sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Sobre as Coisas Que Eu Não Disse: Jorge





Estava escolhendo qual roupa usar. Tinha passado aquele dia limpando todos os cantos da casa. O assoalho reluzia, assim como os azulejos da cozinha e do banheiro. O sofá, já velho, ganhou uma nova capa e parecia recém saído da loja, enquanto os outros móveis receberam uma boa dose de óleo de peroba. Colocou uma nova cortina na sala e o banheiro ganhou um novo tapete. Não esquecera de providenciar também uma nova pasta de dentes, já devidamente posta em seu novo lugar. Cansado, mas feliz, mereceu um banho demorado. Aproveitou para depilar todo o corpo. Ele gostava assim. Lisinho. Era também uma forma de passar o tempo e não criar mais ansiedade do que já havia no ar. Lembrou de quando o conheceu. Numa roda de samba. Ele tocava pandeiro e ambos não tiravam os olhos um do outro. Ele tinha um sorriso no canto da boca, cara de safado e a aliança no dedo denunciava o compromisso, porém não quis saber. Depois das meras formalidades (oi, como vai, qual o seu nome) ambos estavam na cama saciando o desejo. Desde então, viam-se se sempre em motéis baratos e aquela seria a primeira vez que ele conheceria a casa do amante, já que tanto esquivava com medo de ser visto. Entretanto, depois de tanto tempo e incansáveis pedidos, enfim ele foi convencido e daí tantos preparativos. Ele estava gostando de aprontar a casa para esperar seu homem, mesmo sabendo que ele não era apenas seu, mas sabia que naquelas próximas horas, seria. E podia fazer o que bem entendesse. Não esquecera que seu homem tinha um bom apetite, por isso encomendara um galeto na padaria da esquina que agora descansava em seu forno. Fez uma salada, arroz branco e abriu o pacote de farofa pronta que comprou no mercadinho há dois dias, junto com o sorvete napolitano para a sobremesa. O que faltava? Ainda tinha dúvidas com que roupa esperaria seu homem, ou se usaria alguma. Independente de qual seria, elas teriam o mesmo destino, o chão. Ele pularia em cima dele e lhe devoraria, talvez fizessem amor ali mesmo no chão reluzente da sala ou no sofá velho com capa nova e seu homem iria embora sem dizer-lhe nada, talvez nem reparasse em sua casa, talvez nem ficasse para jantar. Talvez.

Aproximava-se da hora em que a campainha iria tocar. Será que ele vem mesmo? Claro que vem! Mandou uma mensagem dizendo que estava a caminho, já no ônibus, assim a felicidade encheu seu corpo, não apenas o rosto. Tudo estava pronto; como num teatro, os espectadores esperavam sentados a hora que a cortina iria se abrir e o espetáculo iria começar. Resolveu deitar-se um pouco. Sonhara em caminhar de mãos dadas, de ir na roda de samba com ele a tiracolo, de apresentá-lo aos seus amigos como sendo seu homem. De receber flores dele, aquilo tudo podia ser demasiado piegas, mas era assim e, no fundo, apenas queria isso, mas sabia que não era possível. E que talvez nunca fosse.

Seus pensamentos o levaram para longe. Pensava no quanto o amava. Jorge gostava de seu corpo magro, mas não muito magro, do seu bumbum empinado, do seu peito sem pelos, dos braços e pernas compridas e, principalmente, do seu bom humor. Ele gostava do sorriso de Jorge sempre no canto da boca, da voz grave, das mãos e pés grandes, das coxas grossas e peludas, das costas largas, da barba sempre por fazer e da segurança que ele lhe oferecia. Adormeceu. Acordou com a campainha a tocar. Ele chegara. Deu um sobressalto e correu para abrir a porta ofegante. Lá estava, bem à sua frente, o seu homem com o eterno sorriso maroto no canto da boca segurando um pequeno buquê de rosas vermelhas.

Seu homem lhe trouxera flores. Ele estava feliz.

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Leandro Faria  
Serginho Tavares é um apreciador de cinema (para ele um lugar mágico e sagrado), da TV e da literatura. Adora escrever e é o colunista oficial do Barba Feita às sextas. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência até a praia e mantenha sempre os pés bem firmes na terra.
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