terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Sacrifício





Ninguém gosta dessa palavra. Sacrifício. A ideia de perder algo é assustadora, porque o ser humano não gosta de perder.

Fazemos sacrifícios todos os dias. "Se eu comprar esse sapato, não vou poder comprar essa jaqueta.", "Se eu me atrasar, não vou poder ir nos dois lugares que preciso ir hoje.", "Se eu comer um pouco mais, vou ter que me matar na academia amanhã.", e assim vai. Porém, de todos os sacrifícios, existe um que é extremamente perigoso: o de sacrificar quem você é por causa de alguém que você gosta.

Você conhece um cara, aquele cara, o que o seu instinto diz ser o certo. Rola química, sorrisos pra cá, pra lá, você ri das piadas dele, ele ri das suas, e com isso, vocês vão criando vínculo, começam a sair juntos, vão se conhecendo melhor, e num dado momento você percebe que você gostam de muitas coisas diferentes. Mas até aí tudo bem, afinal de coisas, relacionamento é isso aí, aprendizados, novas experiências.

O problema está em quando o cara é um pouco mais sério, e você começa a regular as piadas costumeiras para não desagradá-lo; para de ouvir determinada banda que gosta, porque ele não gosta e você não quer ficar mal com ele; vai parando de sair com os seus amigos, porque os amigos dele são parecidos com ele, e ele não se diverte tanto assim com os seus; começa a se interessar pelas mesmas coisas que ele, só pra não ficar sem assunto;

Não cometa esse sacrifício. Não sacrifique quem você é por alguém que não conhece metade da sua vida, por quem quer fazer de você parecido com esse alguém, por ser mais prático, conveniente, fácil. Não dê um tiro na testa do seu verdadeiro eu por um cara que, direta ou indiretamente, acaba te forçando a isso.

A vida não é assim, um relacionamento não é assim. É uma via de mão dupla, onde trocas de experiências acontecem, diferenças de personalidade e opinião são expostas, discutidas e compreendidas. Qual a vantagem? Diz, qual a vantagem de deixar de beber no boteco da esquina com os amigos que você conhece há anos, que conhecem as suas batalhas, as suas vitórias, pra passar uma noite sendo quem você não é, num restaurante chique, falando sobre coisas que você não quer, mas que, por medo de perder o cara, você acaba falando?

Não existe vantagem em sacrificar a sua essência por nada, muito menos por causa de homem. É sofrer sem necessidade, é morrer por dentro. Busque alguém que te queira por perto como você é, do jeito que você é, não do jeito que ele é, porque esse tipo de gente, que tem complexo de Deus, que quer que todos sejam a sua imagem e semelhança, não vale o esforço. 

Não vale o seu esforço.
Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, é o colunista oficial das terças no Barba Feita. Tem aproveitado a fase de solteiro para viver tórridos casos de amor. Com os personagens dos livros que lê e das séries que assiste, porque lidar com o sofrimento do término com personagens é bem mais fácil do que com pessoas reais.
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