sábado, 14 de fevereiro de 2015

Amor ou Amizade?




Tive alguns amores platônicos, que invariavelmente tornaram-se bons amigos, mas nunca amantes. Aí chegou uma hora, que eu decidi parar com essa palhaçada. Amor platônico é uma grandessíssima besteira. Devia ser lindo na época de Platão e é ótimo como inspiração para artistas que escrevem, pintam, compõem. Dá aquela emocionada básica em quem aprecia a obra inspirada no amor platônico. Mas na prática, é um sofrimento atroz e sem sentido. Pra que arrastar corrente por quem não sente nada pela gente?

Isso é pra quem tem vocação pra sofrer, pra quem gosta de uma história dramática, pra quem idealiza o par perfeito e pra quem tem medo de se envolver de verdade com alguém, aí cria um caso de amor impossível na cabeça, só pra não ter que encarar a realidade de um relacionamento verdadeiro, que é a total antítese do conto de fadas. Confesso que, tirando a vocação pro sofrimento, que definitivamente não tenho, preencho todos os quesitos restantes. E por isso fui um boboca apaixonado por Samuel, Ricardo e João Paulo, por anos a fio.

Mas agora, isso é coisa do passado. Aprendi que para se apaixonar, é preciso se estar pré-disposto a isto. E eu já não estou pré-disposto há algum tempo. Quando sofremos por amor, principalmente não correspondido, durante muito tempo, passamos a ser mais cautelosos com a chegada da super valorizada maturidade. Não embarcamos em qualquer sorriso, olhos fascinantes ou palavras macias. Nos tornamos até um tanto quanto cínicos. E isso tudo nos protege de um bocado de dor de cabeça.

Aí, um belo dia, no auge da sua maturidade, você faz amizade com um cara super legal. Ele se afina com você em um bocado de coisas. No primeiro momento em que se viram, por nenhum segundo cogitou-se a possibilidade de algo mais que amizade por nenhuma das partes. Vocês saem juntos pra balada, vão ao cinema, à exposições de arte, ao teatro, almoçam e jantam juntos de vez em quando, viajam pra praia nos feriados, conversam sobre cinema europeu e bebem em momentos que poderiam nunca acabar. Quando passam dias sem se ver e se reencontram, vocês se abraçam intensamente e se tocam sem parar. Ele está solteiro. Você também. E quando ele conta os encontros que teve no fim de semana, sempre com homens diferentes, pois ninguém quer nada sério, estranhamente você sente uma pontinha de ciúme, mas finge que não. Uma luzinha acende dentro de você, um sinal de alerta.

Ele é bonito, carismático, charmoso, simpático e doce. Ele é inteligente, culto, divertido, sensato e sensível. Ele é extremamente bem sucedido profissionalmente. E é seu amigo. Você o admira. Tem vontade de estar com ele mais vezes do que o tempo que passam juntos. E isso tudo leva à uma única conclusão: ele seria o namorado perfeito.

Mas e o tesão? Sem problemas. Você já pensou em sexo com ele e não pareceu ruim.

Você não está apaixonado pelo seu amigo, mas tem medo que isso aconteça e vigia seus sentimentos com cuidado pra não cair em nenhuma armadilha. Pode ficar tranquilo, agora você é maduro e sabe disciplinar suas emoções. Imaginar que ele pode descobrir essas bobagens que você anda pensando e acabar arruinando a amizade de vocês é um bom exercício pra não cultivar tais ideias.

Amizades como essa vem embrulhadas pra presente em uma fina e delicada fita dourada, amores não. A amizade é uma forma mais sublime e importante que o amor romântico, este demora muitos anos pra atingir o status do sentimento que envolve uma amizade, e nem sempre atinge. Não raro são os casais que vivem juntos por anos e ao se separar seguem se odiando mortalmente, ou pior, sendo indiferentes um ao outro.

Por isso lembrando do ditando popular "perco o amigo, mas não perco a piada", afirmo com toda a convicção, perco o amor, mas não perco o amigo.

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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