quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Pelo Direito de Ser Chato




Sim, eu sou um cara chato. Tenho plena consciência disso. Não o chato do mi-mi-mi (esse, nem eu aguento), mas o chato cricri. Sou metódico. Muito. Um autêntico virginiano nascido fora de época. Incomodam-me objetos fora do lugar, gente bêbada demais, decoração em assimetria não-proposital, pregadores diferentes para pendurar a mesma roupa. Há quem diga que possam ser sinais de TOC e que ainda vai piorar com a idade. Eu acredito que já fui pior. 

O problema para mim não está no fato exclusivo de ser chato – algo bem resolvido em minha vida. O problema é que vivemos hoje em dia uma espécie de ditadura cool, em que todo mundo tem que mostrar como é legal, viajado, simpático e gente boa. Sem dúvida, eu adoro ser querido. Adoro viajar e compartilhar com os amigos os meus momentos de férias. Adoro quando as pessoas dizem que eu sou boa praça – costumo dizer que meu objetivo de vida é, quando eu morrer, as pessoas lamentarem que o mundo perdeu um cara legal. Mas nem por isso deixo a minha essência cartesiana e (por que não?) ranzinza de lado. 

E o que mais me incomoda em quem não tolera chatos como eu é sempre achar que apenas os cools estão do lado bom da força. São sempre as vítimas de opressores que ficam fiscalizando suas vidas cucas-frescas e felizes; quando, na verdade, não avaliam que nós não buscamos nada, apenas paz em nosso canto, e de repente somos tomados de assalto por algo que nos atinge em nosso bem-encaixado mundo. Não somos patrulheiros que ficam rondando buscando algo para nos indispor; somos apenas olhos apurados e exigentes na hora e local certo. 

E somos, sim, felizes assim, sem suas despreocupações e displicências com a vida e os outros. Muitos não percebem que, da mesma forma que eles se sentem atingidos por nossas atitudes, nós nos sentimos atingidos pelas atitudes deles. 

Como tudo nessa vida, isso se potencializou com as redes sociais. É nos Facebooks da vida onde todos julgam e são julgados. Qualquer passo seu é vigiado e interpretado, muitas vezes para o mal – e não só os chatos o fazem, meus caros. Veja só que ironia passei dia desses: uma grande amiga minha viu um comentário meu num post e entrou em contato, de forma educada e cumprindo seu papel de amiga, para dizer que eu estava soando chato. Disse que me amava mesmo eu sendo “fiscal” do jeito que eu era. Mas quem estava sendo fiscal exatamente nessa situação? Eu ou ela? Ou os dois? 

Mesmo aqui pelo Barba Feita: após a publicação do meu texto sobre o Carioca Tipo Exportação, ouvi mais de uma vez que o texto era chato e recalcado (embora a maior parte das reações tenha sido favorável). Eu sabia dos riscos de desagradar com um texto como aquele. Mas é a minha opinião – e gosto de tê-la respeitada, assim como respeito quem me acha chato. 

Virtude ou defeito, charme ou desgraça, seja lá o que for, ser uma pessoa chata é uma constatação. Na verdade, a chatice é como yin e yang: você pode até não ser dominada por ela, mas, no fundo, pelo menos um pouquinho todo mundo tem. 

Eu assumo a minha. E você?

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Leandro Faria  
Paulo Henrique Brazão, nosso colunista oficial das quartas-feiras, é niteroiense, jornalista e autor do livro Desilusões, Devaneios e Outras Sentimentalidades. Recém chegado à casa dos 30 anos, não abre mão de uma boa conversa e da companhia dos bons amigos.
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3 comentários:

Esdras disse...

Eu acho que esse deve ser só mais um charme seu. Agora, não pendurar roupas com prendedores diferentes é TOC total, achei hilário!

Glauco Damasceno disse...

Super TOC o dos prendedores HAHAHAHAHA mas tá aí, ser chato é um direito de todos!

Leandro V. disse...

Eu também não sou o chato que gosta de mostrar para os outros que é chato, mas por dentro eu sou cricri. Qualquer coisa pode me irritar do nada. Tento ser menos crítico, mas não é fácil.