domingo, 25 de janeiro de 2015

Quintas





Quintas-feiras são complicadas. Se as segundas-feiras começam com a perspectiva que, dessa vez, tudo vai se consertar e dar certo, nas quintas a realidade dá as caras e puxa para dentro do poço fundo tudo o que restou de felicidade - e o que havia restado era tão pouco que parecia uma grande covardia levá-la. Secar o que já estava com sede. ​

Às quintas-feiras percebo que o problema são as expectativas – porque as malditas segundas-feiras, traiçoeiras segundas, se mostram como a solução de tudo. Nelas começamos regimes, a escola, o trabalho. Sob o manto do recomeço, nos iludimos que dessa vez tudo irá dar certo. Tudo irá funcionar. Dessa vez não vamos cometer os mesmos erros. ​

Mas chega a quinta e percebo que tudo foi em vão. Não as expectativas – não, elas não tem culpa. A culpa é minha por tê-las criado. Nutrido. Passado a mão na cabeça dizendo para ir dormir que tudo daria certo. Eu as nutri com um alimento artificial que as deixaram mais fortes - mesmo sabendo que era um alimento temporário. Mesmo sabendo que não teria ele por mais tempo do que elas necessitariam para viver. ​

Às quintas, então, esfomeadas, as expectativas me acordam. Chorosas. Impacientes. Cobrando tudo o que eu havia prometido. Como não encontram o que querem – afinal nada havia mais - , passam a se alimentar de minha carne. Não, elas não precisam disso. Mas comem minha carne para me punir por tê-las alimentado em vão. Já que vão morrer, levariam-me junto. ​

Todas as quintas eu digo, junto ao que restou de mim, que eu não criarei mais expectativas. Que viverei a esmo como uma pessoa saudável faz. Deixarei de ser um pouco eu na próxima semana. Mas, junto ao álcool consumido no fim de semana, a carne tímida vai se recompor. Dentro dela, esquecida, sobrará uma expectativa que tivera preguiça de se rebelar e ficara alheia ao que se passou. ​ Segunda feira, com a carne refeita, eu acordarei a pequena expectativa. Ela, e sua pequena memória, não lembrarão do que se passou anteriormente. E acreditará piamente no que eu vou prometer. Sim, porque minha memória também é curta, e apesar de saber que próxima quinta eu não estarei bem, vou insistindo nessa farsa. A expectativa se reproduzirá e se multiplicará e em pouco tempo eu me verei cheio de expectativas, novamente. ​

Eu, minhas expectativas e quinta-feira – um interessante caso de coisas que nunca vão dar certo, mas sempre vão estar juntas...

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Leandro Faria  
Gael Rodrigues é o GhostWriter de si mesmo. Paraibano de 29 anos, adora dias nublados e fica feliz quando a chuva bate na janela. É pai de um gato chamado Judas e mãe do livro Apaixonados Anônimos. Entre roteiros e livros que escreve, arranja tempo para pensar na vida e como ela é bela sendo estranha. Muito estranha.
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Um comentário:

Shumy disse...

Nunca pensei assim, pelo menos não as quintas. Sou mais imediatista, costumo ter esse bate papo a noite com meu travesseiro, sabe aqueles minutos que seu corpo começa a relaxar e sua mente divaga para lugar nenhum? É nesse momento que revejo meu dia, no meio dessa neblina fico brava comigo por ter feito algo ou não, e durmo com a promessa de que ao acordar será diferente!!! Rs Ahm, mas a expectativa está lá o tempo todo!!!