domingo, 1 de fevereiro de 2015

A Ditadura da Beleza Lésbica



Na última terça-feira, vi uma das cenas mais lindas da TV nos últimos tempos. Paolla Oliveira se despe entre cortinas de voil que balançavam ao vento e para numa varanda ensolarada, de costas, salto alto e uma calcinha preta que lhe revelava um lindíssimo bumbum. As lentes de Fernando Meirelles brilharam nessa sequência.

Paolla interpreta uma prostituta bissexual na minissérie Felizes Para Sempre?. E me veio novamente à cabeça algo que comentei há pouco tempo: de onde têm surgido tantas lésbicas? Não sou inocente ao ponto de pensar que isso é modinha, claro que não. Assim como gays homens tem tido liberdade maior para se expor, vejo que as mulheres também resolveram dar as caras.

Há, no meu ponto de vista, uma dificuldade em nomeá-las. Lésbica é um tanto constrangedor, parece uma ofensa! A palavra soa pesada. Sapatão, Fanchona, Virago, são termos tão pejorativos que parecem xingamentos e não denominações. E por que falo que elas surgem aos borbotões nos últimos tempos? Porque nunca tive tantas amigas lésbicas como agora. E afirmo que tive certa dificuldade em me ambientar. Pisei em ovos muitas vezes nos encontros onde havia casais de mulheres. Não gosto de parecer preconceituoso e, por causa disso, me sentia um bobo alegre tentando agir naturalmente. Já acabou, estou naturalmente ambientado e, por mais que elas me permitam chamá-las de sapatão, eu ainda fico com receio.

Os gays homens foram caricatos na TV, cinema e programas humorísticos até pouco tempo, quando jovens galãs de novela apareceram como pessoas normais, e então a sociedade percebeu que não havia purpurina jorrando dos poros gays. José Mayer talvez seja o homem que mais deu credibilidade ao homossexual masculino. O problema do personagem ser casado e manter vida dupla talvez seja, aos olhos gays, uma afronta, aí teríamos que perguntar o que o grande público acha disso. Assunto para um próximo texto.

Toquei nesse ponto, da visibilidade gay nos meios de comunicação, justamente para exemplificar a lésbica da moda. O que há em comum entre Giovana Antonelli, Taina Muller, Paola Oliveira, Alinne Moraes, Paula Burlamaqui e algumas outras atrizes que viveram personagens gays na TV? Todas, sem exceção, são lindas. Então criou-se o estereótipo de que lésbicas são lindas. Isso aguça o desejo do homem hetero que acredita não existir mulher gay, elas apenas não encontraram o homem certo. E já ouvi isso muitas vezes, em comentários bem jocosos, que não cabem aqui.

Essa glamourização da mulher gay, linda e bem sucedida, segue caminho oposto ao viado, bicha, mariquinha, boiola, que tanto se mostrou na TV. A dona de casa olha duas mulheres se relacionando amorosamente na novela, enquanto passa a camisa do marido para trabalhar no dia seguinte, e acredita que essa experiência é menos traumática e mais fácil de se lidar do que o filho bichinha que dança Britney Spears no quarto. A mulher camufla sua sexualidade na maioria das vezes, mas o menino não consegue disfarçar os trejeitos afeminados, quando os tem.

A vida de uma gay é tão dolorosa e árdua quanto a do menino que se descobre homossexual. Talvez até pior, porque muitas casam, tem filhos e passam uma vida inteira presas num desejo reprimido. Falta mostrar ao grande público que uma lésbica não precisa ser linda, como os exemplos acima, para ser aceita. Onde estão às chamadas caminhoneiras, ou mesmo as mais masculinizadas. Será que o único exemplo será sempre Tammy Miranda? Desculpem os que a admiram, mas a enxergo como a mãe, louca para aparecer. Não me desce goela abaixo as transformações masculinas de Tammy, por isso não acredito ser ela um exemplo. Falta mais verdade na lésbica da mídia.

A TV deu um salto enorme na ultima década em relação à sexualidade. Autores estão mais ousados e criativos na maneira de burlar a censura e esfregar na cara da sociedade que as diversas formas do ser humano são válidas e normais. Será que a próxima etapa é provar que os tais g0ys, highsexuais e afins são na verdade uma farsa? Vamos ver quem terá coragem de desmascará-los.

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Leandro Faria  
Rafael Leoni é um jovem aquariano de 42 anos, arquiteto e inquieto. Para não ouvir vozes na cabeça, transforma tudo em personagens nos contos e romances que escreve. Blogueiro, amante do cinema, TV e tudo que se possa chamar de arte. Elegeria Odete Roitman Presidenta do Brasil e como vice, Nelson Rodrigues...
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2 comentários:

Luiz Ehlers disse...

É um assunto bem interessante. A questão da lésbica carrega mais de um preconceito: a homofobia somada ao machismo. Existe muito uma imagem de que ser lésbica é um prática sexy e como fetiche, o que é um pensamento machista. O homem hetero tem a fantasia das duas mulheres, mas desde que ele esteja no quarto. O fato delas estarem em um quarto separado sem ele, quebra tudo. A TV vem tratando de formas diferentes a figura do gay, o que é muito importante. A figura da lésbica tem que vencer mais barreiras ainda, mas um dia chegamos lá...

Luiz Ehlers disse...
Este comentário foi removido pelo autor.