sábado, 28 de fevereiro de 2015

Mães e Filhos





Três amigas e seus filhos; são elas minha inspiração para o assunto de hoje. Observo. Ouço as queixas e lamúrias. Sou solicitado a dar minha opinião. E, humildemente, tento dar um parecer ou conselho bacana à essas mães aflitas. Vamos aos casos. 

S. é uma colega de trabalho. Um doce de criatura, 43 anos, recém-separada do marido e mãe de três filhos: um menino de 12 anos, P.V., e duas meninas, E. de 14 e C. de 17. S. é realmente uma pessoa boa em sua essência e, por ser assim, carrega um caminhão de culpa nas costas. Resumindo bem sua história, ela teve um caso fora do casamento, o que motivou sua separação. Tudo bem, tudo normal, se não vivêssemos em uma sociedade machista até a medula. Como essa é a sociedade que nos cabe, S. foi tratada como a pior das adúlteras assim que o ocorrido foi confidenciado ao marido pela própria. Não cabe a ninguém julgar mas, com raras exceções, sabemos muito bem que quando uma mulher trai é porque há alguma falta da parte do homem, seja sexual ou emocional. Enquanto eles traem simplesmente por falta de vergonha e respeito, com raras exceções contrárias. 

S. é criticada por todos os lados. As pessoas próximas à ela (leia-se: família do marido) não se cansam de julgá-la, mesmo ela tendo se arrependido, pedido perdão ao traído e tentado reatar o casamento. O que foi em vão, pois o marido até tentou, mas seu orgulho de macho falou mais alto e ele preferiu arranjar uma namorada 10 anos mais jovem. Quem irá julgá-lo, pobrezinho? O coitado levou um belo par de chifres e tem todo o direito de refazer sua vida com outra pessoa. Enquanto a traíra safada merece pagar pelo seu pecado, sendo rejeitada até pelos filhos. É isso mesmo, os três escolheram ficar com o pai. 

Hoje, S. vive com a mãe e a irmã, praticamente uma agregada, e se sente péssima, achando-se a pior das criaturas, por ter jogado no ralo uma família de comercial de margarina por uma aventura sem importância. Fico pra morrer com a baixa autoestima de S., que é uma mulher meiga, charmosa, inteligente e interessante. Mas, o que mais me incomoda nas queixas dela é o comportamento da filha mais velha, C., que trata a mãe como a pior das vagabundas. Parece até personagem de telenovela, tipo aquela megerinha que maltrata a mãe a novela inteira, humilhando e rejeitando a coitada, sempre tentando uma reaproximação com a filha ingrata e insensível, até que no final ela dá uma bela surra na garota e o público fica de alma lavada com a catártica cena da mãe cansada de tantas humilhações daquela que colocou no mundo. Só que, nesse caso, quem queria dar a surra era eu. Como não posso, apenas aconselho quando S. chega no trabalho e desabafa toda chorosa que a filha a destratou mais uma vez, que dê seu desprezo, afinal, desprezo de mãe é muito mais amargo e doloroso que qualquer tapa na cara ou surra de cinto. 

O segundo caso é o de P. P. é uma colega da faculdade. Parece ser bem casada mas, sendo mãe de quatro filhos, sua vida parece um tormento. Ela tem 35 anos e os filhos N., G., L. e D., uma moça e três garotos, tem respectivamente 18, 16, 9 e 5 anos. 

P. é reservada, mas sempre que resolve desabafar, reclama em especial da filha mais velha, N.. Superficialmente, quem ouve P. falando, acha que garota é a típica adolescente mala. Dia desses, porém, conversando com mais calma com P., descubro que o buraco é bem mais embaixo e a mala em questão pode ser a própria mãe. 

Fico sabendo que P. acha que sua única filha pode ser lésbica e isso a mortifica por dentro, provocando sérios conflitos de relacionamento com N.. Sim, P. é homofóbica e preconceituosa, descubro isso enquanto conversamos e ela também. E, ao invés de ficar possesso e revoltado com ela, sinto uma pena enorme de seus filhos e uma vontade imensa de ajudá-la a ser a melhor mãe que ela conseguir. Pois P. tem tanto pavor de ter filhos gays, que me confidencia que L., de nove anos, é um menino efeminado e pensar em suas tendências homossexuais a deixa ensandecida. Pondero e explico que as pessoas são o que são e que não cabe a ela querer ou deixar de querer que os filhos sejam isso ou aquilo. Que como uma pessoa inteligente, instruída e que convive com gays, ela tem que saber que preferência e comportamento sexual nada tem a ver com criação, que é apenas a natureza de cada indivíduo. E o que cabe a ela é orientar os filhos a serem pessoas de bem, saudáveis, felizes, que não prejudiquem aos outros e não se prejudiquem. Que ela tem o poder transformador de tornar a vida dos filhos algo leve, com sua compreensão e entendimento das coisas ou um grande pesadelo, dominado pela ignorância, uma ignorância que não cabe no meio em que ela está inserida. Finalizo, pedindo que ela tome cuidado com as palavras que profere, especialmente ao pequeno L., pois certas palavras ferem tão profundamente, que não cicatrizam nunca. E, se realmente suas desconfianças se tornarem certezas - o que pode não acontecer, afinal, o preconceito faz com que preconceituosos, muitas vezes vejam fantasmas onde não tem – só ela pode fazer com que a experiência da homossexualidade não seja algo traumático para seus filhos, ao menos dentro de casa. Pois filhos só querem e precisam de apoio, afeto e aceitação, em resumo, amor. Uma equação bem simples: A + A + A = A. 

A última historinha é a de C. Das três, C. é a amiga mais íntima. Diferentemente das duas primeiras, conheço bem sua família e suas histórias. Aos 46 anos, C. é mãe de dois rapazes e uma garota: R.15, o caçula, R.22, o mais velho e R.18, a do meio. Eu gosto muito de R.18 e R.15, eles são gentis, educados e dóceis. Já o mais velho, R.22, é um pouco mais complicado. Quando nos encontramos esporadicamente, tratamo-nos apenas civilizadamente, porque apesar dos irmãos amáveis e da mãe maravilhosa e de mente aberta que ele tem, o moçoilo é machista e homofóbico. E como eu não sou obrigado a nada, não tenho paciência pra esse tipo de gente. Então fico num impasse, amo a mãe, mas não engulo o filho. Mas penso que dentro de casa ele está em desvantagem, pois C., R.18 e R.15, não tem nada de preconceituosos, consequentemente, acabam sendo seres bem mais evoluídos que o “ogrinho” mais velho da família. 

Essa semana, C. pediu minha opinião sobre um comportamento de R.15. Me contou ela, que o caçula é fissurado em Zac Efron e Orlando Bloom, e sempre que ele assiste algum dos dois em seus filmes, faz comentários sobre a beleza deles. Muitas vezes faz isso na presença de R.22, o que deixa o irmão enfurecido, chamando-o de veadinho pra baixo. C. me perguntou se eu achava que R.15 pode ser gay por fazer esses comentários. Eu respondi que R.15, na verdade, é um grande pândego, pois já conhece a homofobia escrota do irmão e usa isso para provocá-lo. No fundo, toda a mãe atenta e amorosa sabe se um filho é gay ou não, e desconfio que C. me faz esses questionamentos apenas para testar o meu “gaydar”. Digo à ela que, no máximo, R.15 pode ser bissexual, mas isso é uma outra história. Independente do que ele seja, ele é um fofo e merece a mãe linda e incrível que tem. 

Agradeço minhas queridas S., P. e C. por me permitir expor suas histórias aqui. Fico feliz por ser ouvinte e poder contribuir um pouquinho que seja a elucidar certas questões maternais. Justo eu, que muito provavelmente nunca serei mãe. Será? 

E não se esqueçam das sábias palavras de Vinícius de Moraes: 
“Filhos, melhor não tê-los. Mas, se não temos, como sabê-los?”
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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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Um comentário:

melo disse...

Não tenho isso em mim e confesso que pouca paciência com quem os tem pois me parece que a vida se encerra nesse momento em que deixam de ser pessoas e passam a ser pais.

Entendo a vocação mas acho um preço altíssimo a se pagar em detrimento de outra pessoa que nem sempre vai corresponder às suas expectativas.

Para isso, não precisamos procriar, já há gente bastante que o faz no mundo.