domingo, 11 de janeiro de 2015

Complicada e (Nada) Perfeitinha





"The outward manifestations of an inner combustion are never very directed." 
A Long Way Down (A Longa Queda), de Nick Hornby 


"Fernanda, eu estou tentando, mas você é uma pessoa muito difícil de amar."

Bem. Taí uma parada que eu não estava esperando ouvir. "Você tem um temperamento horrível", tudo bem. "Você age como uma criança de seis anos quando está com fome", talvez. "Você definitivamente transpira demais para uma garota", triste, porém verdade. Mas essa de difícil de amar foi novidade. Veio do meu então namorado, há alguns meses, após alguma das nossas habituais brigas titânicas por assuntos banais. Era meio cômico como duas pessoas normalmente tão racionais e equilibradas eram capazes de brigas tão imbecis. Mas lá estávamos nós, barraqueando madrugada adentro, e eu tendo que ouvir aquilo. A ideia inicial era rebater - afinal, posso ser várias coisas nessa vida, porém obrigada não é uma delas. Mas, numa virada inesperada de eventos, eu não tinha o que falar. Ele estava certo. A ficha caiu, caiu e desceu arrebentando tudo. Nosso namoro não acabou oficialmente ali, mas acho que nós dois entendemos que não tinha mais muito propósito. A bola de destruição Fernanda Prates havia acabado de demolir mais um prédio. E tinha gente dentro. 

Eu tentei racionalizar. Eu jurava que era a namorada perfeita. Como diabos eu poderia ser difícil de amar? Eu não sou ciumenta. Converso sobre basicamente todos os assuntos com certo entusiasmo - até mesmo hobbies alheios pelos quais nutro de pouco a nenhum interesse. Faço uma boa massagem no pé. OK, faço uma massagem no pé bem ruim, porém entusiasmada. Gosto de sexo, de ver filme de ação, de passar o dia na cama falando bobagem e de passar a noite bebendo cerveja em bar reprovado pela vigilância sanitária. Eu fiz a matemática na minha cabeça e era pra dar certo. Era pros caras gostarem de mim. Mas, de algum jeito, estar comigo sempre pareceu virar uma tarefa difícil. Mesmo para os mais apaixonados. Não era a primeira vez que eu fazia alguém se sentir assim. Mesmo fazendo de tudo para agradar, eu sempre dei um jeito de dificultar a vida das pessoas. Eu achava que isso ia mudar quando achasse alguém forte o suficiente, corajoso o suficiente. É assim que acontece em filme, né? A garota "difícil de lidar" acha um cara otário o suficiente pra ficar embaixo da janela dela com um rádio tocando Peter Gabriel - de preferência o John Cusack dos anos 80 - e fica tudo bem no final. O amor muda as pessoas. Se não mudou, é porque não é amor. Não é? 

Então... Não. Superado o choque de ouvir as chamadas "verdades" dessa vida, eu me toquei de uma triste realidade. Estão prontos para um clichê péssimo que vai fazer vocês quererem parar de ler o texto agora? OK. Aqui vai: ninguém nunca vai poder te amar enquanto você não se amar. É brega? É. Eu podia ter achado um jeito melhor de colocar isso? Talvez. Mas a essência é essa. Tenho a impressão de que todo mundo que já teve o desprazer de me amar - desculpa aí mãe, pai e espero que ao menos uma das minhas irmãs - já pensou em me falar isso pelo menos uma vez. Provavelmente durante algum dos insuportáveis períodos em que meu humor se torna negro como as asas da graúna, motivado por alguma crise interna que não tem nada a ver com mais ninguém. Ali, nos últimos suspiros do meu namoro, a cena se repetia: eu não estava bem comigo, logo eu não estava bem com o mundo, logo eu preferiria que todos - inclusive o meu então namorado - entrassem em combustão espontânea e me dessem um cantinho quente e silencioso pra morrer . Mais uma vez, a fábrica de DESGOSTO chamada Fernanda Prates soava os alarmes: mantenham a distância, pessoal. Vai explodir. E olha... Não foi bonito de ver. 

