sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Sobre as Coisas Que Eu Não Disse: Bruno





Quando procuraste saber onde eu estava já era demasiado tarde. Já havia estado em tua casa e revelado, como quem revela uma fotografia, toda espécie de sordidez que deixaste comigo. Denunciei à tua mãe aquilo que ela jamais ousou conhecer. Estava eu enganado quando vociferava que todas as mães intuíam ao respeito dos vossos filhos. A tua jamais soube e, tenho que admitir que tu estiveras sempre correto ao teu respeito e conseguiste mesmo enganar-lhe com tamanha maestria. E se não fosse as provas que possuía ao teu respeito ela não acreditaria. És um mestre neste ofício e tiro o chapéu para tamanha desfaçatez. Não obstante, agora sim, ela sabe. Sabe das nossas falsas noites de amor, porque do teu coração embusteiro nunca houve amor. Sempre iludiste-me como iludes teus clientes com teu perverso e adulterado sotaque sulista. Sim, Bruno, tua mãe conhece tuas patranhas, tuas fingidas promessas, sabe dos teus dentes em meu corpo, do teu corpo dentro do meu corpo e do meu corpo a engolir-te por inteiro. Para ela, vomitei todas as inverdades que um dia contaste a mim e tudo que escreveste agora está nas mãos dela. Sim, Bruno, agora ela será capaz de entender o quanto és covarde, que nunca em tua vida irás assumir quem de verdade és. Deixei que ela sucumbisse em prantos. Deixei que chorasse, que sofresse, que sentisse o que eu senti porque necessito que quando descobrires, sintas enfim, o ódio. Talvez este será o único sentimento verdadeiro que poderás ter por mim afinal. Eu amei-te e agora deixei tua mãe a jazer no chão da tua sala. Aquela mesma sala que já nos amamos tanto. A mesma sala que ocultava nossos suspiros e gozos. Deixei que ela parasse de respirar no lugar onde nossos fôlegos perderam-se imensamente. Onde meu suor unia-se ao teu suor perdulário após pertencermos um ao outro. Tua mãe não poderia supor que o horroroso tapete que adormecia a seus pés era cúmplice de tantos segredos. Tão cúmplice quanto o abajur, o sofá e a mesa de canto que tu acreditavas que enfeitavam aquela casa. Casa que nunca seria nossa porque nunca houve nós, e sim nós estrangulando minha garganta como sempre fizeste. Sim, Bruno, agora ela sabe, perece e nada mais podes fazer. Viverás então a carregar esta culpa e este rancor por toda tua vida. Sim, cada vez que saíres a rua e virares a esquina, eu posso estar à espreita, cada vez que cruzares a rua eu posso estar do outro lado, cada vez que subires as escadas eu posso estar no topo e, quando desceres, já estarei à tua espera. Roubei-te a paz para que meu nome esteja sempre em tua boca.

Contudo, por ainda amar-te tanto, tive o zelo de deixar que as janelas de tua casa ficassem devidamente fechadas, assim os gritos de lamúria e pedidos de auxílio de tua mãe não poderiam ser ouvidos pelos vizinhos. Tu não apreciavas o fato deles saberem o que fazíamos quando ia ter contigo e eu jamais esqueci deste pormenor. Rasguei todas tuas roupas e urinei em cima de cada uma delas depois que as joguei no chão da sala ao lado do corpo de tua mãe que se contorcia de tanto desgosto e, talvez por piedade daquela pobre criatura, antes de sair deixei que o gás da cozinha fizesse todo o resto. Todavia, não te desassossegues, apaguei todas as luzes ao sair  de tua casa.
Leandro Faria  
Serginho Tavares é um apreciador de cinema (para ele um lugar mágico e sagrado), da TV e da literatura. Adora escrever e é o colunista oficial do Barba Feita às sextas. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência até a praia e mantenha sempre os pés bem firmes na terra.
FacebookTwitter


Nenhum comentário: