terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Lei do Retorno




Eu tive um labrador alemão. Digo isso porque o pai é labrador e a mãe é pastor. Adotei ele em 2013, quando minha colega compartilhou o álbum no Facebook. Foi amor à primeira vista. De verdade. Infelizmente eu tive que doá-lo, a vizinha de cima encheu o saco até não poder mais. Reclamava quando ele latia durante a tarde, dos banhos que eu dava nele, ou quando ele latia de noite pros drogados que habitam a região. Ora essa, o moleque tinha apenas seis meses! Ok, ok, dava pra ouvir o latido dele da metade da rua, mas antes um cachorro latir do que miar, certo?! 

Certa vez, a conta da água veio altíssima, e claro, a velha jogou a culpa no Nico, quando, na verdade, era um cano furado no registro que fica no portão dela, fato esse que ela tentou esconder da gente, só que a filha acabou contando. Mas minha mãe, como não gosta de arrumar confusão com ninguém, se desfez do Nico, o MEU cachorro, sem deixar que eu me despedisse dele. 

Agora ele vive nos fundos de um terreno onde existe um centro espírita. Na rua em frente à minha rua. Somos separados por algumas casas, apenas. De madrugada eu ouço os latidos dele, graves, altos e fortes. De vez em quando eu chego do boxe e ele está latindo. Provavelmente com algum gato que entrou na área dele. Infelizmente, os meus horários e os do cara que cuida (e muito bem) dele não batem, logo, eu me contento com os latidos do meu garoto. 

Um mês depois que o meu garoto se foi, ela mandou arrumar a frente da casa, pagou caro pra caralho numa reforma que ficou horrível e deformada. Recentemente nós adotamos uma cadelinha. Sonho de consumo da minha mãe: uma cadelinha pra poder criar dentro de casa. Teria dado certo, se ela não fosse o demônio da Tasmânia em forma de cachorro. Nem o Nico era assim, o que me assusta um pouco. Mas é um doce de cachorrinha, juro! 

E adivinha quem já começou a reclamar? Isso mesmo. A vizinha. Aquela velha. Aquela insuportável que se faz de coitada. A mulher que eu sempre ajudei a levantar do chão do banheiro quando a filha gritava por socorro, ou quando ela desceu a escada rolando e virou a mão, ficando toda arrebentada. Ou quando eu fui arrumar a TV dela. Aquela velha que se esqueceu de tudo isso e me fez perder o meu cachorro. 

Certo dia, meus pais estavam dando um floral pra Honda, a cadelinha. Claro que ela latiu horrores. E a vizinha de cima começou a gritar, mandando a cachorra calar a boca, pra dar comida pra ela, enfim, fazendo barraco. Meus pais ficaram quietos, pois, assim como eu, eles acreditam na lei do retorno. No dia seguinte nós ouvimos um barulho na casa de cima. Alguma coisa pesada tinha caído no chão. Não demos muita ideia, porque estavam quebrando algo lá, logo pensamos que fosse por isso. No outro dia, a filha da velha foi falar com a minha mãe, dizendo que a velha tinha caído no chão do banheiro (o barulho foi esse), e que não pediu ajuda, pois pensou que minha mãe estivesse com raiva dela, por conta do escândalo que a velha fez. 

Não vou mentir pra vocês: Eu ri. E muito. Estão vendo? A lei do retorno é real, meus amigos. O que vai, volta. Minha mãe teria ajudado, ela tem coração mole. Eu já passei da fase de ajudar quem me sacaneia. Mas minha mãe teria subido e ajudado a velha, porém, ela não pôde pedir ajuda, por achar que minha mãe estivesse com raiva. Não que ela não estivesse, mas... 

Entenderam? A lei do retorno existe, e todos nós estamos sujeitos a passar por isso. Faça o bem. Seja legal. Não sabemos quando poderemos precisar da ajuda de alguém.
Leandro Faria  
Glauco Damasceno, do interior do RJ, é o colunista oficial das terças no Barba Feita. Tem aproveitado a fase de solteiro para viver tórridos casos de amor. Com os personagens dos livros que lê e das séries que assiste, porque lidar com o sofrimento do término com personagens é bem mais fácil do que com pessoas reais.
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Um comentário:

melo disse...

Acredito demais nisso ainda mais se o retorno for da minha mão na cara da pessoas.

Brincadeira, tudo está em constante rotação e não é preciso aguardar muito para que cada um de nós pague o preço exato pelo que fizemos de bom ou ruim.

Como fechar a conta cabe exclusivamente a nós mesmos.