Meses se passaram e hoje eu olho pra situação de uma forma um pouco menos dura comigo mesma. As coisas não foram totalmente culpa minha. Meu ex é um cara muito bom, mas não era perfeito e cometeu os erros dele. Eu cometi diversos outros - inclusive os graves, que levaram ao nosso término. Erros que eu vejo agora como uma manifestação externa BEM MERDA do meu processo de combustão interna (se não entendeu volta lá pro começo porque eu citei isso antes de tudo pois sou culta). Erros pelos quais eu pedi desculpas pra ele e pra mim. E eu me perdoei. Eu realmente me esforcei pra ser uma boa namorada - e isso foi parte do problema. Eu aceitei coisas que iam contra a minha natureza em nome do troféu de namorada perfeita. Tentei sufocar muito de mim pra me acomodar tudo dele. Enfim, fui basicamente a mocinha de Gone Girl, só que talvez um pouco menos demente e definitivamente preguiçosa demais pra armar essas coisas de plano de vingança - exausta só de pensar. Eu nunca tinha entendido muito bem o porquê de sempre estar em conflito com as pessoas quando eu estava fazendo de tudo pra agradá-las. Agora vejo que, nessa de ficar tentando ser perfeita e ser tudo pra todo mundo e pra mim mesma, eu me tornei frustrada, amarga e terrivelmente infeliz. E infelicidade é uma parada tóxica. E contagiosa. Ser uma boa pessoa envolve uma dose de egoísmo. O egoísmo de se aceitar e de saber ligar o foda-se pras expectativas dos outros quando elas não batem com as suas. Só a sua melhor você pode ser a melhor qualquer coisa pra alguém. 

Percebi que, mesmo que quem me ame mesmo não vá parar de me amar se eu estiver deprimida e amarga, certamente vai ser um processo bem mais difícil. E que eu posso ter todas as minhas falhas (incluindo, mas não limitado a: insegura, teimosa, preguiçosa, bagunceira, estabanada, esquecida, barulhenta e dona de uma produção impressionante de baba noturna), mas que elas são bobagens para os outros, desde que eu as aceite como bobagens pra mim. Comecei a perceber que meu grande problema nunca foi ter falhas, mas sim me recusar a aceitá-las como parte de um conjunto que, bem ou mal, forma essa bagunça que vos fala. Por 25 anos eu me torturei por não caber num molde restritivo e doloroso que eu mesma criei pra mim mesma. Briguei pra caber, pra servir, pra corresponder a ideais que eu tirei sabe-se lá de onde e vinham sabe-se lá de quem. Minhas ambições e visões do que uma pessoa deveria ser fizeram de mim justamente o que eu menos queria ser: uma bosta de pessoa. Uma pessoa que, apesar de fazer tudo pra ser amada, se tornou difícil de amar. 

O término (sim, ainda falamos dele) foi bem menos doloroso do que eu esperava, com um feeling de "coisa certa a se fazer". Ele está melhor agora e eu também. Mas a parada toda me despertou assim, uma avalanche de epifanias. Mesmo com todas as minhas realizações feministas e descobertas, demorou para eu entender que, às vezes, simplesmente fazer as coisas que eu quero fazer não é egoísta; é necessário. Que assumir a minha verdadeira personalidade, por mais tosca que ela possa ser, é o mínimo que eu posso fazer, por mim e pelos outros. Viver negando suas próprias vontades é como ficar numa dieta restritiva por muito tempo: uma hora você tá comendo só aipo e tomando suco verde, até que você surta e se vê sentada no chão do banheiro comendo um bolo de chocolate inteiro (qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência). O furacão passou, o ano terminou, mas as explosões vulcânicas continuaram aqui dentro. Então eu respirei fundo. Pensei. E tomei algumas decisões meio suicidas pra minha vida. Esperava que as pessoas as recebessem com aquela cara meio tensa de quem vê o novo corte de cabelo da amiga e se pergunta silenciosamente se ela se entregou ao crack. Mas acabou que fui surpreendida com muito apoio, amor, açúcar, tempero e tudo que há de bom. E, caso alguém esteja na dúvida: não, não me entreguei ao crack. 

