segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Probabilidades e Improbabilidades da Vida





"Si es cuestión de confesar, nunca duermo antes de diez
Ni me baño los domingos
La verdad es que también lloro una vez al mes
Sobre todo cuando hay frío
Conmigo nada es facil, ya debes saber
Me conoces bien..."
Inevitable (Shakira)

Fico pensando nos caminhos que a vida toma e que muito do que somos hoje é reflexo de improbabilidades que, felizmente, se contrariaram. Parando para analisar friamente, a nossa história é feita de tantos "e se..." que deram certo, que é incrível pensar sobre o assunto, ora imaginando como seria se não tivesse sido assim, ora simplesmente aceitando que, na maior parte das vezes, o melhor aconteceu.

Eu nasci no interior do Rio, em uma cidade com população de aproximadamente 50 mil habitantes. E meu sonho, desde que eu me entendo por gente, era sair dali e conhecer o mundo que eu via na tela da televisão. Isso, para mim, sempre foi improvável. Sou filho de pais religiosos, que acreditam que felizes são as grandes famílias, com filhos crescendo, casando-se, tendo filhos e morando próximos. Mas eu saí de casa, fui morar sozinho e, gradualmente, me afastando de Smallville até me mudar definitivamente para o Rio, a cidade que eu adotei como minha. E viajo pelo mundo, experimento culturas, conheço pessoas, cores e sabores diferentes que fazem a minha vida hoje mais completa. E sempre que volto a Smallville (e ainda faço isso eventualmente, afinal, meus pais ainda moram lá), sinto apertado uma sensação de não pertencimento, que se aguça ao ouvir de algumas pessoas que me conhecem desde pequeno e me questionam: "mas como é metido, precisava mesmo sair daqui?". Pergunta estúpida, eu acho, porque a resposta é simples: eu NECESSITAVA.

O mesmo acontece com meu emprego. Eu reclamo, porque reclamar do trabalho é inerente ao ser humano, mas sou empregado de uma empresa pública, que me permite viver relativamente bem, patrocinando a vida que levo hoje. Já me questionei algumas vezes e até hoje me surpreendo de tudo ter dado certo, ao lembrar que me inscrevi no concurso por impulso e fui fazer a prova sem estudar uma linha sequer. E foi a improbabilidade de passar nessa prova que me fez sair de Smallville, me movimentando pouco a pouco até fincar raízes no Rio.

Assim como aconteceu com o vestibular para a UFRRJ, onde estudei e me formei, tendo ido prestar a prova me dedicando apenas algumas horas no fim de semana anterior à prova (e lembro bem o que estudei: matriz e determinante, para não zerar a prova aberta de matemática, sou desses) e acabei classificado em nono lugar. E tenho plena consciência que foram os meus anos de faculdade e o meu emprego que moldaram o Leandro de hoje, com os amigos que tenho, a vida que levo e as escolhas que fiz.

E tem a internet, é claro. Quem imaginaria que eu conheceria o amor da minha vida em uma sala de bate papo do UOL? Ah, fala sério, que coisa loser. Pois é, beijo pros recalcados, mas aconteceu exatamente assim. Foi a internet, tão desacreditada por tanta gente, que me trouxe o amor, que chegou disfarçado de fast foda. Improvável, eu sei, mas que pra mim se mostrou plenamente possível.

O que eu acho engraçado da vida é exatamente isso, as surpresas que ela nos proporciona. Porque podemos planejar, traçar estratégias e, muitas vezes, as improbabilidades surgem, nos virando pelo avesso, mas impulsionando nossos sonhos e desenhando o nosso destino.

E vamos sonhando, plantando e colhendo probabilidades e improbabilidades. E vamos vivendo...

Leia Também:
Leandro Faria  
Leandro Faria:, do Rio de Janeiro, 30 e poucos anos, viciado em cultura pop em geral. Gosta de um bom papo, fala pelos cotovelos e está sempre disposto a rever seus conceitos, se for apresentado a bons argumentos. Odeia segunda-feira, mas adora o fato de ser o colunista desse dia da semana aqui no Barba Feita.
FacebookTwitter


Um comentário:

melo disse...

Belíssima reflexão!

Pode soar clichê mas somos efetivamente a somatória das escolhas que fizemos e fazemos sejam elas conscientes ou não. Na verdade, mesmo as inconscientes não o são assim de todo imagino pois, de alguma forma, o que não decidimos de forma ponderada e cônscia penso que se introjeta de tal forma em nós que acaba por nos fazer escolher 'por osmose'.

O grande truque reside entretanto não em fazer ou não as escolhas mas em como vivemos com elas, como abraçamos e damos graças pelas que deram certo assim como entendemos e aprendemos com as que não se saíram assim tão bem, eis o pulo do gato e invariavelmente onde as coisas desandam pois pouquíssimos de nós tem a capacidade de viver com esse 'savoir faire'.

O arrependimento é um ácido altamente corrosivo e não apenas em nós mas a tudo que nos cerca, come impiedosamente tudo que toca e nos deixa amargos, dependentes de uma sociedade que está sempre pronta, com a mão estendida cheia de pilulas, para lhe fazer esquecer as coisas que deram não tão certo e ficar eternamente infeliz buscando acertar na próxima. Somos hoje criaturas que teme o imprevisto feito o maligno a cruz.

Eu procuro viver com meus demônios, não os expulsei porque se eles existem é porque eu os criei então, que eu aprenda a conviver com os mesmo mas, não os deixo ter (quase nunca) voz ativa ainda mais quando escolho mal ocasião em que eles amam espetar seus garfinhos no meu cérebro.

Essa matemática é ingrata mas eu dei meu jeito de fazer a conta fechar, às vezes não fecha mas tudo bem, é parte do jogo. Cada um deve aí fazer a sua aritmética.