sábado, 21 de fevereiro de 2015

Religião, Não!





Eu prometi a mim mesmo que não escreveria sobre esse tema aqui neste espaço, até porque meus colegas já fizeram isso algumas vezes, com muita propriedade. Mas eu sempre soube que, mais cedo ou mais tarde, ele não me escaparia. Afinal, vivi por 30 anos uma profunda e marcante experiência religiosa, tendo me desvencilhado dessa vida regida por normas bíblicas há apenas três anos. Sendo assim, durante a maior parte da minha existência eu estive ligado de todas as formas possíveis a uma religião, rígida e de pouquíssima boa fama.

E tirando o fato de ser gay desde que me entendo por gente e isso incomodar mais aos "irmãos" da igreja do que a mim, sempre me moldei às suas normas da melhor maneira que pude e, sinceramente, acreditei que aquele era o caminho, a verdade e a vida. Não posso negar que vivi momentos felizes sendo uma ovelhinha do senhor. Conheci pessoas especiais e tive amigos incríveis, porém, verdade seja dita, todos os melhores amigos que fiz enquanto "cristão" abandonaram a igreja muito antes de mim. São ou não são pessoas maravilhosas? Infelizmente, perdi o contato com a maioria deles.

Eu sempre fui contundente em afirmar que se não fosse o detalhe da minha sexualidade, viveria uma vida "cristã" plena e feliz. Se os juízes de plantão da igreja tratassem minha homossexualidade como algo irrelevante, eu seria o "irmão" mais fofo, correto e amado de todas as congregações espalhadas pelo mundo. Pois eu nunca fui hipócrita. Todo o tempo que estive inserido no contexto 'religião' foi de alma e coração sinceros. Por isso, quando decidi me livrar do jugo de homens que acham que são os representantes de Deus na Terra, fiz isso da forma mais serena e tranquila possível, com a consciência totalmente leve. Aguentei o quanto pude, até entender que eles falam de amor mas, definitivamente, não sabem o que significa.

Minha religiosidade era tão importante e levada a sério por mim, que eu tinha receio que as pessoas de fora, colegas de escola e trabalho, descobrissem que eu era religioso, pois minha homossexualidade era muito evidente e um gay dentro de uma instituição religiosa tão visada como a minha, mancharia a reputação dela. Olha a que ponto eu chegava, de me achar indigno de tal religião. Sentia vergonha, não de ser religioso, mas de não conseguir disfarçar minha "gayzisse" pra poder falar das minhas crenças.

E assim, chego ao ponto xis deste assunto, que me motivou a abordá-lo hoje. Chega a ser irônico que quando eu finalmente me liberto de todo o subjugo da religião e encho a boca pra dizer que não faço mais parte de nenhuma instituição religiosa, quando me perguntam, e me sinto muito bem assim. Os gays atualmente adoram dizer que frequentam a igreja, são evangélicos, católicos, protestantes praticantes. Fazem questão de dizer, como se quisessem reiterar a informação de que são gays, mas não são podres, devassos, indignos do amor de Deus.

Gente, na boa, isso me choca, me irrita e me desanima profundamente. Vejo como um retrocesso. Tantos gays que sofreram por anos e anos dentro de uma igreja, custam a se libertar e, quando finalmente conseguem, descobrem que a modinha do momento é voltar pra dentro dela. Porque esse bando de "veado" tonto, quer porque quer ser aceito e pertencer a algo que esteja dentro da hétero-normatividade.

Porque, por mais que se transvista de inclusiva, igrejas sempre trabalharão de mansinho e em silêncio para que você se torne um "homem" ou "mulher de Deus", com filhinhos, casa com jardim e uma família de comercial de margarina, pois o amor de Deus tudo pode.

Conversando com uma amiga querida e bastante sensata, questionei o por que do ser-humano sentir essa necessidade de estar dentro de uma instituição religiosa, seja ela qual for. E aqui não me refiro apenas às tradicionais igrejas ditas cristãs, que me causam arrepios cada vez que ouço uma bicha dizendo que pertence à ela, mas também as chamadas igrejas da diversidade, os terreiros de candomblé e umbanda, os centros espíritas, os templos budistas, entre outros. Todos parecem precisar absurdamente estar inserido em algo do tipo e eu pergunto por que? Minha amiga serenamente responde que é porque existem momentos em que necessitamos sim de energias positivas, de estar em contato direto com algo superior, que renove as nossas forças e que seja maior do que nós, um poder mágico e misterioso que dê leveza ao que tanto nos pesa. Que essa necessidade é inerente a qualquer criatura que respira e raciocina na face da terra.

E eu até entendo, sabe. Mas não seria tão mais simples e legítimo se apenas entrássemos em nosso quarto, fechássemos a porta e orássemos ajoelhados ou em qualquer outra posição mais confortável, e lêssemos trechos da Bíblia ou de qualquer outro livro religioso, num verdadeiro contato íntimo e pessoal com o Todo-Poderoso? É o que eu faço, e me sinto bem. E não vejo nenhuma necessidade de voltar a me enterrar dentro de uma igreja, apesar de receber todos os tipos de convites o tempo todo.

Não que eu recrimine e ache péssimo todos os gays que tem uma religião e se orgulham disso, longe de mim. Acho lindo os que tem uma fé genuína e não usam isso como uma espécie de redenção pro pecado de sua homossexualidade, como uma compensação por terem nascido tomados de desejos abomináveis. Admiro aqueles que desenvolveram sua fé tão naturalmente como desenvolveram sua sexualidade, sem forçação de barra, sem punções e lavagens cerebrais.

Quanto a mim, mantenho minha fé inabalável, mas quero distância de qualquer tipo de religião. Respeito todas as religiões e religiosos e convivo civilizadamente com todas as crenças, desde que ninguém venha me catequizar. Mas não me convidem pra nenhum culto, missa, mesa branca, bateção de tambor ou seja lá o que for. Obrigado. De nada!

Leia Também:
Leandro Faria  
Esdras Bailone, nosso colunista oficial do Barba Feita aos sábados, é leonino, romântico, sonhador, estudante de letras, gaúcho de São Paulo, apaixonado-louco pelas artes e pelas gentes.
FacebookTwitter


Nenhum comentário: