segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Pelo Direito de Não Crer




"And I find it kinda funny
I find it kinda sad
The dreams in which I'm dying
Are the best I've ever had
I find it hard to tell you
I find it hard to take
When people run in circles
It's a very, very mad world..."

Passado o chocante e extremista ataque à revista francesa Charlie Hebdo (e seus consequentes ecos, para o bem ou para o mal, ao redor do mundo), me peguei com questionamentos diversos sobre o ocorrido e, sempre, chegava à mesma dúvida: por que a humanidade parece, a cada dia, pior do que era anteriormente (e esse anteriormente pode ser ontem ou referir-se há 20, 30 ou 1.000 anos)?

Entre os diversos textos que li sobre o assunto, foi o do Gregório Duvivier, para sua coluna na Folha, o que achei mais lúcido e pertinente. Foi o texto dele que me motivou a começar esse, graças a uma sementinha que ficou em minha cabeça quando li a seguinte sentença:
"... tudo é sagrado para alguém no mundo. A maconha, a vaca, a santa de madeira, o Daime, Jesus e Maomé: tudo merece a mesma quantidade de respeito, e de falta de respeito."
Sério, isso não é genial? Se formos parar para pensar, absolutamente TUDO pode ser "sagrado", levando-se em consideração a infinidade de pessoas e crenças que povoam esse planeta. E são os crentes (e uso esse termo de maneira genérica, me referindo a quem acredita em alguma coisa) que, muitas vezes, fazem-se ouvir entre os demais. 

Eu realmente acho bonito o fervor religioso. Acho que o permitir-se acreditar em algo faz muito bem a determinadas pessoas e chega a dar gosto ver uma pessoa defender com tanto empenho as próprias crenças, por mais que, para mim, elas possam ser mera ficção e não interessem a mais ninguém além da própria pessoa que crê. E é nesse ponto que chego ao assunto da coluna: por que quem não acredita é, normalmente, julgado por isso? O direito de "não crer" não é tão válido quanto o de crer?

Eu já falei sobre a minha falta de crença aqui mesmo no Barba Feita. O mais interessante a respeito disso, é que as outras pessoas simplesmente não sabem lidar com o fato de você declarar que simplesmente não acredita no que é comum à maioria. Chega a ser constrangedor (para as pessoas, não para mim) ver a reação de alguém quando eu, por exemplo, digo que não acredito no conceito padrão de deus dos demais. Vejo pena, incredulidade e até mesmo uma vontade de ajudar (oi?) no olhar do meu interlocutor, que simplesmente não consegue processar o fato de que eu posso simplesmente não acreditar.

O que as pessoas não se dão conta, normalmente, é que suas crenças são, na maioria das vezes, um fator cultural e geográfico. Vivemos em um país cristão, com uma infinidade de religiões que pregam seguir a Bíblia como manual de instruções. Mas será que as mesmas pessoas que são cristãs aqui no Brasil o seriam se tivessem nascido no Japão (cujos habitantes são, em sua maioria, xintoístas e/ou budistas) ou na Indonésia (o maior país muçulmano do mundo)? Dessa forma, não é a religião um fator apenas geográfico-cultura-circunstancial? Mas esse não é o ponto desse texto e eu apenas divago.

No fim das contas, acho que o que falta no mundo é, vejam bem a ironia, um pouco mais de prática de um dos maiores mandamentos que, dizem, foi ensinado por Jesus: amor ao próximo. Se você amar (ok, não precisa tanto, respeitar já está valendo) o próximo, pouco importa se ele acredita em Jesus, Zeus, Jeová, Maomé, Alá, Dumbledore ou compartilhe mensagens do Marco Feliciano. Com respeito e uma dose de boa vontade, o mundo seria sim um lugar bem melhor de se viver.

Mas, até mesmo para amar/respeitar o próximo, você tem que, antes disso, se conhecer e, nesse caso mais que o anterior, efetivamente se amar. E assim, é impossível terminar esse texto sem citar RuPaul (esse sim, quase um líder religioso e que eu bem seguiria!) e sua adorável frase de incentivo mais famosa:
"If you don't love yourself, how in the hell you gonna love somebody else?" 
Amém!
Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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Um comentário:

Edmárcio Alcântara disse...

Concordo plenamente!
Eu acredito em Deus, mas não acredito na Bíblia. Para mim Deus é amor, humildade e tolerância, não o Deus pregado pela Bíblia. Religião é filosofia de vida, cada uma tem a sua ou nenhuma.
O que a humanidade precisa é de mais respeito pelo próximo!!!!