domingo, 22 de fevereiro de 2015

A Graça do Careca Dourado





O que há em comum entre o maior atirador de elite da história americana, Martin Luther King, Stephen Hawking, Alan Turing, um concierge e seu aprendiz, um estudante de música e seu professor carrasco, uma história de 12 anos de uma família e um ator querendo mostrar ao mundo seu valor? As oito histórias competem esse ano pelo maior prêmio do cinema, o Academy Awards, mais conhecido como Oscar. Alguns cinéfilos apontam o dedo para a premiação, chamando de ultrapassada ou afirmando que “os velhinhos da academia não sabem escolher bons filmes”. A verdade é que nenhum outro prêmio gera tanta discussão quanto o Oscar. 

Desde o começo, quando os filmes são indicados, as mesas redondas, sejam elas de especialistas na sétima arte ou de entendedores de fila de pipoca, já começam a dizer que tal filme foi ignorado ou que outro teve mais nomeações do que deveria, que o fulano estava sensacional em sua atuação, mas que foi substituído pelo beltrano que é apenas ok. Com a aproximação da noite de gala e a estreia dos principais indicados nos grandes circuitos (alguns filmes estreiam em poucas salas para poder entrar na lista de indicados), a discussão aumenta, tomando proporções ainda maiores. 

Em 2015 não é diferente. O Oscar desse ano já foi acusado de ser machista, já que as indicadas ao prêmio de Melhor Atriz não têm tanto destaque quanto os masculinos; das cinco, apenas Felicity Jones participa de um filme indicado ao prêmio principal, interpretando a esposa de Stephen Hawking, em A Teoria de Tudo. Já no prêmio de Melhor Ator, o número é ao contrário, apenas um não está em um dos melhores filmes, Steve Carell, por Foxcatcher

A premiação também é chamada de “Branca”, já que não há nenhum negro indicado, mesmo que um filme sobre Martin Luther King esteja concorrendo ao principal troféu da noite, nenhum ator ou a diretora do filme foram indicados. O filme não deve ter chance como Melhor Filme, mas é quase certo que leve para casa o “careca dourado” de Melhor Canção Original, Glory, interpretada por John Legend e o rapper Common, dois músicos... negros. 

Entre os principais concorrentes da noite, Sniper Americano é acusado de propaganda de guerra americana, mesmo Clint Eastwood mostrando como alguns ideais patrióticos e armamentistas podem ser nocivos para alguns soldados e suas famílias. O tema lembra um pouco o que foi abordado em Guerra ao Terror, principal vencedor em 2010, e que teve a primeira mulher a ganhar o prêmio de melhor direção, batendo de frente com figurões como James Cameron e Quentin Tarantino. 

Já outro filme sobre guerra, neste caso a Segunda Guerra Mundial, mostra a história de Alan Turing, pai da computação, que durante o conflito criou uma máquina para decifrar o código nas transmissões nazistas, o que levou os aliados a vitória. Turing era gay e vivia numa época em que o assunto era tratado como crime de obscenidade. Mesmo com toda essa história, alguns críticos não consideraram O Jogo da Imitação uma obra tão boa para o Oscar e acusam, pela enésima vez, Harvey Weinstein, de lobby na promoção de um de seus filmes. Digo pela enésima vez, pois ele foi apontado como responsável pela vitória de títulos como O Discurso do Rei e pelo inexplicável prêmio de Shakespeare Apaixonado

Aparentemente, nenhuma dessas produções têm chances de tirar os prêmios de Melhor Filme e Melhor Direção de Birdman, Boyhood e, na maior de todas as surpresas, O Grande Hotel Budapeste. Mas a verdade é que o Oscar é o prêmio mais importante e mais divertido do cinema. Muitas vezes não pela premiação em si, que é chata, monótona e com várias piadas sem graça, mas com os papos que precedem a grande noite, os bolões entre cinéfilos, o red carpet e toda aquela coisa de quem está vestindo (bem ou mal) o que, além das discussões no dia seguinte de quem mereceu ou não. 

Talvez não apenas no dia seguinte, ou você concorda que Gwyneth Paltrow merecia o prêmio mais que Fernanda Montenegro? Ou que Martin Scorcese não merecia ter mais de uma estatueta na sua prateleira? Que Hitchcock, Robert Altman, Stanley Kubrick e Orson Welles deveriam ter ganho prêmios de melhor diretor e não apenas honorários tantos anos depois

É aí que está a graça do careca dourado.

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Leandro Faria  
Alexandre Almeida, 26 anos, carioca, Relações Públicas, nerd e cinéfilo desde que se entende por gente. Fã de ficção científica, com uma tatuagem do Star Trek no braço esquerdo, tem como ídolo Steven Spielberg e ainda acredita no ato de colecionar filmes e não apenas baixá-los na internet.
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