quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

O ‘Pra Sempre’ Sempre Acaba?





Aniversário de uma de suas melhores amigas num restaurante, daqueles de salões imensos, cheios de mesas. Rodízio de pizza, gente conversando por todo lado, causando um zum-zum-zum digno de uma colmeia. Você retorna ao seu assento após pegar a sua comida. Senta, pede a sua bebida e vê a aniversariante se aproximando para dar atenção (afinal, você foi o último a chegar à comemoração). E quando você dá uma garfada, é surpreendido com a novidade: 
- Eu queria que vocês soubessem que eu vou me divorciar. Mas é consensual e nós estamos tranquilos. 
Depois de quase engasgar com a informação, admito que ainda não a digeri. Preservarei nomes, pois é algo muito pessoal, mas preciso dizer que fui padrinho de casamento dos dois. E ambos são queridíssimos. São pessoas do bem, felizes, ótimas companhias. Daquelas que você se orgulha de ter no seu círculo de amizades. Eles inclusive identificam isso um no outro, mesmo com a decisão de se divorciarem – um ama o outro e não quer que o outro saia da sua vida. E você acreditava, sim, que aquele casamento seria mais longevo que os três anos recém-completados. 

Você viu aquele relacionamento começar. Você torceu pelos dois. Você foi testemunha no altar daquela união – logo uma semana após a sua própria festa de casamento, o que a torna tão similar à sua. Você ouve todos os argumentos. Concorda. Mas não se convence. Pensa nisso o tempo todo no caminho. Vai pra casa. Dorme. E acorda pensando no assunto. Não, não a digeri ainda. Tudo bem que o crepe que eu comi também foi bastante indigesto, mas não tanto quanto a novidade. 

De imediato, tomei uma decisão: não serei mais padrinho de casamentos. Fui de três e dois já se desfizeram. Esse com três anos. E o primeiro com menos de dois MESES (mas esse foi um ponto completamente fora da curva). O terceiro acabou de completar um ano já e se a maldição realmente estiver comigo, torço para que a proporção seja geométrica e dure ao menos uma década. 

Porém, o fato é: nós nunca estamos preparados para enfrentar o fim. Esteja ele em nossas mãos ou não. Não custa lembrar aquela máxima de que o ser humano é a única espécie que tem consciência de que sua vida terá um fim. É isso que pauta toda uma existência: sabemos que a cada dia chegamos mais perto do final, mesmo que ainda estejamos longe. Pode-se parafrasear Toquinho e pensar que a gente não nasce, começa a morrer. Por isso, em geral, nos cobramos tanto em sermos felizes e realizarmos as coisas o mais rápido possível: o fim vai chegar. Embora na maioria das vezes não saibamos quando. 

Todo mundo um dia já, ao menos, sentiu aquela pontadinha de tristeza – quando não se debulhou em lágrimas – ao pensar ouvir Por Enquanto na voz de Cássia Eller, refletindo sobre algo que acabou (um relacionamento, em 98% dos casos). Não existe frase mais emblemática que “se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar que tudo era pra sempre sem saber que o ‘pra sempre’ sempre acaba”. Bela e triste. Tanto quanto a história que hoje vim contar. 



Mas o que determina o fim? No caso da vida, é a morte. No caso da fome, é a comida. No caso da azia, sal-de-fruta. Mas e o relacionamento? Quando existe ainda amor, companheirismo, carinho e admiração, é o quê? Pura atração física? Tesão? 

Sempre costumo falar que não estou casado pelo passado, mas sim pelo futuro. Não é o que já conquistamos, que tem o seu lugar na História, que vai segurar o relacionamento. Mas sim por tudo que ainda podemos construir juntos. E, sinceramente, isso independe do físico. É algo que transcende. São os valores que fazem dele uma pessoa incrível e única, sem o qual não vejo minha vida sem. 

Não estou aqui sendo hipócrita de dizer que a atração não seja ponto-chave para mirar a um futuro tranquilo. Contudo, tesão é um valor individual e intransferível – cada um deveria trabalhar o seu da sua forma, com respeito e cumplicidade com quem se ama. Relação é construção a dois e requer muitos outros valores. Já passamos da era em que para se ser pai da ninhada. a fêmea tinha que buscar o espécime mais forte e com maior tacape pra afugentar os outros machos com porradas e grunhidos. 

Sinto que quem inventou essa questão de que para se estar casado, construir uma família, dividir uma vida, pensar em filhos é preciso ter tesão não deve ter ido pro Céu quando bateu as botas. Certamente, por conta dele muitas histórias lindas se encerraram prematuramente. Aos corações que junto sofrem, nos restam o aperto. E uma torcida quase adolescente de que o ‘pra sempre’ possa ser pra sempre.

Leia Também:
Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
FacebookTwitter


Um comentário:

Shumy disse...

Sempre esperamos que o fim aconteça quando pessoas brigam, não conseguem viver no mesmo cômodo que a outra, mais quando termina tudo bem, parece inadmissível como se estivesse faltando algo mais a ser feito.