pensamentos. O que me pergunto é: por quê?

Fingir é desgastante. A hipocrisia suga as nossas energias, matando pouco a pouco aquilo que efetivamente somos. Algumas pessoas são tão hipócritas, que acreditam realmente ser o papel que vendem aos demais. Mergulharam de cabeça em um personagem, em discursos prontos e em comportamentos viciados, que é difícil separar o que é real do que é mentira da própria personalidade. Se perdem na hipocrisia e privam o mundo e a si mesmos da própria verdade.

Não acho, entretanto, que as pessoas devam sair pelo mundo dizendo verdades ou esfregando comportamentos na cara de tudo e todos. Mas realmente acredito que é possível nos despirmos da hipocrisia aos poucos, deixando de lado o discurso fake em prol do silêncio. Porque é feio falar e não agir de acordo. Ficar calado ao invés de concordar ou emitir opiniões absurdas apenas para ser aceito é de uma hipocrisia sem fim.

O mundo não é um lugar ideal, sabemos disso. Mas podemos simplificar a nossa vida e a daqueles à nossa volta, começando a mudança através de nós. É clichê, é bobo, mas é tão real. Uma frase de House, o personagem de Hugh Laurie na série de mesmo nome, é muito verdadeira: Everybody lies! Mas fazer isso para si mesmo é uma tremenda burrice.

Treine ser um pouco mais você mesmo. O verdadeiro você, não aquele construído para agradar o mundo, que espera de nós as convenções sociais e os discursos engajados/diplomáticos/pseudo-belos. O seu verdadeiro eu não é bonito, tem erros e falhas? Então trabalhe isso para que você seja uma pessoa melhor para si próprio, não para os outros. Fingir não vai mudar a realidade, no máximo, mascará-la com uma camada de hipocrisia. E é esse o ponto: deixe a hipocrisia de lado

Não é fácil, eu garanto. Mas é gratificante.
Leandro Faria  
Leandro Faria, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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