domingo, 18 de janeiro de 2015

Paranóias




Eu sempre tive horror da figura do Ronald Reagan. Mas tinha muito mais pavor da Margareth Thatcher.  Por causa dela, acreditava que a qualquer momento poderia eclodir a Terceira Guerra Mundial.  Para piorar, lá em casa tudo era motivo para um terrorismo: meu avô e meu pai eram da Marinha e, em hipótese alguma, podia pensar ou falar mal do governo.  Achava o presidente Geisel um carrasco, mas minha mãe tocava o rebu, dizendo que poderiam prender meu pai por causa das minhas críticas – como se uma criança de seis anos pudesse ter um senso tão crítico assim.  Eu ainda nem tinha nascido durante o golpe de 1964, mas de tanto meus pais contarem aquelas histórias de perseguições, acreditava, na minha mente infantil, que poderiam invadir a nossa casa, prender todo mundo, queimarem meus livros e saquearem a geladeira. 

Meu pavor aumentou quando o Reino Unido declarou guerra à Argentina por causa das Ilhas Malvinas. Sempre achei a história desse conflito meio sem propósito. Eu tinha uns 12 anos e não entendia direito o porquê daquilo tudo... Analisando geograficamente, a Inglaterra era tão longe... e as Falklands estavam bem ali ao lado dos nossos hermanos. Pra quê os ingleses se importavam tanto com umas ilhotinhas tão sem graça e tão distantes?  

Como meu pai era militar da ativa, minha cabeça fervilhava acreditando que ele também poderia ser convocado para lutar na guerra, minha mãe ficar viúva e a família sem dinheiro.  Quando Thatcher dava as caras no Jornal Nacional, eu tremia nas bases, ajudado com a voz-fantasma de Cid Moreira.  Aquele jeitão austero e robotizado de professora de colégio interno, fria e distante, sem esboçar nenhuma reação de compaixão sempre era associada às imagens de conflitos, bombas, mísseis, pessoas sendo pisoteadas, cavalos atropelando ingleses, carros sendo queimados... Aquela mulher realmente poderia destruir o mundo!  

Somente anos mais tarde fui realmente entender o quebra pau pelo controle das Ilhas Malvinas.  Desde 1883 a Grã-Bretanha ocupava e administrava as Falklands, mas os argentinos nunca engoliram esse domínio. Em 1982, o ditador argentino Leopoldo Galtieri lançou a invasão.  Lógico que tinha uma politicagem no meio disso tudo: havia uma crise nas fronteiras argentinas e os ditadores eram acusados de abuso dos direitos humanos.  Com a invasão, eles esperavam um apoio irrestrito da população e, como consequência, o governo militar sairia como o “bonzinho” da história.  Mas foi aí que a Grã-Bretanha reagiu imediatamente mandando o triplo de combatentes da tropa argentina e ainda ganharam o apoio dos EUA. Com centenas de mortes e com o rabinho entre as pernas, o regime militar argentino caiu, foi substituído por um governo civil e Thatcher foi reeleita pelo seu Partido Conservador. 

O Exército Republicano Irlandês, o IRA, também me assustava.  O grupo terrorista, que foi o responsável por milhares de mortes, tinha o interesse em tornar a Irlanda do Norte independente da Inglaterra nas questões políticas e, inclusive, religiosas.  E no alvo, sempre estavam os ingleses e Margareth Thatcher. A própria primeira-ministra quase morreu, junto com seu marido, em 1984, em um atentado num hotel em Londres quando os membros do governo estavam reunidos para a Convenção Anual do Partido Conservador. 

Por causa de suas críticas à criação da União Europeia, ela perdeu totalmente o apoio de seu partido, que culminou com a sua renúncia ao cargo de primeira-ministra em 1990.  Confesso que, depois disso, me senti um pouco mais aliviado. Afinal, o mundo poderia respirar melhor e sem os riscos de uma guerra nuclear, sem Thatcher.  

Recentemente, ao me deparar com a vitrine vazia da Livraria da Travessa, somente com o cartaz “Je suis Charlie” em luto pelos acontecimentos bizarros no semanário satírico Charlie Hebdo e na mercearia judaica, na França, ainda continuo achando que, a qualquer momento, uma guerra vai começar através dos fundamentalistas islâmicos e extremistas. 

Geisel, Reagan e Thatcher saíram do mundo e do meu infinito-mundo-paranoico-particular. Depois vieram as brigas entre o xá Reza Pahlevi e o líder religioso aiatolá Khomeini, que vivia exilado em Paris e, de lá mesmo, comandava as forças de oposição ao governo do xá. Agora, ainda existe o fantasma de Yossouf Fofana, Bin Laden e o Al-Qaeda. 

Mesmo se estivesse viva, Thatcher não me assustaria mais. Hoje até acho que ela era uma senhorinha muito simpática, comparando com os personagens dos novos tempos, que apavoram o mundo nesse climão apocalíptico, num eterno quase-apertar do tão temido botão vermelho.
Leandro Faria  
Marcos Araújo é formado em Cinema, especialista na área de Gestão Estratégica de Comunicação e há mais de uma década à frente da assessoria do Hemorio. Nas horas vagas, é editor do Fanz, um site especializado em cultura pop, além de vocalista da banda de rock Soft and Mirabels, um dos membros da Confraria dos Bibliófilos do Brasil, colunista do Papo de Samba e um dos criadores do grupo carnavalesco Me Beija Félix.
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Um comentário:

Rafa Mattos disse...

É cara aí é muito fera! Não porque escreve bem ou entende de comunicação, mas porque tem um coração maior do que seus 1,80m...