segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

O Efeito Gourmet e Você





Morar no Rio de Janeiro é caro. Ponto. Copa do Mundo, Olímpiadas e toda essa infinidade de eventos realizados na cidade nos últimos anos, tem tornado elevado o custo de vida do carioca (e daqueles que escolheram o Rio como cidade sendo, assim, cariocas por opção) às alturas. Moradia, diversão, comida. Tudo nessa cidade parece pensado para turistas, que não param de chegar e gastar por aqui. E nós que aqui vivemos apenas pagamos o preço (alto) dessa supervalorização da cidade.

Entretanto, tenho observado algo que me intriga não apenas na cidade, mas em todo o país: a gourmetização do básico. Tudo que sempre consumimos de maneira simples e casual ganha uma nova roupagem, um ingrediente de nome estrangeiro e, voilà, temos uma nova invenção gourmet

Uma quinta-feira à noite, um programa cultural com direito a jantarzinho e peça de teatro no Shopping da Gávea e o comentário da amiga: "Hum, vi que aqui tem brigadeiro, vamos comprar um para adoçar a boca?". E em uma famosa loja Fabiana D'Angelo, um brigadeiro gourmet por R$ 8,00. Sim, isso mesmo. OITO.REAIS!

Só pra lembrar de que é feito um brigadeiro: leite condensado, chocolate e um pouco de manteiga, não? E o docinho, famoso conhecido de todos nós, está pronto. Mas daí inventam o conceito de gourmet e apenas essa palavrinha junto com a palavra brigadeiro faz um mísero e pequeno docinho custar R$ 8,00 a unidade. E o gosto? De brigadeiro.

Como o brigadeiro gourmet, outros produtos ganham status e preços inflados. O picolé vira paleta mexicana. Descole a apresentação com latas coloridas e sabores exóticos (curry com mostarda, canela cristalizada, noz pecan) e, pronto, pipoca gourmet. Com salsichas de vitelo, viena ou alguma de nome alemão, o cachorro quente também ficou chique, gourmet e... caro! E assim vamos nós, pagando preços absurdos pelo mesmo de sempre, agora mais afrescalhado.

Tenho em casa, colado em minha geladeira, o ímã abaixo que traduz exatamente o meu sentimento com relação ao universo gourmet que nos assola:

Algo como: "Latte"é francês para "você pagou  muito caro por aquele café"


Comer bem é ótimo. Eu mesmo adoro me aventurar por novos restaurantes e sabores (e sou um completo viciado no Master Chef. Além do Brasil, já vi episódios aleatórios do Master Chef Espanha, Peru, EUA e, claro, do Master Chef Jr., que é excelente). Mas também sou pão duro, uma vez que sei exatamente quanto custa o meu dinheiro. E acho um absurdo pagar caro por algo que é chamado de gourmet unicamente para arrancar meus ricos dinheiros.

Assim, vou vendo os preços gourmetizados e penso: por que eu não crio nada gourmet também? Sei lá, uma água mineral, um pão com ovo, um curso de redação. Cada um usa o que tem de melhor para pegar carona na onda do momento, menos eu. Que adoro brigadeiro, mas nem fudendo por nada pago R$ 8,00 em um.

No fim das contas, cada um sabe de si, quanto tem na carteira e quanto está disposto a gastar por algo. O marketing ensina muito bem a diferença entre necessidade e desejo e cada um é dono de suas vontades. Eu, de minha parte, me contento com o bom, mas prefiro a minha parte gourmet em viagens internacionais e em novas culturas. Porque, de boa, e desculpem-me a expressão, gourmet de cu é rola!!!

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Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
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