quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Ninguém Mais Sabe Brincar e, Mesmo Assim, Desce pro Play




Domingo foi o dia do tão aguardado Grammy. Como bom nerd que sou, estava louco para saber o que a indústria da música tinha preparado, além de shows inesquecíveis. Já fazia um bom tempo que as apresentações não tinham tantos nomes consagrados da música. A lista de importância era enorme. Muitos artistas, muita música e muito ego.

Paralelo ao que acontecia em Los Angeles observei uma movimentação meio engraçada na timeline do meu Facebook. Algumas pessoas se mobilizando em marcar presença e convidar amigos para o “evento” de impeachment da nossa presidente. Ri um pouco com aquilo, já não é novidade esse tipo de evento-protesto, afinal vem acontecendo desde o fim da eleição.

Foi incrível ver o AC/DC abrindo os trabalhos no palco que ainda traria Rihanna com Paul MacCartney & Kenye West, Usher & Stevie Wonder, Sia, Sam Smith & Mary J. Blige, Madonna, Beyoncé, Katy Perry, Hozier & Annie Lennox e tantos outros cantores talentosos e consagrados. Foi ótimo ver e torcer por alguns e até ser surpreendido em algumas categorias. Por exemplo, Sam Smith (o grande vencedor da noite), levou por “Álbum Vocal Pop”, por não considerar esse o estilo do cantor, acreditei que Katy, Ed ou Coldplay levassem a melhor. Canção do ano, que também pensei que fosse ser levada por Fancy ou Shake It Off, também teve nos braços de Sam Smith, seu destino certo. Mas será que Stay With Me foi tão popular quanto as outras duas?

Mas vejam. Grammy não é sobre popularidade. É um prêmio dado aos músicos, cantores, produtores e todos que se envolvem no trabalho fonográfico. Vendagem não conta, fãs também não. São críticos que decidem quem leva ou não o prêmio pra casa. Pode ser complicado para os fãs da Beyoncé aceitarem que o álbum do ano foi Morning Phase, do Beck e não Beyoncé, da Beyoncé. Sim, o álbum da diva do pop foi lançado sem anúncio e o projeto caiu como uma bomba no meio musical derrubando todos os forninhos. Sei muito bem disso e eles também sabem, mas lá, no Grammy, isso não conta absolutamente em nada. Eles estão ali para premiar as realizações artistas e técnicas.

Mas, por segundos, alguém se manifestou fazendo uma brincadeira autorreferente. Sim, estou falando sobre Kenye West e seu ato de subir ao palco do VMA no ano de 2009 e tirar da iniciante Taylor Swift seu momento como vencedora de melhor clipe feminino. Sim, ela venceu Beyoncé na época. O tão famoso ato não entendi até hoje. VMA, Grammy, Oscar, Emmys, Golden Globes. Essas premiações nem sempre vão com o meu gosto ou com o seu, mas subir ao palco e dizer que alguém é o “verdadeiro vencedor” e diretamente menosprezar a outra é pessoa é, além de grosseiro, errado.

Hoje todo mundo quer impor o que pensa. Se for contra o que lê, faz questão de ir até determinada publicação e dizer o que bem entende. Sem pensar que não pode fazer isso e nem deve. Sua opinião, por melhor que seja, é sua. O mundo não está morrendo de curiosidade para saber o que você pensa. Seus amigos, talvez, mas nem todos. E com toda certeza o resto do mundo não está nem aí. 

As pessoas estão cada vez mais chatas por não saberem dividir. Aquela máxima que aprendi na infância, que todo mundo deve compartilhar a bola de futebol, se não ninguém joga, só o dono dela, é cada vez mais válida. Hoje, não existe só um dono da bola. O que temos é uma rua cheia de pessoas e cada uma possui sua bola para brincar. O problema está em compartilhar. Se hoje, todo mundo pode mandar no jogo, quem é que vai se sentir disposto a participar de uma brincadeira em que não concorda com as regras? É mais ou menos assim que vejo esse evento de impeachetment. Sai quem tá na presidência, mas não assume o outro candidato “sonhado” por outras pessoas durante as eleições. As regras não são essas, o jogo é outro. E esse, muito bem jogado.

Na época em que as pessoas ficam mimadas por culpa das redes socais, viver no mundo real pode ser frustrante, pode ser chato. É ter que pensar duas vezes se quer mesmo descer para brincar no play. E saber que nem sempre todos vão querer a mesma brincadeira que você. 
Leandro Faria  
Silvestre Mendes, o nosso colunista de quinta-feira no Barba Feita, é carioca e formado em Gestão de Produção em Rádio e TV, além de ser, assumidamente, um ex-romântico. Ou, simplesmente, um novo consciente de que um lance é um lance e de que romance é romance.
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