sábado, 7 de fevereiro de 2015

Precisamos Falar Sobre Bullying. Sempre!




O curta-metragem brasileiro Sobre Papéis, exibido no 22° Festival Mix Brasil de Cultura da Diversidade, apresentado no mês de novembro de 2014 em São Paulo e Rio de Janeiro, é um relato tocante e delicado sobre as mazelas dos anos escolares, tendo que lidar com o bullying diário, quando o que você mais precisa é se entender e ser compreendido. De maneira leve e bem-humorada, mas sem perder a seriedade, o curta mostra a barra de ser perseguido e atormentado por ser gay, na fase mais punk da vida de todo mundo, a adolescência.

Apesar de ser um curta de apenas 17 minutos, o filme é completo e redondinho. Não vou contar o final, que é fofo e emocionante, mesmo deixando uma sensação incômoda, mas tem uma cena em particular, que é uma de minhas preferidas e creio que de fácil identificação com quem já passou pela experiência nada doce do bullying escolar.

Victor, o protagonista, aos 27 anos encontra-se com ele mesmo aos 17, nos corredores da escola, em um momento em que o adolescente não suporta mais a perseguição dos colegas e pensa em se jogar do último andar do prédio. Numa cena surreal e repleta de lirismo, o Victor adulto, prestes a receber alta da psicanálise, impede que seu "eu" garoto dê cabo da própria vida, contando a ele como sua vida será boa no futuro. Que ele se assume pra família, se forma com louvor e até tem um namorado que ama muito. Fascinado com as boas surpresas que o futuro lhe reserva, o adolescente desiste da ideia de suicídio. E o Victor adulto finaliza, dizendo que dói bastante, mas tudo passa, e ele não poderia ser mais feliz.

Assistindo essa cena, foi impossível não lembrar dos meus anos escolares. De toda a perseguição, chacota, humilhação, ameaças de surra na hora da saída, medo, muito medo. Um grande e escaldante inferno, tão insuportável quanto difícil de se livrar, que é quase impossível imaginar que um dia você se liberta de tudo aquilo e se torna muito melhor que todos os seus algozes. Mas é assim que acontece. As vítimas de bullying sempre serão mais inteligentes, interessantes, divertidas, felizes e realizadas que seus bullies. Mas isso não impede que muitas vezes se carregue o trauma pro resto da vida.

Cada um lida com as marcas do bullying sofrido, à sua maneira. No caso de Victor, foi preciso 10 anos de psicanálise para se livrar de suas chagas. Em casos mais graves, alguns até desenvolvem certo grau de psicopatia. Outros, andam por aí com um certo desejo guardado no fundinho do coração, devaneando planos de vingança contra os que lhe imputaram vergonha e humilhação no passado, como este colunista que vos escreve. Certamente, meu fascínio por filmes, livros e quaisquer histórias sobre vingança, está ligado às minhas amargas experiências juvenis. E minha necessidade de exorcizá-las é tamanha, que não raro me vejo reencontrando os pequenos homofóbicos dos meus verdes anos, já homens feitos e com uma vida medíocre, e aplicando a eles as formas mais cruéis e sofisticadas de vingança.

Não tem jeito, quem sofreu repetidas sessões de bullying em algum momento, leva suas lembranças pela vida afora. Por mais que se supere, sempre fica uma memória, um resquício, eternamente. Algumas histórias, mais tarde, até fazem você se sentir como o personagem de um filme. Eu tenho uma história assim.

A história do meu primeiro baile. Devia ter 11 ou 12 anos. Estava na 5° série. Tinha uma melhor amiga chamada Ísis, que era tudo pra mim. Era ela que não me fazia sentir um completo esquisito. Branca, loira, rica e "hétera", Ísis era um modelo pra mim, babava de admiração por ela e me sentia o máximo sendo seu melhor amigo. Até transformar o ogro que adorava me infernizar, num garoto doce comigo, quando os dois começaram a ficar, ela conseguiu. Ísis era minha diva, e eu tinha certeza que nunca me magoaria.

Fizemos planos animados para nosso primeiro baile escolar. Nele fantasiei que tudo seria como nos filmes americanos. Sentaríamos na mesma mesa, paqueraríamos e depois nos acabaríamos na pista de dança. Todos seriam gentis, simpáticos e amorosos comigo, afinal eu estaria acompanhado da Ísis, a patricinha mais fofa e querida da escola. O problema é que a imaginação é sempre mais generosa que a realidade.

Sentamos juntos, numa mesa afastada dos demais. Em certos momentos, notava que Ísis se sentia incomodada com algo. Os demais colegas nos ignoravam, certamente por minha causa. Ísis não estava gostando de se sentir impopular. Eu via todos dançando animados e felizes, tão normais e legais. Esperava que Ísis me puxasse pelo braço até a pista de dança, me enturmasse com todos e os fizessem ver como eu também era legal, ela mais do que ninguém sabia disso. Mas não foi o que Ísis fez. Convidada pra dançar por um garoto, ela foi saltitante pra pista sem mim e me deixou sozinho naquela mesa vazia. Foi um dos momentos mais tristes e frustrantes da minha vida. Eu senti tanta vergonha de não ser nada pra ninguém naquela festa, que em menos de uma hora ela acabou pra mim. Fiquei ainda por alguns minutos observando de longe, Ísis dançando radiante, com um sorriso escancarado na pista, e me perguntando "por que?". Não comi, não bebi, não dancei. Ísis não cumpriu nosso combinado. Fui embora magoado, me sentindo como aquele personagem de comédia romântica adolescente, que no tradicional baile de formatura americano, enquanto são escolhidos o rei e a rainha, ele é o rejeitado, o patinho feio, o estranho, como Carrie. Acho que Carrie é a melhor definição, pois tudo o que eu queria era ter poderes como os dela, pra sair destruindo tudo.

É engraçado como escrever sobre esse passado remexe com tudo dentro da gente, o que teoricamente já estaria superado. Uma pequena revolta se contorce bem lá no fundo, dói um pouquinho, mas também exorciza outro tanto. E o episódio do baile é tão marcante na minha vida, que continuo exorcizando-o até hoje. Toda a vez que vou à baladas e festas, não é simplesmente uma balada ou uma festa, é o meu momento de brilhar, de descer até o chão, de me acabar e sair encharcado de suor. É como se a pista de dança fosse um palco, onde todos me olham e entre globos coloridos, fumaças e luzes artificiais, ao som de dance music, vivo a minha catarse.            

O meu super-poder é ser feliz e me sentir o máximo por ser quem eu sou, apesar de todos os que tentaram me matar um pouquinho a cada dia, quando eu não sabia que ser quem eu era, era maravilhoso. Hoje eu sei. E como Victor, garanto, dói bastante (enquanto você não sabe), mas passa (porque você não tarda a descobrir).

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Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
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2 comentários:

André Arteiro disse...

Bela história, apesar de triste, querido... Ás vezes recordar dói,não? Mas são esses momentos que a gente guarda para sempre que ajudam a definir quem somos... Ou dar a volta por cima, como você fez rsrs

André Arteiro disse...
Este comentário foi removido pelo autor.