terça-feira, 20 de janeiro de 2015

E Se?




Foi horrível. Eu não devia ter ido, algo dentro de mim dizia para que eu não fosse. Mas eu fui. Manipulei a informação, disse pro responsável da organização religiosa que ia visitar uma garota, ou como eles dizem lá, "A minha bênção.". E lá fui eu. 

Seis horas de viagem, duas daqui pro Rio e quatro do Rio pra lá. Quando paramos no meio do caminho pra lanchar, eu sentei no meio fio e olhei pra trás. Não tinha mais volta, por mais arrependido que eu estivesse, não tinha mais volta. 

Quando eu cheguei na rodoviária, era noite e havia poucas pessoas ali. Eu devia ter confiado nos meus instintos, mas eu não acreditava neles naquela época. Quando eu vi uma mulher pegando um pacotinho de pipoca no chão pra comer, eu sabia que eu não devia ter ido. Mas eu tinha um objetivo, e não era conhecer aquela garota, que estava longe de ser uma bênção. O objetivo daquela viagem era conhecer o primo dela. Ela foi apenas um álibi... Eu precisava dela pra encobrir o fato de que eu era gay e fazia parte daquela organização. Cruel da minha parte, eu sei, mas o que eu poderia fazer? Então eu fui, manipulei tudo e todos, e apenas meu melhor amigo sabia o que eu realmente tinha ido fazer naquela cidade.

Ele chegou. Eu estava radiante. Ele estava lindo, como sempre. Me buscou na rodoviária, saímos com os amigos dele pra comer alguma coisa e depois eu fui pra casa do amigo, onde ia me hospedar. Foi horrível. 

Eu tinha ido para o aniversário da prima dele, que jurava que eu estava gostando dela, quando eu nunca tinha dado sinal algum. Ninguém entendeu porque eu estava tão elétrico, porque eu era tão elétrico e falante, e falava tudo desconexamente, ou porque eu ria tanto. Ninguém imaginava o motivo de eu não sair de perto dele, ao invés de ficar perto dela. Eu era muito novo, não era tão bom em mascarar os meus sentimentos como hoje, então eu acabei me expondo ao ridículo, tentando ser legal, engraçado, interessante e, principalmente, tentando salvar aquele relacionamento. Tudo ao mesmo tempo. Tudo deu errado. 

A cidade estava vazia, quando deveria estar cheia, pois aos domingos ela sempre estava cheia. A luz na casa dela acabou, o que nunca acontecia. Algo dentro de mim, quando eu estava na rodoviária do Rio, gritava, esmurrava a minha cabeça por dentro, implorando pra eu não ir, porque algo ia dar muito errado. Como eu disse, não acreditava tanto nos meus instintos como hoje pois, se eu confiasse, não teria ido naquele final de semana que, infelizmente, era o único que me daria a chance de ficar quatro dias lá, e que tinha o aniversário dela no meio. O que eu podia fazer? Eu fui, ué. Depois de dois anos de espera, aquela era a chance de nos vermos, de nos conhecermos pessoalmente. E foi assim que tudo que poderia dar muito errado aconteceu.

A garota, a louca, vendeu tão bem a história de que eu estava interessado nela, que todos acreditaram. Inclusive ele, o que me faz pensar duas vezes antes de ser legal e simpático com alguém nos dias de hoje. E como eu ia explicar pra ele que tudo isso não passava de coisa da cabeça dela? Com tanta gente por perto, não tinha como. Não teve como. No último dia, eu peguei um táxi e fui pra rodoviária. Era cedo, meu ônibus ia sair meia-noite, então eu sentei no chão e comecei a ler. Quem disse que eu conseguia me concentrar? Eu só pensava nele, no que eu não consegui dizer pra ele, no que eu precisava dizer. Eu ainda estava lá, era louco o suficiente pra pegar um táxi e ir até ele, se precisasse. Mas não foi preciso. Preferi ligar, era mais seguro, não dava pra me comprometer assim. E acabou. Ele tinha comprado a história dela e, como eu não neguei, ficou parecendo que eu concordava com tudo aquilo, que eu tinha ido lá para vê-la.

Ali, no chão morno daquela rodoviária, eu chorei amarga e silenciosamente, contendo ao máximo o ódio que eu sentia por ela. Não houve conversa. Não houve outra chance. Nunca mais o vi, ou falei com ele. Desde então eu carrego essa culpa. "E se eu tivesse jogado de outra forma?", "E se eu tivesse aberto o jogo na hora e dito que eu estava lá apenas pra comemorar o aniversário dela?", "E se eu tivesse pego um táxi e ido até ele?". E se? 

Todas as minhas jogadas eram arriscadas na época, então eu escolhi a que preservava nós dois, a nossa identidade dentro da organização. Eu precisava proteger a minha reputação e a daquele violinista tão talentoso. Mas, por não ouvir os meus instintos, tudo deu muito, muito errado. Ele me odeia, eu tenho certeza disso. Eu me odiaria, afinal, me deixei ficar de pés e mãos atadas ali.

Deu errado? Sim, muito, muito errado, como eu já disse. Mas eu fui. Eu tentei. Me ferrei todo, mas eu tentei. Foi melhor, digamos assim, saber o que aconteceu, do que passar anos e anos pensando no que poderia ter acontecido. Não dá pra saber o que pode ou não acontecer o tempo todo. É irritante demais, eu sei, mas é parte da vida. Faz parte desse grande jogo da vida, comemorar uma vitória, ou lamentar algumas das escolhas feitas. Eu sei que, depois desse episódio fatídico, eu fiquei mais esperto.

Foi ruim? Foi horrível, mas acho que seria pior ficar pensando: "E se?".
Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, é o colunista oficial das terças no Barba Feita. Tem aproveitado a fase de solteiro para viver tórridos casos de amor. Com os personagens dos livros que lê e das séries que assiste, porque lidar com o sofrimento do término com personagens é bem mais fácil do que com pessoas reais.
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2 comentários:

Leandro Faria disse...

Eu bem mandaria o link desse post para ele. E se ele curtir?

Glauco Damasceno disse...

Tive a mesma ideia, mas não sei...