Acontece que, vejam vocês que interessante, ninguém nunca esperou riqueza, magreza, sucesso e fabulosidade de mim. E eu sinceramente não sei porque achei isso por tanto tempo. Quem me importa sempre quis uma coisa: uma Fernanda de boa. Sempre tive pânico daquela frase "a felicidade é uma escolha". Ela é ingênua e míope, aliena uma série de fatores, sejam eles químicos ou sociais, que afetam o bem-estar de um indivíduo. Ninguém deveria ser obrigado a porra nenhuma nessa vida, nem a ser feliz. Mas acredito que a escolha, neste caso, está na tentativa. E o que eu decidi, entre términos, crises e esses pequenos cataclismas emocionais, é que eu quero de verdade verdadeira ser uma boa filha, uma boa amiga, uma boa pessoa. Uma boa Fernanda, pra mim e para quem eu quero por perto. Eu quero ser fácil de amar. Se eu vou conseguir, outros 500. Mas o mínimo que eu posso fazer é tentar, né não?
Leandro Faria  
Fernanda Prates tem 25 anos, mora no Rio há 21 e consome glúten regularmente. Ama lutas, filmes de ação dos anos 80, pasta de amendoim e palavras. Seus hobbies incluem: deixar de sair para ver TV, entrar em pânico por coisas pequenas e comprar roupas online. Segue em busca da felicidade, mas se contenta com cerveja enquanto isso.
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4 comentários:

Silvestre Mendes disse...

Sei que pode não contar muito, mas te amo pra caralho! Sempre achei genial a maneira com que você consegue colocar tudo no texto. Tem a clareza do que você quer passar, umas piadinhas que deixam a leitura leve e a ironia, que faz com que preste uma redobrada atenção para não perder a "Nova piada" ou a graça do todo. Não é fácil ler Nanda Prates, seja da maneira que for. Não é fácil ler os outros, quando temos questionamentos e quando gostamos. Os defeitos do outro sempre da pra "superar", mas depois de um bom tempo junto, não, não da pra superar.

Uma amiga disse algo que concordo plenamente. No início da conquista, passamos a nossa imagem ideal. Aquilo que queremos que o outro idealize que nós somos... Mas não somos. Não somos perfeitos e nem sempre nossos gostos serão os mesmos. Afinal, precisamos evoluir em algum momento. Não da pra ficar vendo sessão da Tarde e Chiquititas. Primeiro que os filmes bons (da minha época) não passam mais e segundo que chiquititas que valiam a pena tinha Flávia Monteiro e a Mili era a Fernanda Souza. Ou seja, já foi. Acabou e isso não volta mais...

Bem, focando no que vim dizer. Acho que ficar junto da trabalho pra caramba e uma pessoa só não consegue manter uma relação. Gostar é uma roleta russa, uma hora a bala explode na sua cabeça e você percebe na enrascada que se enfiou e agradece, de certo modo, por ficar mais resistente para a próxima... Porque sempre tem uma próxima e uma outra e assim vai...

Esdras disse...

Reitero tudo que disse o Sil, que é seu amigo pessoal e pode até ser suspeito. Como não sou suspeito digo, são textos como o seu que me enchem de entusiasmo. Orgulhoso de ter você aqui no nosso cantinho!

Patricia Hirakawa disse...

Texto muito verdadeiro, adorei! Você vai conseguir, flor, você está no caminho certo! =D

Vanessa Reis disse...

Fernanda, sei que a caixinha de comentários não é um buraco negro da autoajuda nem um baú de relatos pessoais, mas não posso reler teu texto sem te dizer algumas coisas. Ontem eu ouvi uma frase semelhante a esta tua. (e, como uma conspiração internacional, uma amiga havia marcado meu nome para que eu lesse exatamente esta postagem sem fazer ideia do que tinha me acontecido. RÁ!) Também sou uma pessoa difícil de gostar (amar não foi o caso, uma vez que não completou sequer um mês de convivência com o remetente da frase em questão). Sim, é cômico. Eu achava que estava no caminho coerente de pessoas gostáveis mas descobri que sou egoísta, melodramática, irônica e mimada. Mentira, não descobri, eu sempre soube... mas foi engraçado receber a lista de itens não requisitados num momento completamente inesperado. Foco, Vanessa, você está falando com a Fernanda sobre o texto dela. Morri de rir quando Amazing Amy foi citada, gargalhei no parágrafo seguinte e ia assentindo a cada linha percorrida. Parece bobo, mas eu sempre fiquei assustada quando as pessoas me apontavam dedos e repetiam, insistentemente, que eu era 'um exemplo, um modelo' e eu cai nesse fosso de pensar diariamente o que as pessoas estariam pensando sobre mim... obrigada por surgir tal qual Mestre dos Magos com um relato de si que, pra mim, tornou-se 'minuto de sabedoria' com direito a impressão do último parágrafo, por exemplo. Obrigada, por fim, por me lembrar que a glória consiste em tentar (sempre e a cada vez).


PS.: parabéns por não ter se entregado ao crack.
Ps.: é realmente sensacional a maneira da tua escrita, tens uma leitora nova!