quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Onde Foi Que Perdemos o Respeito?





Vivemos tempos de intolerância. Isso é fato. Curioso é que, em tese, a humanidade evoluiu. Largamos uma era na qual andávamos sobre quatro patas e soltávamos grunhidos para outra em que a tecnologia está em todos os lugares, ao simples alcance de um toque ou de um comando intuitivo. Mesmo assim, parecemos viver as barbáries nossas de cada dia como se fosse algo inerente à nossa espécie.

Uma das coisas que se perdeu nessa “evolução”, em especial nos últimos anos, foi o respeito. Particularmente, fico muito impressionado em como se perdeu o respeito à figura do outro, à comunidade, à autoridade e até mesmo à vida humana. Mais uma vez, acredito que tenha sido algo que se potencializou com as redes sociais, esses ambientes tão hostis em que todo mundo tem voz (mas, lembrando bela frase do colega Silvestre Mendes em coluna aqui noBarba Feita, quem estará ouvindo se todos estiverem gritando?).

Um episódio recente que demonstrou como andamos faltando com o respeito são as reações às figuras públicas associadas ao chamado “Escândalo do Petrolão”. Todo mundo tem seu direito à indignação, a cobrar apurações e punições severas, a querer respostas e decisões do poder público. Mas daí a fazer chacota com as feições da ex-presidente da empresa só porque ela seria feia ou com um dos denunciados apenas por uma questão de má-formação no olho, acho um bocado demais. Se ela fosse uma musa dentro dos padrões estéticos mais exigentes, será que teria o mesmo tratamento hostil? Se ele tivesse sua beleza à la Clark Gable, estaria se falando em fazer máscaras para pular o Carnaval?

O mesmo vale para a atual e o ex presidentes da República. Juro que me assusta a quantidade de impropérios que li sobre ambos recentemente. Piadas grosseiras sobre a sexualidade dela, sobre um possível alcoolismo dele, sobre serem bandidos... Se um dia forem comprovadas diante da Justiça qualquer conduta que seja crime, que cumpram suas penas. Por ora, até onde eu sei, são os dois mais recentes presidentes de nosso país, que receberam os votos (e a esperança) de dezenas de milhões de brasileiros. A vitória no segundo turno de 2006 chegou a ser considerada a maior votação direta em um país democrático na História mundial. Mesmo que haja divergência de opinião ou ideologia, isso é parte de viver num mundo onde a maioria faz as escolhas. Afinal, como disse John McCain no dia seguinte ao anúncio da primeira vitória de Barack Obama: “Ontem ele era meu oponente. Hoje ele é o meu presidente. Desejo a ele sorte na sua caminhada”.  Ainda assim, a discordância se traduz em desrespeito. Nem mesmo no único caso até hoje de impeachment em nosso país houve tamanha hostilidade – e olha que o tal ex-presidente já cumpriu sua pena jurídica e retornou à política eleito novamente democraticamente. E não vejo as gerações mais antigas desrespeitarem dessa forma mesmo os chefes dos regimes mais duros de nossa História.

Não precisamos ir a esferas tão altas. Não são poucas as notícias sobre desrespeito a professores em sala de aula – a ponto de muitos abandonarem a profissão. Ou de pessoas na fila do supermercado que não respeitam atendimentos prioritários ou para menos volumes. Ou de filhos que não correspondem à autoridade dos pais – até porque as punições na relação paternal têm mesmo que evoluir e isso implica também entender como pode funcionar uma estratégia educativa efetiva, sem palmadas ou castigos mais violentos.

Fica uma eterna sensação de que algo se perdeu no tempo-espaço da humanidade. Como diz o samba de Nei Lopes e Wilson Moreira, imortalizado por Clara Nunes, com o sábio nome de Coisa da Antiga:

“Hoje mamãe me falou de vovó só de vovó
Disse que no tempo dela era bem melhor
Mesmo agachada na tina e soprando no ferro de carvão
Tinha-se mais amizade e mais consideração

Disse que naquele tempo a palavra de um mero cidadão
Valia mais que hoje em dia uma nota de milhão
Disse afinal que o que é de verdade
Ninguém mais hoje liga
Isso é coisa da antiga”.

Para que não vire peça de museu ou mais uma estrofe da canção citada, é preciso que trabalhemos diariamente o conceito de respeito, mesmo àquilo que vai além da nossa compreensão. Porque desrespeito, assim como a corrupção, começa em cada um de nós, nas pequenas intolerâncias (ou tolerâncias) do dia-a-dia – e antes de cobrarmos, precisamos demonstrá-lo nas nossas atitudes. 

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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Um comentário:

melo disse...

Excelente texto!

Realmente em algum ponto do caminho deixamos cair esse algo e jamais voltamos para pegar se é que notamos que o perdemos.

Acho que não sabemos como demonstrar nossa indignação, como argumentar sendo mais fácil partir logo para a agressão verbal ou física ainda mais em redes sociais que nos permitem um anonimato perfeito.

Sinto como se todos estivessem gritando 'lobo' no galinheiro quando, na verdade, o lobo já é há muito o dono da fazenda toda...