sábado, 24 de janeiro de 2015

Olho Por Olho e Dente Por Dente?




O assunto é polêmico e, como tal, divide opiniões, e se não fosse uma rápida discussão entre amigos no último final de semana, não seria o tema de hoje desta coluna. Relutei em escrever sobre, pois pena de morte é um assunto delicado, mas a execução do traficante brasileiro Marco Archer na Indonésia, na madrugada do último domingo (18), mexeu muito comigo.

Sempre tive convicções muito rígidas à respeito de certo e errado/bem e mal. Meus posicionamentos sempre foram radicais, sem muitas chances de maleabilidade. Nunca tive dúvidas de que os ensinamentos que me foram incrustados na mente desde a mais tenra idade, eram verdades absolutas. Não existiam questionamentos acerca dessas verdades, que em sua grande maioria eram frutos de uma educação baseada, quase que totalmente, em ensinos religiosos e interpretações aleatórias de trechos bíblicos como esse: "E teu olho não deve ter dó: será alma por alma, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé."

Trechos da Bíblia, como o citado acima, me fizeram crer que a pena de morte fosse uma prática não condenável por Deus pois, segundo minha interpretação religiosa, aquele que mata merece morrer, sem dó nem piedade, o famoso olho por olho. E, embora minha interpretação deste texto e de mais uma porção deles tenha mudado bastante desde que decidi me afastar da religião, e eu busque sempre uma maior clareza de ideias, ser mais flexível em meus pensamentos e ter uma tolerância bem elástica, certas convicções permanecem, pois deixam de ser apenas um arremedo da religiosidade aprendida e lapidada com observações, debates sadios e bagagem cultural, tornam-se uma ideologia.

Diante deste quadro, isento de tendenciosidades, continuo sendo a favor da pena de morte, mas com ressalvas e não no caso de Marco Archer. Ainda que ele seja um criminoso e não um herói, como bem disse a ex-Ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, e que tenha pagado o alto preço por sua ousadia burra e cretina, pois ele sabia que por aquelas bandas tráfico de drogas é punido com pena de morte, meu íntimo não aceita esse tipo de punição ao traficante brasileiro. Mesmo que indiretamente ele seja responsável por muitas mortes, uma punição como essa, fora de sua pátria-mãe, longe de seus familiares, me parece infinitamente cruel. Talvez, pessoas que perderam entes queridos para as drogas discordem ferozmente de mim, mas devo admitir que minha tolerância com este tipo de crime é mais elástica. Ninguém arrancou o viciado em drogas de sua casa, amarrando-o e obrigando-o a fumar, cheirar, injetar ou seja lá que diabo for.

Penso na pena de morte como uma punição exemplar reservada à crimes hediondos, como assassinatos com requintes de crueldade. Temos casos famosos no Brasil, que me fazem lamentar profundamente não termos esta lei em nosso País. Aí vão alguns: Guilherme de Pádua e Paula Thomáz; Maníaco do Parque; Suzane von Richthofen e os irmãos Cravinhos; casal Nardoni; goleiro Bruno. Alguém discorda que esses aí mereciam que fosse aplicada a eles a máxima do "olho por olho e dente por dente"? Claro que sim, pois os "pacificadores" de plantão, esses seres de luz, evoluídos e cheios de compaixão, sempre defenderão o direito à vida, de assassinos que tiraram de seres inocentes esse mesmo direito. Desculpa, mas pra mim não dá, talvez ainda precise de muito pra evoluir a esse ponto, pois sinto sede do sangue de todas as pessoas envolvidas nos crimes que citei neste parágrafo.

Defensores defenderão a ideia de que a pena de morte no Brasil não funcionaria, pois o sistema penitenciário brasileiro é falho, a justiça é fraca, o País é imaturo, muitas injustiças aconteceriam e pena de morte é uma forma de vingança legalizada e não de justiça. Sinceramente, acredito que a distância entre vingança e justiça é limítrofe e, muitas vezes, a vingança é mais justa que a própria justiça. Quanto a justiça ser falha, fraca e o País imaturo, já tá passando da hora de amadurecer e a justiça brasileira deixar de ser tão vergonhosa. Quando isso acontecer, e só assim, - porque com o sistema atual, também não vejo a possibilidade de pena de morte no Brasil - estaremos preparados para receber uma lei deste quilate, com meu total apoio.

Mas, apesar desse meu senso exacerbado de justiça feita com sangue, em casos bem específicos, que fique bem claro, ratifico minha posição sobre o caso Marco Archer, sendo completamente aversivo à punição dada ao brasileiro, morto por fuzilamento pelo sistema judiciário indonésio. Um sistema, onde pessoas que fazem sexo sem serem casadas são punidas com chibatadas em público, e que não pune homens que estupram mulheres para lhe darem uma lição, também precisa ser drasticamente repensado.

A grande verdade, no final das contas, é bíblica. Se a humanidade aplicasse a famosa regra de ouro em suas vidas, tudo seria diferente. Se fizéssemos aos outros apenas o que queremos que façam a nós, ou se não fizéssemos aos outros aquilo que não gostaríamos que fizessem pra gente, não existiria o desejo de tanto olho por olho, dente por dente e sangue por sangue.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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Um comentário:

Shumy disse...

Nuca fui a favor da pena de morte, sempre acreditei que deveriam ser presos para o resto da vida, trabalhando para sobreviver e parte dos ganhos ir para família/pessoa que sofreu com o ato! No caso do Marcos, acho que a partir do momento que você sabe das regras e mesmo assim resolve pagar para ver, então que seja feita sua vontade! Concordo com você sobre o peso das penalidades....infelizmente os pesos variam conforme interesse de alguns.