quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Contra o Carioca Tipo Exportação





Diz o dicionário que carioca é “pessoa natural ou habitante da cidade do Rio de Janeiro”. Não nasci no Rio; sou de Niterói e me mudei para a capital somente aos 25 anos. Mas diariamente já vinha para a cidade desde os 21 anos por conta do trabalho. Mesmo assim, segundo o dicionário, posso me considerar um carioca, já que aqui escolhi para morar. Até exerço minha cidadania como eleitor por essas bandas. 

Mas, se tem uma coisa na qual eu não me enquadro é no carioca clássico, aquele tipo exportação. Esse ser mitológico que tem que mostrar a sua malemolência, sua ixperteza e seu amor escancarado pelo Rio – mas o Rio da Zona Sul apenas (talvez uma ou outra quadra de escola de samba na Zona Norte ou Subúrbio, mas de preferência uma que tenha ar condicionado...). 

Como bom niteroiense, cresci vendo a paisagem do Rio, num “perto meio longe”. Num só quadro era possível ver o Pão de Açúcar, o Cristo Redentor e a Pedra da Gávea. Mas fui conhecê-los bem de pertinho somente na minha adolescência, após meus 14, 15 anos. Lembro até hoje de olhar, deslumbrado e talvez até um pouco assombrado, para o Pão de Açúcar iluminado numa noite no Aterro do Flamengo a caminho do extinto Canecão, para um show do Paralamas do Sucesso. Parecia um autêntico roceiro boquiaberto com a paisagem que estava tão acostumado a ver, mas apenas do outro lado da baía, num frame que parecia de cartão postal. 

Meu Rio de Janeiro sempre foi o do Subúrbio. Durante toda a minha infância e parte da adolescência, vir ao Rio significava passar pela Leopoldina, pegar a Radial Oeste e descer a 24 de Maio rumo ao Méier, Engenho de Dentro e redondezas. O Rio que beira a linha férrea e que já conhece a sensação térmica de 50 graus há tempos. Era lá que meus parentes egressos da Paraíba moravam. Foi por lá que meu pai viveu quando chegou aos 14 anos do Nordeste, chegando a passar por favelas antes de vir morar em Niterói para casar-se com minha mãe, autêntica papa-goiaba (se você não conhece esse termo, um dia eu explico; mas basicamente serve pra quem nasceu em Niterói e adjacências). Ironia ou não, foi por lá que vivi o meu primeiro namoro, com meus 17 anos. E até hoje, por esses caminhos que o destino nos leva, é para lá que eu vou, mais de uma vez na semana – não somente pela família. 

Talvez por esse motivo, eu ainda estranhe tanto as práticas do carioca tipo exportação, mesmo trabalhando há dez anos na Zona Sul do Rio, dos quais sete ininterruptos na vitrine epicentral dessa criatura que chia ao falar o S: Ipanema. E quero fazer aqui um aparte que em absolutamente NADA isso quer dizer que não tenho amigos com esse perfil; tenho alguns e não tenho problemas com isso. Provavelmente só não compactuaremos em nossas agendas sociais com frequência. 

Não vou aqui bancar o neo-tijucano revoltado e dizer que não gosto de carioquices da Zona Sul por puro recalque. De verdade, um pôr-do-sol na Praia de Ipanema merece ser aplaudido (mesmo que eu não o faça); acredito que não existe mau-humor que resista a um Corcovado ou a uma Lagoa Rodrigo de Freitas num dia de céu azul; acho que um passeio pelo Jardim Botânico ou Parque Lage são belos programas pra um domingo ou feriado. Mas não consigo me identificar por completo com aqueles que ostentam o seu passaporte carioca baseado naquilo que fazem socialmente do lado mais nobre do túnel Rebouças. Nada contra quem o faz, mas não é minha praia. Falo isso porque não acredito ou compactuo que para ser carioca TENHA QUE tomar um drinque no Astor para ver o sol se pôr; nem que TENHA QUE pagar uma fortuna para ir ao Bailinho dar pinta; ou que TENHA QUE ir ao Palaphyta para um pré-night à beira da Lagoa; ou que TENHA QUE circular pelo Leblon e tomar um chope no Jobi; ou mesmo que TENHA QUE usar quase que exclusivamente roupas da Osklen ou da Reserva; muito menos que TENHA QUE ir a praia apenas de sunga, mesmo descalço, para comprovar que é morador da vizinhança (e você, forasteiro que pega um ônibus de três dígitos que começa com 4 e chega cheio de sacolas, isopores e cadeiras de praia, não). 

Se você pratica algum dos esportes acima, por favor, não se ofenda. De verdade, não tenho nada contra você. Mas o convido a um dia atravessar o túnel e ir para além do Buraco do Padre (se você pensou que Buraco do Padre é algo depravado, definitivamente está na hora de conhecê-lo). Que tal conhecer tipos como Dona Evinha, antiga Evinha Furacão, ex-Chacrete que hoje é dona de uma pensão informal em Piedade e vive longe de sua vaidade de outrora? Que tal ir até a Codorna do Feio, no Engenho de Dentro, ou ao Cachambeer, no Cachambi (no subúrbio há vários trocadilhos simpáticos como esse) comer uma especialidade meio gordurosa, nem que seja uma vez na vida? Ou ao Cadeg comprar flores, frutas ou conservas a preços longe do tão falado $urReal? 

Que lhe parece pegar um trem na Central do Brasil e ver que se vende de tudo nas suas composições (muitas delas refrigeradas), inclusive escova de dente e desentupidor de fogão? Ou ir ao Centro de Tradições Nordestinas (vulgo Feira dos Paraíbas) comer um baião de dois na Barraca da Chiquita (que também é refrigerada, acredite)? Ou experimentar um dia de pechinchas no Mercadão de Madureira ou na Praça Dois, em Cordovil? 

Amo o Rio e não me vejo morando longe daqui, mesmo com a violência nossa de cada dia, com os preços exorbitantes e com o calor de 50 graus. Podem me convidar para uma bela roda de samba com feijoada que, mesmo com essa cara branca e apenas sabendo sambar com os dedinhos, estarei lá se minha agenda permitir; mas não me convidem para um ensaio da Grande Rio no Monte Líbano... 

Podem me chamar para assistir a um ensaio técnico na Sapucaí ou pra assistir ao desfile da Série A (cheguei a ir ao desfile gratuito do antigo Grupo B e já vi o Grupo D na Avenida Intendente Magalhães, em Campinho), mas não acho graça nos Camarotes o Grupo Especial, onde há muito mais os que se preocupam em dar pinta do que em ver a apoteose de um trabalho de meses de toda uma comunidade passar na avenida. E sou muito mais um Manuel e Joaquim do que um Alessandro e Frederico.

É verdade, não é preciso conhecer todo o país ou se identificar com a cultura espalhada Brasil afora para ter passaporte brasileiro. Mas em matéria de passaporte carioca, sinto que é preciso garantir os seus carimbos para além da nossa mitologia. É nas entranhas, e não na vitrine, que o Rio reside de verdade.

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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