sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Sobre as Coisas Que Eu Não Disse: Marcelo





admirava seu cabelo negro, liso, curto, raspado. não importava que eu o ajeitasse com as pontas dos meus dedos e assim podia sentir como ele era sedoso. gostava de passar as mãos sobre ele e descer devagar sobre sua nuca. era estranho sentir desejo pela sua nuca? minha língua roçava sobre ela, ora em movimentos circulatórios, ora de cima pra baixo. adorava quando seu cabelo estava espesso, macio como o tecido da sua camisa preferida, aquela mesma que eu jurei não lhe devolver mais. você sempre fora tão vaidoso, odiava que as roupas não caíssem bem em seu corpo. contemplava suas costas largas que evidenciavam seus dias na piscina, ou nas quadras de voleibol. seus ombros, seus braços fortes que marcavam a camisa sempre apertada pulsando um muque que crescia a cada dia e que você exibia para mim, só para mim e eu os beijava devotamente. via seus pequenos sinais e certa vez comecei a contá-los, mas você disse que iriam nascer mais se eu continuasse contando e eu disse que preferia que nascesse uma verruga em minha testa se eu tivesse que parar de fazer e você me chamou de bobo porque as verrugas só nascem para quem estar a contar estrelas e eu pensei que bobo era você, por não saber que seus sinais eram pequenas estrelas e você é meu universo. sua camisa terminava onde começava o cós da sua calça e bastava você levantar os braços que eu podia ver o começo de sua cueca quando de repente virou moda deixá-la à vista. e como ciumento eu sou. todos podiam saber o que apenas eu deveria saber. eu que tentava sempre adivinhar com qual cueca você estaria vestido não precisava de muito esforço. seu bumbum grande e arrebitado estava tão facilmente em minhas mãos. e suas pernas. suas pernas podiam passar o dia correndo de um lado para o outro e eu não me cansava. ao contrário dos outros rapazes você se preocupava com elas. eu gostava de te ver de shorts, ou quando estava enfiado naquelas calças jeans. alguns homens nasceram para usar calças jeans. que bom que o meu era um desses. seus tênis eram sempre brancos ou pretos e você dizia que estas cores combinavam sempre com tudo. secretamente eu cheirava seus sapatos porque eu queria saber como era todo seu cheiro inclusive o cheiro dos seus pés durante o dia em que não estavas comigo. porém, quando estavas, me entretinha em seus pés por horas. mal sabia você que eu já conhecia o cheiro deles antes mesmo depois de tomar seu banho e passar um bom tempo a tentar me enganar com um outro cheiro. eu já sabia, mas você não sabia. 

Você não sabia...


sim você não sabia, nunca soube, eu nunca lhe disse o quanto te amava, o quanto eu te amei, o quanto enlouquecidamente te amei por anos em que você sentava à minha frente na sala de aula e eu apenas podia ter de você sua nuca, suas costas, sua bunda. eu nunca pude saber que sua camisa sempre justa deixava seu peitoral mais esculpido e assim eu não tinha como ter ciúmes de não saber como era não gostar do que os outros podiam perceber. perceber que teus mamilos eram meus, apenas meus e que tinham sido meus brinquedos na noite anterior. mas isto eu não podia saber porque eles nunca haviam sido. eu não podia saber o quanto seu pênis imenso podia fazer de mim o que bem entendesse. nem isso eu nunca pude saber.
Leandro Faria  
Serginho Tavares é um apreciador de cinema (para ele um lugar mágico e sagrado), da TV e da literatura. Adora escrever e é o colunista oficial do Barba Feita às sextas. É de Recife, é do mar: mesmo que não vá com tanta frequência até a praia e mantenha sempre os pés bem firmes na terra.
FacebookTwitter


Nenhum comentário: