sábado, 31 de janeiro de 2015

O Que Você Quer Ser Quando Crescer?




Quando se é criança, uma das perguntas que mais ouvimos é: O que você quer ser quando crescer?

Aí a gente responde as mais variadas profissões, que fazem nossos interlocutores acharem a maior graça. De astronauta a bombeiro, de caixa de supermercado a professor, dificilmente ouvimos uma criança dizer que quer ser advogada, administradora de empresas, jornalista, contadora (só se for de histórias), publicitária, engenheira, arquiteta ou qualquer outra profissão dita glamourosa e/ou rentável. 

Dia desses na rua, dois meninos passaram por mim, deviam ter entre 8 e 10 anos, eram asiáticos e um dizia pro outro: "Eu quero ser entregador de pizzas". Não sei qual era o contexto da conversa, nem se falavam das profissões que queriam seguir quando crescessem, porém é sabido, ao menos pelos que tem um mínimo de instrução, que a educação asiática está entre as melhores do mundo. Japoneses, tailandeses, coreanos e chineses são preparados desde muito cedo para terem muito dinheiro, sendo homens de negócios e profissionais altamente bem sucedidos. Portanto, se aquele japonesinho não estava falando em ser entregador de pizzas na pizzaria que terá quando crescer ou da que seus pais já tem, realmente é encantador e comovente a inocência das crianças quando se trata de escolher uma profissão. 

Meninas brincam de ser professoras, profissão de conhecimento público e notório, linda e nobre, mas absolutamente desvalorizada, tanto pelo governo quanto por alunos. Então, os pais deixam claro que seria um orgulho ter um mestre na família, mas não incentivam a menina, muito menos o menino. Numa repetição do que veem em seu dia-a-dia, elas também se realizam brincando de donas-de-casa, mas se crescerem e desejarem realmente serem apenas isso, serão mentalmente e verbalmente linchadas por inúmeras mulheres e alguns homens também. Caixa de supermercado, atendente de loja, manicure, faxineira é o que desejam ser nove entre dez meninas de 5 à 10 anos de idade. 

Meninos sonham em ser super-heróis. Profissões que se aproximam disso são astronauta e bombeiro. A primeira é tão surreal, que é fácil entender porque para 99% deles, fica apenas no campo dos sonhos. Já o bombeiro é uma profissão nobilíssima, mas nada glamourizada. Salvar pessoas arriscando a própria vida torna-se uma utopia infantil, tão logo descobre-se a medicina. Outras profissões que ficam pra trás com o amadurecimento são a de servente de obra, coletor de lixo, motorista de caminhão, de ônibus, de táxi, carteiro. Todas profissões que tornam prática e facilitam a vida do cidadão. Profissões que suscitam o bem ao próximo, de utilidade pública, sem a necessidade de estar escondido atrás de ternos, jalecos e poses. Profissões simples e honestas como a imaginação de uma criança. 

É uma pena que perdemos essa pureza, a simplicidade e o lúdico com que levamos nossa vida quando infantes, com o passar dos anos. Mais triste e cruel ainda é quando não conseguimos nos realizar profissionalmente quando adultos. Quando trabalhamos apenas para sobreviver. Quando o prazer inexiste ao batermos o ponto e desperdiçarmos oito horas de nossas vidas porque precisamos comer, pagar o aluguel, a água, a luz. Quando a satisfação de fazer o que se ama existe apenas em livros, filmes e novelas. 

Você pode ser qualquer coisa, lixeiro ou Presidente da República, se for o que te faz bem, o que te realiza como ser-humano e te torna pleno. Do contrário, não importa status, nível social ou de instrução, sempre nos sentiremos indignos se não fizermos aquilo para o que nascemos. Porque sim, acredito que todos nascemos com um dom, que é ou não desenvolvido ao longo de nossa existência. 

E a resposta certa à pergunta o que você quer ser quando crescer? é: Feliz. Porque já somos felizes quando crianças, exatamente porque somos o que quisermos. E essa felicidade está intrinsecamente ligada à profissão com a qual nos identificamos, que é nossa missão, praticamente uma impressão digital que não pode ser arrancada de nós, ainda que não vivamos dela. E não vivermos dela é uma morte em vida. Assim, o gerente do McDonald's é um advogado, a caixa de supermercado é uma psicóloga, a babá é uma correspondente internacional, o lixeiro é um cientista da computação, o operador de telemarketing é um ator, e assim por diante. 

Eu ainda quero ser feliz, e luto ferozmente com as armas que tenho pra isso. E você? O que você quer ser quando crescer?

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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Um comentário:

Shumy disse...

Lembro de um dia na casa da minha avó, todos netos reunidos e surgiu esse assunto...mais de 25 anos depois e ninguém seguiu a tal profissão de criança....e realmente tentamos ser felizes na que temos hoje.