quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

As Cinzas da Quarta-feira




Se tem uma coisa que eu nunca compreendi muito bem é essa louca fissura que existe pelo Carnaval. Essa necessidade de exaurir o corpo ao máximo, às vezes com direito a doses cavalares de álcool e otras cositas más (já falei aqui antes como gente bêbada me incomoda, ainda mais no coletivo), de estar numa eterna festa nas ruas e de dar vazão à porralouquice muitas vezes reprimida nos outros 361 dias do ano. Talvez porque eu nunca tenha visto na Quaresma um período de sacrifícios, mesmo quando era católico. Afinal, o Carnaval, conforme nos ensinam as enciclopédias, surgiu justamente por isso: nos tempos de outrora, como se passariam 40 dias esperando a Páscoa, era o deadline das farras. Mas, vamos combinar, esses tempos de outrora já passaram...

Sempre amei o Carnaval, mas aquele feito pelas Escolas de Samba. Desde pequeno, sempre acompanhei os desfiles e acho mágico o esforço de toda uma comunidade pra fazer um momento único, com tanto esmero, onde é possível ver o enredo contado através de plumas, alegorias e esplendores. Como falei uma vez aqui no Barba Feita, já fui à Sapucaí para ver o grupo de acesso B. Já assisti a desfile do grupo D. E ontem mesmo fui ao menos glamourizado desfile da Av. Intendente Magalhães, no subúrbio do Rio, para desfilar pela quase incógnita Acadêmicos da Abolição, pela série B (antigo acesso C). Meu avô foi um dos fundadores da Viradouro, escola do meu coração, e morreu torcendo por ela, mesmo sem vê-la desfilar no Grupo Especial. E também até me empolgo de dar uma volta com amigos, fantasiado ou não, pra ver o que de bom está rolando pelas ruas (esse ano, coloquei a fantasia de diabinho para fora). Mas não consigo entrar nessa catarse coletiva de vale-tudo, incluindo desrespeitar o patrimônio público e a individualidade de cada um, impondo a sua própria festa aos outros.

Por isso, talvez, eu tenha certa simpatia pela Quarta-feira de Cinzas. Muita gente a odeia. Lembro de um trecho da montagem de Pedro Vasconcelos da peça Dona Flor e Seus Dois Maridos, na qual a personagem Norminha, em um caco colocado pela atriz Ana Paula Bouzas, vociferava: “Isso não é uma mulher, é uma Quarta-feira de Cinzas!”. Bela injustiça com o dia em que se revela a escola campeã do Carnaval carioca, apoteose da parte que mais gosto do período. O próprio nome historicamente dado à data já não favorece, afinal a quarta nem colorida é, é cinza – e tirando os fãs de Christian Grey, cinza em geral não é uma cor que remete a coisas boas.

Aliás, a quarta-feira como um todo é um dia injustiçado: você já reparou em quantas músicas já foram feitas com domingo, desde Titãs a É o Tchan, passando por Sullivam e Massadas? E sábado, que Cidade Negra e Xuxa cantaram? Sexta, tão ressaltada na voz de Chitãozinho & Xororó. A quarta já é aquele dia da semana em que você já está cansado porque o último fim de semana passou há alguns dias e o próximo ainda vai demorar um pouco pra chegar. E só é lembrada, exatamente, pela sua data mais famosa, a de Cinzas. E de forma melancólica, como diz Martinho da Vila, ao cantar o Carnaval da Vila Isabel de 1984:

“Os foliões são embalados
Pelo pessoal da bateria
Sonho de rei, de pirata e jardineira
Pra tudo se acabar na quarta-feira
Mas a quaresma lá no morro é colorida
Com fantasias já usadas na avenida
Que são cortinas, que são bandeiras
Razão pra vida tão real da quarta-feira...”

Sou o defensor das quartas-feiras nesse nosso site meio blog. Afinal, desde novembro de 2014, sou o autor delas. E devo dizer que simpatizo, sim, com a Quarta-feira de Cinzas. Parece que é aquele dia em que todo mundo desperta no Ensaio sobre a Cegueira e volta a enxergar após ter transformado o mundo numa grande barbárie. Tudo bem que hoje em dia tudo é desculpa pra prorrogar o Carnaval. Mas, pelo menos para mim, a mágica do Carnaval está aí: faça sua festa saudável com seus amigos e aproveite para fazer novos, mesmo que fugazes. Mas não é preciso vivê-lo loucamente para compensar o restante do ano “comportado” – bem entre aspas mesmo. 

Aliás, homens, não faz sentido algum esperar esse momento do ano para se vestir de mulher e “brincar” (sei...) de se atracar com outros nas ruas, se você passa o ano inteiro criticando quem se veste de mulher no seu dia-a-dia porque se sente bem assim. Não adianta bancar o(a) puritano(a) durante todos os demais dias e barbarizar nos quatro de folia, com direito a sexo na rua, inclusive sem proteção alguma (como presenciei em Ipanema na última segunda-feira). Isso é usar o Carnaval apenas para extravasar a sua hipocrisia e não celebrar a folia.

Dessa forma, prefiro ficar com mais uma bela canção imortalizada por Clara Nunes, dessa vez de João Nogueira e Paulo César Pinheiro, As Forças da Natureza – e torcer para que, quem sabe, um dia se concretize:

“As pragas e as ervas daninhas
As armas e os homens de mal
Vão desaparecer nas cinzas de um carnaval.”
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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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Um comentário:

rubemsan santana disse...

Aqui em Salvador parece um domingo a tarde...tudo muito tranquilo, graças a deuas!